POLÍTICA E POESIA DEMAIS PARA UM HOMEM SÓ?
Em 1967, três anos após o golpe militar de 1964, Glauber Rocha lançou uma das obras mais violentas e lúcidas já feitas sobre o poder na América Latina. Terra em Transe é um relato estético fundamental para apreender as contradições formativas de um país cujo lastro no autoritarismo dos anos 1960 marcam de forma significativa os rumos de toda a política atual.
Por Arthur Wentz e Silva
A trama acompanha Paulo Martins, poeta e jornalista dividido entre dois políticos oportunistas: Porfírio Diaz, o conservador messiânico, e Felipe Vieira, o populista que recua diante da primeira pressão real. Há um enlace sobre a representação popular nestes dois personagens, figuras polissêmicas que demonstram a sociedade do espetáculo e o fetichismo das elites mascaradas.
Dada a observação sobre a figura do intelectual brasileiro, Antonio Candido, importante teórico do campo da literatura e das artes, nos orienta sobre a formação deste tipo de persona histórica. Assim, na saga do protagonista, a crise do intelectual engajado dividido entre o lirismo, a política de massas e o desencanto, existe em seu próprio dorso um certo sentimento de missão. Ou seja, a sensação de que cabe a ele a missão de articular linguagem e política na confluência do mundo.
Todo esse trabalho, portanto, alinha-se com a recusa ao cinema confortável, de Glauber Rocha. Assim, cortes bruscos, tempo quebrado, memória sobreposta à cronologia oficial fazem parte da montagem proposta como método para uma espécie de “soco” visual, onde o espectador é impedido de uma experiência passiva, mas é convidado a sentir e produzir catarse.
O filme aqui assume a sua função de desfetichização. Ou seja, em uma sociedade onde tudo é medido pelo capital, cabe à obra revelar de novo o que há de humano por trás dos números e dos interesses econômicos.
Ao apreender as mediações do filme somos convidados a enxergar nossas próprias contradições formativas, nosso sufoco enquanto país na periferia do capitalismo.
Nesta órbita, o clímax chega nas dunas finais, quando Paulo, ferido, grita: “Eu preciso cantar… eu preciso cantar!”, eco amargo da “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”.
A figura anunciante da revolução, o intelectual que articula a linguagem, desiste da palavra como arma e parte para o gesto radical, metralhadora em punho, contra o horizonte.
Abandona-se aqui o otimismo, tomando fronte o que Roberto Schwarz definiu como didática do fracasso, o cinema novo recusando qualquer final feliz fácil, insistindo que a derrota faz compreender a totalidade, embriaga o peito para fluir os aspectos dorsais da experiência histórica e economicamente operada.
É essa recusa da conciliação fácil que faz de Terra em Transe mais que um documento de época. Sessenta anos depois, o impasse do filme, entre discurso e ação, entre a indignação que se manifesta e a indignação que se organiza, continua sendo a pergunta que qualquer sociedade em crise precisa responder.
Paulo Martins morre sem resolver o conflito entre poesia e política. Mas talvez seja essa, precisamente, a lição que Glauber deixou: não existe resolução para as contradições, existe o seu enfrentamento para compreender as tessituras sociais mais profundas.

Cena e cartaz do filme Terra e Transe de 1967
Arthur Wentz e Silva – Estudante de Letras, Língua Portuguesa e Respectiva Literatura, na Universidade de Brasília (UnB) e redator da Revista Xapuri.
Capa: Cena do filme Terra em Transe, de 1967 (foto: Mapa Filmes do Brasil/ reprodução)










