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Integração: palavra-chave para salvar o bugio-ruivo

Integração: palavra-chave para salvar o bugio-ruivo

O primata, ameaçado pelo desmatamento e a febre amarela, é o primeiro a ter seu programa de manejo integrado, que une os esforços em cativeiro e na natureza em prol da conservação da espécie.

Por Duda Menegassi/ O Eco

Em um recinto dentro do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma família incomum aguarda seu momento de voltar para o seu verdadeiro lar: a floresta. Tratam-se de oito bugios-ruivos, espécie de macaco ameaçado de extinção que vive apenas na Mata Atlântica. A soltura desta família, parte de uma iniciativa maior para repovoar o parque com seus animais nativos, representa a esperança de dias melhores para os bugios, encurralados pelo desmatamento e dizimados pela febre amarela.

O grupo é formado por dois adultos – um macho e uma fêmea sem rabo – com origem e experiência de vida livre e outros seis filhotes nascidos em cativeiro, inclusive um recém-nascido que “se juntou ao grupo” na semana anterior da translocação para o recinto de aclimatação no parque, onde estão desde o dia 11 de abril para aprender (ou relembrar) como é a vida na floresta.

A iniciativa, coordenada pelo Refauna, retoma a soltura de bugios-ruivos (Alouatta guariba), paralisada desde 2015, pouco antes do último surto de febre amarela, que começou em 2016. A doença é extremamente letal para os bugios e a soltura de novos grupos foi suspensa desde então. Em 2020, uma vacina foi desenvolvida emergencialmente para imunizar micos-leões-dourados e bugios. No caso dos bugios, a vacinação ocorreu apenas em animais de cativeiro. A família que será solta no parque já está imunizada. 

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O diretor-executivo do Refauna e biólogo Marcelo Rheingantz introduz um dos bugios ao recinto de aclimatação, no Parque Nacional da Tijuca, onde ficarão para se adaptarem com a floresta. Foto: Flávia Zagury

“A gente quer tanto que os animais cheguem lá com saúde, como não transmitam possíveis doenças para os animais que já estão na floresta”, explica Matheus Travassos, coordenador da Reintrodução de Bugios-Ruivos na Floresta da Tijuca do Refauna. 

Atualmente, outros oito bugios-ruivos já vivem sob o dossel da floresta carioca, dois que foram soltos anteriormente pelo Refauna e seis filhotes deste casal, que já nasceram em vida livre. “Vamos dobrar a população de bugios no parque com essa soltura”, vibra o biólogo. A soltura da família deve ocorrer ainda no primeiro semestre deste ano.

“A gente vai levar um outro grupo, com outra genética, então vamos duplicar as chances e amplificar as chances de acasalamento desses jovens. E isso é super importante, porque quando a gente tem uma população muito reduzida, a longo prazo, geneticamente, elas vão se deteriorando. Então a gente tem que ter entrada de novos indivíduos”, diz a veterinária Silvia Bahadian, do Centro de Primatologia do Estado do Rio de Janeiro (CPRJ), onde estavam os animais. 

“No cativeiro a gente pensa no indivíduo, na natureza a gente pensa em população. Se a gente conseguir estabelecer uma população com uma genética diversa daquela que já vive no parque, a gente já melhorou as chances de sobrevivência da espécie no local”, resume a veterinária.

Do recinto do CPRJ para o Parque Nacional da Tijuca, onde em breve terão seu reencontro – ou sua primeira vez – em vida livre, a ação coordenada pelo Refauna exemplifica a importância de ações que integram a conservação e manejo em cativeiro, o ex situ, com o trabalho feito diretamente no ambiente natural, in situ.

Esse é o principal objetivo do Programa de Manejo Populacional Integrado de Alouatta guariba (bugio-ruivo), que foi oficialmente reconhecido pelo ICMBio em fevereiro deste ano e é o primeiro do tipo para uma espécie da fauna brasileira. Os programas são uma ferramenta de gestão de fauna recém-criada pelo ICMBio, através da Instrução Normativa nº 5, em 2021.

O programa foi elaborado a partir de uma oficina, realizada no final de junho de 2022, que reuniu diversos atores envolvidos na conservação da espécie: órgãos ambientais federal e estaduais, instituições de pesquisa, criadouros conservacionistas e ONGs.

