SEIS PRA ELES, UM PRA TI: 6X1

SEIS PRA ELES, UM PRA TI: 6X1

SEIS PRA ELES, UM PRA TI: 6X1

Os trabalhadores não têm nada a perder a não ser suas correntes. 

Têm um mundo a ganhar.” 

Karl Marx

Por Geraldo Lopes de Souza Júnior

Caboco, esses dias a gente cometeu um erro clássico da vida adulta: tentar reunir a turma da nossa infância. Era só matar a saudade. Nada demais. 

Um churrasquinho, umas histórias repetidas, alguém dizendo que “naquele tempo era melhor” e outro jurando que ainda joga bola – mesmo com o joelho pedindo aposentadoria.

Mas aí começou o problema.

Tem os amigos que vivem no 5×2: trabalham de segunda a sexta e têm o fim de semana livre. Teoricamente. Já chegam dizendo:

– Bora sábado, que no domingo eu quero descansar!

Só que tem os outros. Os sobreviventes do 6×1. Esses respondem com um silêncio respeitoso, seguido de um:

– Rapaz… sábado eu trabalho.

– Então domingo! – grita alguém, ainda otimista.

Domingo até dá…, mas aí entra a vida. Um resolve coisa de casa, outro visita a mãe, outro precisa simplesmente… existir um pouco.

Quem vive de 6×1 não descansa. Se recupera. E, às vezes, nem isso.

Aí tentamos sexta à noite.

Um tá morto. Outro sai tarde. Outro já tá pensando no sábado. Tem a hora extra. E tem aquele cuja família também resolveu sentir saudade.

Tentamos marcar com duas semanas de antecedência. Virou reunião de cúpula: agenda daqui agenda dali, compromisso familiar, plantão, feira, conta pra pagar, roupa pra lavar.

No fim, a gente descobriu uma coisa triste: não é que a turma não quer se ver… é que o tempo da gente não bate mais.

E, quando o tempo não bate, a saudade fica sem data.

QUE ESCALA? 

Farofa 037 Escala 04

Caboco, deixa eu te contar uma coisa: a tal da escala 6×1 não é escala de trabalho, não. É um teste de resistência disfarçado de contrato.

Tu entras na semana cheio de planos: Segunda, tu acreditas. Terça, tu insistes. Quarta, tu negocias com Deus. Quinta, tu sobrevives. Sexta, tu viras um conceito abstrato. Sábado… tu já és patrimônio da firma.

Aí chega o domingo. O glorioso “um” da história. O dia do descanso. O dia que, na teoria, era pra ti ser gente.

Mas não.

Domingo tu acordas com dor até em músculo que nem sabias que existia. A coluna parece que passou a semana carregando sacas de farinha nas costas – aquela da ovinha de Cruzeiro do Sul. E talvez tenha carregado mesmo.

A cabeça ainda está no trabalho, fazendo check-list invisível. E, quando tu começas a relaxar… pronto. Já é noite. Já tem um fantasma sussurrando no teu ouvido: “amanhã tem mais”.

É um descanso com prazo de validade menor que iogurte em promoção.

E o pior, meu irmão, é que a gente naturalizou isso. O sujeito fala “trabalho 6×1” com o mesmo orgulho de quem diz que corre maratona. Só que, na maratona, pelo menos, tem medalha no final. Aqui, o prêmio é um salário que mal paga o cansaço.

Tem patrão que ainda diz:

– Mas tu tens um dia de folga!

Tem, sim. Um dia pra resolver o que não deu tempo na semana: lavar roupa, pagar conta, visitar parente, consertar o que quebrou e, se sobrar um restinho de alma, descansar.

Descansar virou luxo. Quase um hobby.

E olha que o corpo avisa, viu? Ele manda sinais: cansaço acumulado, irritação que brota do nada, vontade de largar tudo e abrir uma barraquinha de tacacá no meio do nada.

Mas a gente ignora. Porque segunda-feira chega igual cobrança: sem atraso e sem piedade.

