Como diz Maria Bethânia: Abraçar e Agradecer!

COMO DIZ MARIA BETHÂNIA: “ABRAÇAR E AGRADECER!”

Abraçar e Agradecer – Agradecer,/Ter o que agradecer./Louvar e abraçar!

Por Maria Bethânia 

Foto: Reprodução

Chegar para agradecer e louvar.
Louvar o ventre que me gerou
O orixá que me tomou,
E a mão da doçura de Oxum que consagrou.
Louvar a água de minha terra
O chão que me sustenta, o palco, o massapê,
A beira do abismo,
O punhal do susto de cada dia.
Agradecer as nuvens que logo são chuva,
Sereniza os sentidos
E ensina a vida a reviver.
Agradecer os amigos que fiz
E que mantém a coragem de gostar de mim, apesar de mim…
Agradecer a alegria das crianças,
As borboletas que brincam em meus quintais, reais ou não.
Agradecer a cada folha, a toda raiz, as pedras majestosas
E as pequeninas como eu, em Aruanda.
Agradecer o sol que raia o dia,
A lua que como o menino Deus espraia luz
E vira os meus sonhos de pernas pro ar.
Agradecer as marés altas
E também aquelas que levam para outros costados todos os males.
Agradecer a tudo que canta no ar,
Dentro do mato sobre o mar,
As vozes que soam de cordas tênues e partem cristais.
Agradecer os senhores que acolhem e aplaudem esse milagre.
Agradecer,
Ter o que agradecer.
Louvar e abraçar!

Os lindos versos do poema acima são de Maria Bethânia Teles Veloso, nossa cantora e compositora baiana, nascida em Santo Amaro da Purificação, no estado da Bahia, no dia 18 de junho do ano da graça de 1946. Bethânia é umas artistas mais engajadas do cenário musical brasileiro e uma das vozes mais lindas do Brasil.
Seus versos encantam pessoas de todas as gerações. Seus versos são mantras de um uma esperança realista para todas as pessoas que acreditam na beleza da vida e em um outro mundo possível. Gratidão, Ana Cristina Barros, pela dica da mensagem.

Bethânia – Foto: Ocupação
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Maria Bethânia em 1965 em cena no espetáculo 'Opinião', um dos objetos de análise da tese transformada em livro — Foto: Reprodução / Instituto Augusto Boal

Maria Bethânia em 1965 em cena no espetáculo ‘Opinião’, um dos objetos de análise da tese transformada em livro — Foto: Reprodução / Instituto Augusto Boal

Título: Maria Bethânia, primeiros anos – Da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro

Autor: Paulo Henrique de Moura

 Ao voltar embevecido para casa após assistir a um dos maiores espetáculos da carreira de Maria Bethânia, Dentro do mar tem rio (2006 / 2007), Chico César escreveu poema que fez chegar à artista através de e-mail enviado na manhã de 20 de março de 2007. Nos versos do poema, transformado em música apresentada pela cantora 14 anos depois no show Claros breus (2021), Chico personifica Bethânia como “águia nordestina de asas como velas abertas ao céu”.

Essa imagem da águia nordestina, aguerrida e indomada, se concretiza ao longo das 208 páginas do livro Maria Bethânia, primeiros anos – Da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro, escrito pelo jornalista Paulo Henrique de Moura e publicado pela editora Letra e Voz.

Produto gerado a partir de tese de mestrado defendida pelo autor em 2024, o livro traça os primeiros voos de Maria Bethânia em palcos de Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) de 1963 até 1968, mas com ênfase nos shows feitos pela artista entre 1964 e 1965.

Embora embaçada nas páginas iniciais pela necessidade de fazer introdução com os objetivos e métodos da dissertação de mestrado, a narrativa ganha fôlego e altitude conforme o livro avança. Sem constituir um entrave para a degustação do texto por seguidores da artista, a linguagem acadêmica evidencia com profusão de dados e fontes a consistência da tese defendida por Moura. O livro resulta necessário até pela escassez de material bibliográfico que detalhe a trajetória de Maria Bethânia nos palcos, sobretudo nessa fase inicial.

Artista refratária a biógrafos e sempre disposta a alimentar aura sagrada em torno de si, se portando como esfinge a rigor nunca decifrada na amplitude da importância que adquiriu na cena cultural brasileira, Bethânia sempre criou narrativa romanceada sobre esse início de carreira, em especial sobre a vinda da Bahia para o Rio de Janeiro, em janeiro de 1965, para substituir Nara Leão (1942 – 1989) no espetáculo Opinião, encenado desde 1964 com arquitetura construída na fronteira entre show e musical de teatro.