“Esse Programa de Manejo Integrado, ex situ e in situ, é muito importante para uma espécie que teve uma significativa perda de indivíduos em suas populações remanescentes. O bugio já vinha sofrendo com a fragmentação e desmatamento e acabou sofrendo ainda mais com a vinda da febre amarela. Primeiro nos anos 2000, na parte sul da distribuição, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. E mais recentemente, a partir de 2016 até 2020, vindo na parte norte da distribuição da espécie, desde Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, descendo até Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. Isso dizimou várias populações e reduziu drasticamente outras. E por conta disso se faz necessário pensar em ações para restabelecimento dessas populações naturais”, explica Marcelo Rheingantz, diretor-executivo da ONG Refauna e biólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

O biólogo, assim como a veterinária do CPRJ, são parte de um grupo de especialistas, composto por 19 pesquisadores de diferentes instituições, responsáveis por acompanhar e direcionar as ações propostas dentro do escopo do programa.

“Esse programa de manejo integrado do bugio é o primeiro que integra o manejo in situ e ex situ. Esses manejos sempre foram feitos, mas como ações separadas e, eventualmente, eram feitas reintroduções. No caso do bugio, as ações estão sendo pensadas de forma integrada desde o princípio. Então, por exemplo, chegou um animal resgatado, você tratou e ele tem capacidade de voltar, ele vai voltar para a natureza. Dessa forma vamos conseguir organizar melhor e coordenar o ex situ com o in situ em prol da conservação da espécie”, acrescenta Silvia.

A reintrodução no Parque Nacional da Tijuca, apesar de anterior ao programa de manejo, já segue a premissa da integração e as estratégias para soltura da família foram debatidas pelo grupo de especialistas e estão ajudando a servir de base para elaboração dos protocolos que serão criados.

Um dos 25 primatas mais ameaçados do mundo

Em agosto do último ano, os bugios foram um dos destaques da última edição da Primates in Peril (Primatas em Perigo) produzida pela organização Re:wild em conjunto com o o Primate Specialist Group (PSG), da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN), e a Sociedade Internacional de Primatologia (IPS). A publicação, elaborada desde 2000, chama a atenção para 25 espécies de primatas do planeta sob risco crítico de extinção.

A última edição, do biênio 2022-2023, traz quatro espécies brasileiras, dentre elas o bugio-ruivo (Alouatta guariba). A espécie aparece desde 2012 na lista mundial dos primatas mais ameaçados e as causas são as mesmas desde então: desmatamento, fragmentação e febre amarela. O último surto da doença, em particular, entre 2016 e 2020, foi um duro golpe para as populações da espécie, que é altamente suscetível à doença.

Conforme estabelece a Instrução Normativa, os programas são voltados para as espécies ameaçadas de extinção que dependem de ações coordenadas de manejo populacional, caso contrário podem ser extintas no período de três gerações ou menos, ou sofrer uma redução drástica da população na natureza neste mesmo período.

No caso do bugio-ruivo, a avaliação apontou para o segundo cenário: redução drástica nas populações silvestres em 60 anos – considerado o período de três gerações para um bugio, que vive de 15 a 20 anos. 

“Nós tínhamos uma prioridade no Alouatta guariba por conta da febre amarela, da redução drástica populacional in situ. E, paralelamente, a gente tem um número muito grande de indivíduos em cativeiro, muitos que foram órfãos da febre amarela. Ou vários que chegaram durante os surtos – eletrocutados, atropelados… – e depois de reabilitados eles não puderam voltar para a natureza porque o vírus [da febre amarela] estava circulando. Então a recomendação foi mantê-los. E com isso, temos uma superpopulação de cativeiro hoje em dia e vamos usar esses animais para repovoar, para reforçar populações que foram drasticamente afetadas pela febre amarela”, explica Mônica Montenegro, analista ambiental do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB/ICMBio).

O bugio-ruivo é uma das espécies contempladas no Plano de Ação Nacional (PAN) Primatas da Mata Atlântica e Preguiça-de-Coleira (1° ciclo 2018-2023). Um dos objetivos do PAN, como lembra a analista do ICMBio, é justamente manejar populações das espécies-alvo visando sua viabilidade. Nesse sentido, os programas funcionam como uma das ações do PAN, direcionando um olhar individualizado para as espécies que mais necessitam desse esforço organizado.

O programa terá um primeiro ciclo com duração de 10 anos, que poderá ser renovado em novos ciclos. O Programa de Manejo Populacional do bugio-ruivo está disponível no site do ICMBio.

