ROSILENE CORRÊA: MESTRA DO ESPERANÇAR

Rosilene Corrêa: Mestra do esperançar

Ser filha de fazendeiro rico no interior é esperança de vida boa, de muita prosperidade. Com a professora Rosilene Corrêa Lima foi assim, no começo. Ela nasceu na pequena Petrolina de Goiás, a 50 km da capital, Goiânia, área nobre da agropecuária do estado, onde seu pai era um dos maiores fazendeiros, na década de 1960. Mas a história não foi bem assim.

Por Jaime Sautchuk

Uma trajetória de muito sacrifício e muita garra teve início, em verdade, quando ela, menina de seus 10 aninhos, viu o desespero de seu pai e sua mãe diante da falência. A entrega das terras, com pasto e lavouras formadas, patrimônios refinados, foi seguida de tristeza e desencanto num ranchinho de taipa nas paredes e sapê na cobertura, com chão de terra batida e sem luz elétrica, no distante município de Niquelândia, nortão goiano.

Com 13, então, ela foi morar em Anápolis, com a tia, voltando a estudar à noite, em turmas de adultos. Seus irmãos ficaram na roça, na colheita de feijão e outros serviços sazonais. Ela dedicava seus dias a serviços domésticos, em que tirava dinheiro pra comprar roupas, material escolar e sobreviver, enfim. Ainda na casa dos pais, coletou restos de feijão e vendeu em litros, o que viabilizou a compra do primeiro caderno de dez matérias.

Assim, pensando no lado profissional, em turma só de mulheres, cursou Magistério, mas logo pegou gosto pela profissão, a ponto de hoje dizer que “se eu não fosse professora, eu seria professora”. E a educação já estava incrustrada na sua vida, pois foi este o caminho que lhe foi aberto pra que buscasse uma vida menos sofrida do que aquela do sítio de Niquelândia.

O fato é que, assim, ao decidir encarar um dos poucos cursos superiores que havia na cidade, então, optou por Pedagogia, consolidando a escolha pela profissão. Aos 18 anos foi morar com outra tia em Alexânia, cidade que fica no meio do caminho dali a Brasília, mas todas as noites ia de ônibus até Anápolis.

E logo aprendeu, também, que a escola chega muito além daqueles muros e paredes que costuma ter, pois “é o espaço mais vivo e mais alegre que a gente pode ter”. E arremata: “É impossível ser educadora se não tiver uma relação intensamente humanizada com seus alunos, porque você acompanha, você trabalha o ano inteiro com as mesmas pessoas, o que vai além da escola”.

Ainda na juventude, em 1988, Rosilene foi morar em Taguatinga, no Distrito Federal. Acabou se fixando em Santo Antônio do Descoberto, ali perto, mas em território goiano, pois ela, aos 23 anos de idade, já era funcionária concursada do governo estadual, como professora. Logo depois, houve uma greve do magistério estadual e ela acabou liderando o movimento ali, sob a coordenação do sindicato de Luziânia.

Mas logo ela ficou grávida de sua filha e se transferiu pra Cidade de Goiás, antiga capital, onde fez o parto e engravidou novamente, o que a manteve afastada das escolas e sindicatos. Mas acabou indo bater de novo, de malas e cuias, no Distrito Federal, e logo fez um concurso da Secretaria de Educação local. Aprovada, assumiu a função de professora em 1993, e por ali ficou.

Logo em seguida entrou numa chapa e virou diretora do Sindicato dos Professores do DF (SinproDF), o que a levou, também, à direção da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). No Sinpro, acaba se envolvendo em atividades de todo o DF, pois a entidade é uma referência dos movimentos populares e, por isso, demandada a todo instante.

Após 34 anos de serviços, Rosilene aposentou-se.

Em 2022, foi candidata a senadora pela Coligação PT/PCdoB/PV. Obteve 356.198 votos. Como dirigente e militante do PT, Rosilene segue na luta, fortalecendo as políticas públicas propostas e implementadas pela gestão do presidente Lula. Em especial para a educação e para as mulheres.

Em 2026, Rosilene prepare-se para uma campanha  eleitoral, desta vez a disputa será para uma cadeira de deputada federal por Brasília nas eleições de outubro.

Jaime Sautchuk (1953–2021) – Jornalista. Cofundador da Revista Xapuri. Excerto de matéria escrita por Jaime em 2020.  Atualizada por Zezé Weiss em 2023 e 2026. 