Com sutileza, o autor evidencia nas páginas 110 e 111, por meio das reproduções de depoimentos pregressos de Augusto Boal (1931 – 2009) e Caetano Veloso, que Bethânia veio na realidade fazer um teste, a convite da produção do Opinião, sem ter chegado ao Rio com a certeza absoluta de que iria de fato substituir Nara.

Em contrapartida, na página 120, ao analisar as formas faciais da artista no espetáculo, Moura alimenta o mito de que Bethânia estreou no Opinião com 17 anos – idade enfatizada pela artista em entrevistas na qual romanceia esse momento decisivo na carreira – quando, na verdade, a intérprete, nascida em 18 de junho de 1946, já tinha 18 anos quando chegou ao Rio na companhia de Caetano Veloso, designado pelo pai como guardião da irmã em terras cariocas.

Capa do livro 'Maria Bethânia, primeiros anos – Da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro', de Paulo Henrique de Moura — Foto: Divulgação

Capa do livro ‘Maria Bethânia, primeiros anos – Da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro’, de Paulo Henrique de Moura — Foto: Divulgação

Feitas tais ressalvas, o livro cumpre o prometido ao descortinar (na medida do possível) os bastidores dos espetáculos feitos por Bethânia ao longo de 1964, em Salvador (BA), e ao mostrar, a partir da análise de espetáculos posteriores como Arena canta Bahia – encenado em São Paulo em 1965 no embalo do sucesso de Opinião – e É um tempo de guerra, espetáculo que transitou por São Paulo (SP) e Salvador (BA), também em 1965.

Foi quando a águia nordestina, audaz, começou a mostrar que não se deixaria capturar pelo mercado e pela vontade de diretores, como o supracitado Augusto Boal, se recusando a ser enquadrada na moldura da “cantora de protesto” erguida pela mídia e incentivada por Boal a partir da interpretação de Carcará (João do Vale e José Cândido, 1964) no espetáculo Opinião. É que, na interpretação incisiva de Bethânia, Carcará alçou voo inimaginado na voz suave de Nara Leão e, por conta disso, a cantora baiana passou a ser carimbada com o rótulo adicional “de protesto”.

Insubmissa aos quereres de produtores e empresários, a águia nordestina pegou o caminho de volta para a Bahia e, na volta ao Rio, traçou a rota particular de um voo de altitude ainda hoje inalcançável pela maioria das cantoras brasileiras.

Ainda cruzando os céus do Brasil em 2025, 60 anos após a estreia no Opinião, tendo as asas da águia como velas abertas nos palcos iluminados, o longo voo artístico de Maria Bethânia teve ponto de mutação no show Comigo me desavim (1967) – espetáculo no qual a cantora foi guiada pela primeira vez por Fauzi Arap (1938 – 2013), diretor que se tornaria recorrente na trajetória da artista nos palcos – e em diversas apresentações em boates da cidade do Rio de Janeiro (RJ).

A partir daí, a intérprete assentou as bases definitivas do próprio repertório, marcando posição em canções politizadas, mas também dando voz a canções de amor e a músicas de era do rádio.

Guerreira ao modo dela, Bethânia nunca participou de guerrilhas ou movimentos, o que jamais a impediu de ser vista pela ditadura militar de 1964 como uma agente dos ideais de liberdade. Paulo Henrique de Moura triunfa na narrativa do livro ao provar que a existência em si de Maria Bethânia foi um ato político naqueles anos rebeldes.

Contudo, o livro extrapola a tese e se prova com alto valor documental por compilar e analisar informações até então dispersas sobre os primórdios da trajetória da artista na Bahia.

Ainda que os depoimentos dado por Bethânia ao autor sejam a rigor pouco elucidativos sobre esses shows iniciais, tendo somente o efeito de validar a tese aos olhos do público e da mídia, Paulo Henrique de Moura fez trabalho jornalístico alentado, conciliando pesquisas em jornais e revistas da época com entrevistas com nomes fundamentais como Rodrigo Velloso (irmão da cantora), Djalma Corrêa (1942 – 2022), Gilberto Gil e Roberto Santana, testemunhas dos espetáculos feitos por Bethânia ao longo de 1964 no Teatro Vila Velha, em Salvador (BA).