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O recém-nascido que se juntou ao grupo dias antes da ida para o recinto na floresta terá a chance de crescer em vida livre. Foto: Flávia Zagury

Programa de Manejo Populacional

Os Programas de Manejo Populacional de Espécies Ameaçadas da Fauna Brasileira foram criados em junho de 2021, através da Instrução Normativa nº 5 do ICMBio. A ferramenta tem como objetivo recuperar e manter populações de animais ameaçados por meio de ações in situ (na natureza) e ex situ (em cativeiro) de forma integrada.

“O programa de manejo visa integrar todas as ações pela conservação da espécie ao longo da sua área de ocorrência e no cativeiro também. Tem que ser um programa integrado único, tem que coordenar as ações tanto in situ quanto ex situ. Para que o manejo populacional ocorra de forma coordenada, para que não haja iniciativas dispersas de manejo para conservar a mesma espécie”, esclarece Mônica Montenegro.

A integração das ações entre todos os atores envolvidos é o que preconiza The One Plan Approach, abordagem desenvolvida pela União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN) e adotada pelo ICMBio.

“É importante para não termos ações de manejo desconexas, porque sem uma diretriz única você não está fazendo conservação da espécie, você está no máximo fazendo a conservação naquela região”, pondera a analista do ICMBio. 

Cabe ao programa coordenar as intervenções de manejo relacionadas a determinada espécie-alvo, como captura, translocação, reprodução em cativeiro e reintrodução na natureza. “As ações para conservação de uma espécie têm que conversar em todos os sentidos e necessidades. As necessidades do in situ e do ex situ precisam estar juntas ali”, completa.

Para realizar uma ação de manejo com a espécie, é necessário apresentar um projeto ao grupo de acompanhamento, que verifica se a ação proposta está de acordo com as diretrizes do programa. Depois de aprovado pelo comitê, o projeto segue para autorização do SISBIO (Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade) e, se necessário, dos órgãos competentes a nível estadual.

O bugio-ruivo é a primeira espécie beneficiada pelo novo instrumento. Seguindo o seu exemplo, outro primata, o mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) é um dos próximos na fila, com seu programa já em fase final de validação e aprovação. O mico-leão-preto vive apenas na Mata Atlântica do estado de São Paulo e é classificado atualmente como Em Perigo de extinção.

No caso do bugio-ruivo, um dos objetivos expressos do programa é realizar o manejo populacional integrado em toda sua área de ocorrência para mitigar os efeitos das ameaças e restaurar as populações na natureza através de reforços populacionais e reintroduções de indivíduos.

Outro objetivo do programa é o ordenamento da população mantida em cativeiro, “que terá como papéis principais a restauração populacional da espécie na natureza e o estabelecimento de uma população de segurança. Como papéis secundários, estes plantéis também deverão ser usados em ações de educação e pesquisa para a conservação”, detalha o documento.

“Nós elaboramos uma planilha base que enviamos para as instituições dos diferentes estados, para que elas respondam dados como número de indivíduos, sexo, idade, procedência, nascimento em cativeiro ou natureza, condições reprodutivas, condições comportamentais, se é vacinado para febre amarela, etc. Uma série de informações que dê um entendimento geral dos indivíduos e da população que tem na instituição, no estado de forma geral”, detalha Cauê Monticelli, da Coordenadoria de Fauna Silvestre da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (SEMIL) do Estado de São Paulo. 

O biólogo é o novo studbook keeper da espécie. Ou seja, o consultor genealógico e ponto focal de gestão dos bugios-ruivos em cativeiro.

Cauê explica que o trabalho, que começou oficialmente apenas em fevereiro, está na fase de coleta destes dados a partir do retorno das instituições. Com estas informações, será possível ter um primeiro panorama nacional da população de bugios-ruivos em cativeiro.

A partir dessa listagem inicial, serão aplicados critérios estabelecidos pelo programa para saber se os indivíduos estão aptos ou não para contribuírem como o programa de conservação integrada. “Por exemplo, um animal castrado não vai fazer parte do programa porque a gente precisa de animais que reproduzam. Ou um animal de procedência desconhecida. Esses animais são tirados da lista de animais manejados do programa”, exemplifica Cauê.

De acordo com o biólogo, os números atuais desse levantamento – ainda em andamento – apontam uma população de 277 animais, distribuídos em 25 empreendimentos de fauna em seis estados brasileiros, que podem estar aptos para serem incluídos nas ações de conservação integradas do programa.