E aí chega o tal do Dia do Trabalhador. Primeiro de maio.

Um feriado pra celebrar quem trabalha.

Na prática, pra muita gente do 6×1, é só mais um dia na escala – ou, quando muito, um domingo com nome bonito.

SITUAÇÃO LEGAL

Agora segura essa, caboco: a escala 6×1 não caiu do céu nem é invenção de patrão criativo. Ela está dentro da lei. A legislação trabalhista brasileira permite jornadas de até 44 horas semanais – e a forma como essas horas são distribuídas virou prática comum no comércio, nos serviços e afins.

Só que o vento começou a mudar.

Hoje já existem propostas no Congresso querendo reduzir a jornada de trabalho. Algumas defendem 40 horas semanais, outras falam em quatro dias de trabalho, outras em acabar, na prática, com o 6×1. Ainda não virou lei – mas também não é mais conversa de mesa de bar.

De um lado, centrais sindicais, movimentos de trabalhadores e parte dos parlamentares. O argumento é direto: trabalhar seis dias seguidos desgasta o corpo, adoece a mente e piora a vida. Gente cansada produz pior, vive pior e adoece mais. No fim, a conta chega para todo mundo.

Do outro lado, entidades empresariais e outra ala do Congresso torcem o nariz. O medo é simples: reduzir a jornada sem reduzir salário pode aumentar custos, apertar negócios e até gerar desemprego. Para esse grupo, a conta não fecha.

E, no meio disso tudo, o trabalhador – que não participa da reunião, mas paga o cafezinho.

Mas antes de seguir nessa briga de planilha, vale levantar uma questão mais funda.

É possível medir a qualidade de vida de um povo e seu grau de civilização pelas horas dedicadas ao trabalho produtivo e pelo tempo liberado para o lazer. Na França, o programa eleitoral do Partido Socialista de 1981 era reduzir a jornada a 35 horas semanais, o que foi parcialmente conquistado no governo de François Mitterrand.

Essa preocupação se estendeu às pesquisas realizadas por antropólogos franceses sobre o tempo dedicado pelos Yanomami à atividade produtiva. Bruce Albert e Jacques Lizot publicaram artigos sobre o tema e concluíram que originalmente os Yanomami necessitam ocupar uma média de três horas e meia por dia para viverem em abundância com todas as necessidades satisfeitas, sem buscar lucro, acumular riquezas ou explorar o trabalho de outros. 

O tempo que sobra é empregado em outras atividades espirituais, de estudo e lazer, de cuidados com a família, de desenvolvimento da arte, do canto, da dança, da reza, e ainda ao namoro, à diversão. Enfim, à vida. 

Mas aí entra o Kim Kataguiri para explicar que isso tudo, na verdade, é para o teu bem.

Farofa 037 Escala 03

Diz ele que, se acabar o 6×1, a tua vida pode piorar. Que tu vais trabalhar menos… e sofrer mais. Um conceito interessante: o sofrimento preventivo.

A lógica é bonita no papel. Dizem que, se tu tiveres mais tempo livre, a economia se ofende. Que o patrão fica triste. Que o emprego se assusta e vai embora, igual bicho do mato com barulho de panela.

Ou seja: melhor continuar cansado. Por segurança.

Tem também a tese da produtividade. Segundo esses sábios da planilha, o problema não é tu trabalhares seis dias seguidos. O problema é que tu ainda não produziste o suficiente para merecer descansar.

Descanso, nesse raciocínio, não é direito. É prêmio por bom comportamento.

E tem mais: dizem que isso nem vai mudar a vida da maioria. Porque o Brasil é cheio de informal, de autônomo, de gente que já vive no improviso.

Repara na lógica: como nem todo mundo vai melhorar, então ninguém melhora.

É quase um princípio filosófico. Tipo: já que nem todo mundo pode comer, vamos manter a fome organizada.

E, claro, não podia faltar o clássico: “isso é populismo”.