Aliás, ter tido acesso ao acervo desse teatro já lendário da capital da Bahia favoreceu o autor na apresentação de dados sobre o shows Nós, por exemplo… (espetáculo coletivo que reuniu Bethânia, Caetano, Gal Costa, Gilberto Gil e Tom Zé, entre outros nomes), Nova bossa velha & velha bossa nova (outro espetáculo coletivo, feito nos moldes do anterior, com elenco similar) e Mora na filosofia, este o primeiro show solo de Bethânia.

Maria Bethânia em 1965  em ensaio do show 'Opinião',  pelo qual ganhou o indesejado rótulo de 'cantora de protesto' — Foto: Funarte / Acervo Augusto Boal

Maria Bethânia em 1965 em ensaio do show ‘Opinião’, pelo qual ganhou o indesejado rótulo de ‘cantora de protesto’ — Foto: Funarte / Acervo Augusto Boal

Antes desses três espetáculos, Bethânia debutara nos palcos da Bahia em 1963 – aí sim com os míticos 17 anos – em montagem de Boca de ouro (1960), texto do dramaturgo Nelson Rodrigues (1912 – 1980) encenado em Salvador (BA) sob direção de Álvaro Guimarães (o Alvinho), com trilha sonora assinada por Caetano Veloso. No breu, quando a cena se abria, Bethânia cantava Na cadência do samba (Ataulfo Alves e Paulo Gesta, 1962), sucesso recente do ano anterior. “Eu cantava atrás das cortinas. Era um prólogo do espetáculo”, ressalta Bethânia em depoimento a Paulo Henrique de Moura no qual enfatiza desconsiderar a participação em Boca de ouro como a estreia nos palcos.

Para Bethânia, a estreia de fato foi em Nós, por exemplo…, espetáculo de agosto de 1964 que tem o programa reproduzido no livro. Ali, ao cantar sambas de Batatinha (1924 – 1997) e Noel Rosa (1910 – 1937), compositores que se tornariam recorrentes nos roteiros dos show da artista (Bethânia chegaria a gravar em 1966 um EP com músicas de Noel em um primeiro movimento para fugir do rótulo de “cantora de protesto”), a artista já começou a demarcar território.

Com a mesma formação do antecessor Nós, por exemplo..., Caetano Veloso, Gilberto Gil e Alcyvando Luz (1937 – 1998) dirigiram Nova bossa velha & velha bossa nova, show apresentado em novembro de 1964. A alta potência de Maria Bethânia na encenação desses dois shows coletivos pavimentou o caminho natural para que o grupo decidisse que a cantora seria a primeira a merecer um show solo.

Dito e feito. E assim, em dezembro de 1964, a águia nordestina alçou o primeiro voo solo com o show Mora na filosofia, orquestrado sob direção de Caetano Veloso. No roteiro, Bethânia teatralizou músicas como Favela (Heckel Tavares e Joracy Camargo, 1933) e Feio não é bonito / O morro (Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri, 1963), marcando posição política – e cabe lembrar que um tempo de guerra já se iniciara com a revolução de 31 de março daquele ano de 1964 – entre músicas como Ave Maria no morro (Herivelto Martins, 1942) e Chão de estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1937). “Ali já tinha uma assinatura minha de toda uma dramaticidade (…) que me atraía”, reflete Bethânia em depoimento para o livro.

E o resto foi uma história que ganhou dimensão nacional a partir de fevereiro de 1965 com a estreia da cantora no espetáculo Opinião (a narrativa romanceada de Bethânia crava 13 de fevereiro como o dia da estreia, mas anúncios e notas de jornais indicam que já houve apresentações com a cantora em 10 e 11 de fevereiro).

No livro Maria Bethânia, primeiros anos – Da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro, Paulo Henrique de Moura compila dados e apresenta pensamento coerente e bem fundamentado sobre a força política da intérprete e o incômodo provocado entre os agentes da repressão pelo primeiros voos dessa intrépida águia nordestina que jamais se deixou abater enquanto ecoava o canto do povo brasileiro.

 P.S,: em outubro de 2024, o colunista do g1 avalizou a dissertação de mestrado de Paulo Henrique de Moura, escrevendo um texto – feito de graça, sem receber qualquer remuneração por isso – que figura em uma das orelhas do livro Maria Bethânia, primeiros anos – Da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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