“Em curto e médio prazo, propõe-se realizar a translocação de indivíduos de instituições de manejo ex situ para a natureza com vistas à restauração de populações (reforço populacional e reintrodução), principalmente daquelas impactadas por epizootias [doenças] nos últimos anos. Já o estabelecimento de uma população de segurança (que deverá ser viável em termos demográficos e genéticos), processo um pouco mais demorado, servirá para translocações e restaurações futuras. Estas estratégias pretendem garantir a viabilidade da espécie na natureza, ao longo de sua extensão de ocorrência, reduzindo o seu risco de extinção no período de três gerações”, estabelece o programa.

Uma vez selecionados, os bugios-ruivos da população de segurança serão cadastrados individualmente em softwares, utilizados internacionalmente e específicos para o manejo ex situ, que vão fornecer dados demográficos gerais e apontar tendências para a população em cativeiro.

Outra ação importante, pontua Cauê, é que todas as instituições que possuem bugios-ruivos sob seus cuidados, sejam de gestão pública ou privada, juntem-se oficialmente ao programa de manejo e comprometam-se a seguir suas diretrizes.

Seguindo o exemplo do Refauna no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, outras instituições já planejam ações de reintrodução e reforço populacional de bugios-ruivos na natureza nos estados de São Paulo e Santa Catarina.

O dilema genético dos bugios

Na lista das espécies contempladas pelo PAN dos Primatas da Mata Atlântica o bugio é dividido em duas subespécies, o bugio-ruivo (Alouatta guariba clamitans) e o bugio-marrom (Alouatta guariba guariba). Essa divisão, que dominou a compreensão sobre a espécie nos últimos anos, foi contestada recentemente por informações que apontam tratar-se de uma única espécie, sem subespécies. Ou seja, apenas Alouatta guariba.

“Apesar do PAN considerar duas subespécies de A. guariba, como já temos resultados genéticos que indicam que é uma espécie só, fizemos o programa [de manejo] sendo uma única espécie”, esclarece Mônica Montenegro, do CPB/ICMBio.

Enquanto a ciência aos poucos valida esta revisão genética dos bugios, os esforços conservacionistas dividiram a espécie em cinco unidades de manejo: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Argentina; São Paulo; Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais; Bahia; e Paraná.

“Essa é uma espécie que tem uma área de ocupação considerável, e por mais que seja considerada hoje duas subespécies, existe uma discussão se são de fato duas subespécies ou uma espécie só. Alguns estudos estão demonstrando divergências nessa questão, mas o que importa é que independente das divergências, eles seguem uma mesma premissa de uma certa distinção genética populacional, seja por questões atuais ou não. Então o ideal, enquanto não se tem mais informações que possam direcionar cada vez melhor esse conhecimento científico sobre a taxonomia da espécie, é não misturar. A premissa da precaução. Esses que são geneticamente muito parecidos, vamos considerar uma população única, e para isso foram sugeridas essas unidades de manejo específicas. Mas não vamos misturar animais da Bahia com os de São Paulo, por exemplo”, explica Cauê Monticelli.

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Equipe doo Refauna e do CPRJ durante a ação de translocação dos bugios para o Parque Nacional da Tijuca. Foto: Flávia Zagury

Situação crítica na Argentina

A situação dos bugios-ruivos é particularmente crítica na Argentina. A espécie ocorre apenas no extremo norte do país, onde a redução do habitat aliada às perdas causadas pela febre amarela levaram a um forte declínio populacional. Estima-se que existem menos de 100 indivíduos adultos nas florestas argentinas. O número tão reduzido fez a espécie ser classificada como Criticamente Em Perigo na avaliação nacional da Argentina de mamíferos ameaçados de extinção.

No final de 2021, o governo argentino oficializou um Plano Nacional para Conservação dos Primatas da Argentina, que inclui o bugio – e outras quatro espécies – e o objetivo de reduzir os impactos da febre amarela sobre os primatas do país.

Uma das ações consideradas para recuperação da espécie é a reintrodução ou reforço populacional a partir de animais de cativeiro para repovoar as florestas argentinas. A iniciativa, ainda em discussão, incluiria um esforço internacional já que o mais provável é que os bugios venham do Brasil e inclua animais já vacinados contra a febre amarela. 

“Eles estão buscando esse reforço populacional na Argentina com bugios brasileiros daquela região do Rio Grande do Sul, Santa Catarina. Estamos em discussão de quantos animais eles precisam, qual idade, sexo e que instituições podem enviar bichos para lá para fazer esse trabalho”, adianta o studbook keeper brasileiro. 

Duda Menegassi – Jornalista. Fonte: O Eco. Foto: Gerson Buss. Este artigo não representa a opinião da Revista e é de responsabilidade do autor.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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