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Em uma pequena casa no interior de Goiás, uma adolescente enfrentava a dura rotina da roça com os pais em Niquelândia, depois de ver seu pai perder as terras da família. Ainda assim, já sonhava com algo diferente. 
Hoje, Rosilene Corrêa Lima, nascida em Petrolina de Goiás, é uma das principais lideranças sindicais e políticas do Distrito Federal, conhecida por sua militância incansável em defesa da educação pública e dos direitos dos trabalhadores.
Aos 61 anos, Rosilene carrega no currículo décadas de atuação como professora, dirigente sindical e candidata ao Senado. Ela também é vice-presidenta do Partido dos Trabalhadores no Distrito Federal (PT/DF) e diretora da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), além de ter sido por muitos anos dirigente do influente Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro/DF).
Segundo ela, desde jovem nunca aceitou calada as injustiças — foi isso que a levou ao movimento sindical. Sua infância foi marcada por muitas dificuldades, mas jamais deixou de lutar pelos seus sonhos.
Rosilene trabalhou por 11 anos como professora em Goiás e, com muito esforço, conquistou uma vaga no magistério do Distrito Federal e lecionou nas escolas públicas da região administrativa de Samambaia. Foi a única de sua família a se formar, e essa conquista a impulsionou ainda mais a lutar por educação de qualidade e por dignidade para os trabalhadores.
Ascensão no movimento sindical
A experiência como professora evidenciou as dificuldades enfrentadas pelos profissionais da educação: salários baixos, falta de estrutura e pouco reconhecimento.
Foi esse cenário que motivou Rosilene a ingressar no movimento sindical. Sua atuação logo chamou atenção, e ela assumiu cargos de liderança no Sinpro/DF, onde coordenou greves, negociações e campanhas pela valorização dos professores.
Na sala de aula, ela percebeu que não bastava apenas ensinar — era preciso lutar por melhores condições de ensino. Para Rosilene, lutar significava organizar e conscientizar os trabalhadores, reivindicar direitos e enfrentar governos em defesa da educação.

No Sinpro/DF, teve papel central em campanhas históricas, como as mobilizações que garantiram reajustes salariais e planos de carreira para os professores da rede pública do DF.
Sua atuação nacional também ganhou força com sua entrada na Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), onde participa ativamente do debate sobre políticas públicas educacionais.
Participação política e candidatura ao Senado
A atuação sindical naturalmente a levou à política partidária. Filiada ao PT desde a década de 1990, Rosilene passou a integrar as direções do partido no Distrito Federal e, em 2022, lançou-se como candidata ao Senado Federal.
Sua campanha teve como eixos principais a defesa da educação pública, dos direitos das mulheres, o combate às desigualdades e o fortalecimento da democracia.

Ela afirma que a política institucional também precisa ser ocupada por quem conhece a realidade do povo. Por vir da base, da escola, entende quais são as mudanças necessárias para transformar a vida das pessoas.
Embora não tenha sido eleita, sua candidatura teve grande repercussão entre professores, movimentos sociais e militantes. Suas propostas incluíam investimentos contínuos em educação básica, valorização dos profissionais da educação, e programas de acesso à universidade para jovens de baixa renda.
Presença nas redes e reconhecimento
Rosilene também é presença ativa nas redes sociais, onde compartilha reflexões e denúncias sobre os desafios enfrentados pela educação pública no país. Participa de entrevistas, debates e projetos como o Museu da Pessoa, onde narra em detalhes sua história de vida e militância.
Sua trajetória inspira profissionais da educação e militantes, que a veem como exemplo de resistência, coragem e comprometimento com a transformação social. Para muitos, Rosilene representa a força da mulher trabalhadora que não se cala diante das injustiças. Sua luta é também a luta de milhares de professores e trabalhadores que enxergam na organização coletiva a única saída para conquistar direitos.
Futuro e legado
Apesar de não ocupar um cargo eletivo, Rosilene segue atuando intensamente na política sindical e partidária. Seu compromisso permanece inalterado: lutar por um Brasil onde a educação seja, de fato, prioridade.
Enquanto houver desigualdade, falta de escola, violência contra as mulheres e ataques aos direitos dos trabalhadores, ela pretende continuar na linha de frente, como sempre esteve.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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