Porque populismo mesmo é prometer vida melhor para quem trabalha. O sensato, pelo visto, é prometer que vai continuar ruim – e chamar isso de responsabilidade fiscal.

No fim, caboco, o argumento é esse: se tu trabalhares menos, pode ser que falte trabalho. Então o melhor é garantir que nunca falte cansaço.

Farofa 037 Escala 02

CABO DE GUERRA

Se tu olhares bem, caboco, o Congresso hoje parece uma partida de cabo de guerra – só que a corda é o teu tempo de vida. De um lado, a turma que quer acabar com o 6×1 fala de saúde mental, qualidade de vida e produtividade, defendendo uma ideia simples: trabalhar é preciso, mas viver também é. 

Do outro, quem puxa com cautela – ou com medo mesmo – levanta a bandeira da responsabilidade, do impacto econômico e do risco de desemprego. Traduzindo: se mexer na engrenagem, pode ranger, e ninguém quer ser o culpado pelo barulho.

Só que tem um detalhe que quase ninguém admite: essa corda não começou a ser puxada agora. Ela já está esticada faz tempo – e sempre para o mesmo lado. Enquanto o debate acontece em Brasília, quem já vem sendo puxado há anos é o trabalhador comum. É ele que estica o dia quando o salário não fecha, que engole o cansaço porque segunda-feira não negocia, que aprende a viver em parcelas de descanso e a tratar exaustão como rotina.

Por isso, quando alguém puxa a corda na direção contrária, pedindo mais tempo e mais equilíbrio, isso não é exagero – é ajuste. É perceber que a balança nunca esteve equilibrada. E aí vem o incômodo, porque mexer no que sempre foi “normal” dá a impressão de risco, mesmo quando o risco maior é continuar como está. Foi assim quando os escravizados lutavam pela abolição dessa coisa abjeta que foi a escravidão.

E, no meio dessa corda, continua quem sempre esteve: tu. Só que talvez, pela primeira vez em muito tempo, tu não estejas apenas sendo puxado. Tem mais gente segurando contigo, dizendo que descanso não é luxo e que viver não pode ser só intervalo entre um expediente e outro.

Tempo livre não devia ser coincidência. Devia ser parte da vida. Porque, no fim, a escala 6×1 é isso: seis dias vivendo pros outros e um tentando lembrar quem tu eras.

Mas se essa corda continuar sendo puxada do outro lado, com força suficiente, pode ser que esse “um” deixe de ser exceção. Pode ser que vire dois.

E quem sabe, no meio disso tudo, sobre tempo até praquilo que parecia simples e ficou impossível: juntar a turma, acender a churrasqueira, repetir as histórias de sempre e, por algumas horas, viver sem precisar contar os dias até a próxima segunda-feira.

Lizot, Jacques. Economie primitive et subsistance essais sur le travail et l’alimentation chez les YanomamiL’Homme, vol. 11, nº 1, pp. 30-51. 1971

Kopenawa, Davi & Albert, Bruce: A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami, São Paulo. Companhia das Letras. 2015

https://www.taquiprati.com.br/cronica/1411-carta-ao-general-mourao-o-indio-do-amazonas?reply=28858

https://www.em.com.br/politica/2026/04/7404308-kataguiri-defende-escala-6×1-trabalhador-vai-enxergar-que-foi-enganado.html

https://jornalgrandebahia.com.br/2026/04/ccj-aprova-pecs-que-propoem-fim-da-escala-6×1-e-reducao-da-jornada-de-trabalho-no-brasil/

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/deputados-batem-boca-escala-6-1/

d603a9d2 c9c7 4faf 8008 fa050fa7170c 2Geraldo LopesEstatístico e Cronista em www.taquiprati.com.br/cronica/1833-seis-pra-eles-um-pra-ti-6-por-1

 

 

 

 

Capa: José Cruz/Agência Brasil

Publicado originalmente em: https://www.taquiprati.com.br/cronica/1833-seis-pra-eles-um-pra-ti-6-por-1

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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