ROSA: “O SERTÃO É DO TAMANHO DO MUNDO”

Rosa: “O sertão está em toda parte… O sertão é do tamanho do mundo” 

“ O senhor vê aonde é o SERTÃO? (…).

O senhor tolere: isto é o SERTÃO.

Uns querem que não seja: que situado

Sertão é por os campos gerais a fora a dentro,

eles dizem, fim de rumo,

terras altas, demais do URUCUIA. (…).

 

LUGAR SERTÃO SE DIVULGA:

é onde os pastos carecem de fechos,

onde um pode torar dez, quinze léguas,

sem topar com casa de morador;

e onde criminoso vive seu cristo-jesus,

arredado do arrocho de autoridade.

(…) Sertão é o sozinho (…).

(…) Jagunço é o Sertão (…).

O Sertão tem medo de tudo (…).

O senhor sabe: Sertão é onde manda

quem é forte (…)

Deus mesmo, quando vier, que venha armado!

… o Sertão se sabe só por alto (…).

(…) Sertão velho de idades. (…).

Sertão que se alteia e se abaixa (…).

(…). Sertão é onde o pensamento da gente

se forma mais forte do que o poder do lugar (…).

… O senhor não é do Sertão. Não é da terra…

… no centro do Sertão, o que é doideira às vezes

pode ser mais certa de mais juízo (…).

Sertão é isto: o senhor empurra para trás,

mas de repente ele volta a rodear

o senhor dos lados.

Sertão é quando menos se espera (…).

 

O Sertão aceita todos

os nomes:

AQUI É O GERAIS,

lá é o Chapadão,

lá acolá é a Caatinga (…).

 

… O SERTÃO É BOM.

Tudo aqui é perdido.

Tudo aqui é achado (…).

No Sertão até enterro simples é festa.

(…). Sertão foi feito é para ser sempre assim:

alegrias (….).

 

Ah, tempo de jagunço tinha mesmo que acabar,

cidade acaba com o Sertão.

Acaba?

… Só se sai do Sertão é tomando conta dele a dentro…

O Sertão não tem janelas nem portas. (…).

O Sertão está em toda parte, (…).

O Sertão é do tamanho do mundo, (…)

SERTÃO: é dentro da gente.”

Guimarães Rosa, adaptado por Xico Mendes

Cerrado 04 Otoniel Fernandes Neto

Cerrado – Pintura Otoniel Fernandes Neto

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JOÃO GUIMARÃES ROSA E O CERRADO

Miguilim apeou para verter água, debaixo de um pau-terrinha. Gavião e urubu arrastavam sombras. Vez em quando a gente ouvia também um gró de papagaio. O cerrado estava cheio de pássaros.
Por Romulo Andrade 
No alto da maria-pobre, um não cantava, outro no ramo passeava reto, em quanto cabia: era o alma-de-gato, que vive em visgo de verdes árvores. Saluz e Miguilim saíam num furado, já se escutava o a-surdo de boi. – “Miguilim, pois então aboia, vou mesmo fazer uma coisa só para você ver como é…”
Aí, enquanto Miguilim aboiava, o vaqueiro Saluz desdependurou o berrante de tiracol, e tocou. A de ver: – “Eh cô!…” “Huuu… huuu…” – e a boiada mexe nos capões de mato.
– meios olhos, perante o refulgir, o todo branco. 
Acontecia o não fato, o não tempo,
silêncio em sua imaginação.
Só o um-e-outra, um em-si-juntos,
o viver em ponto sem parar, coraçãomente:
pensamento, pensamor. 
Alvor. Avançavam parados, dentro da luz, 
como se fosse o dia de Todos os Pássaros.
Manuelzão e Miguilim, Campo Geral. Substância, conto de Primeiras Estórias
Romulo Andrade – Professor. Textos de Guimarães Rosa sobre o Cerrado publicados em sua página  no Facebook. 

guimaraes rosa TODA MATERIA

Guimarães Rosa – Imagem: Toda Matéria 

BIOGRAFIA DE GUIMARÃES ROSA

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG), em 27 de junho de 1908. Filho de um pequeno comerciante, mudou-se para Belo Horizonte em 1918, para dar continuidade aos estudos.
Formou-se em Medicina, em 1930, e exerceu a profissão em cidades do interior mineiro, como Itaúna e Barbacena. Durante esse período, publicou seus primeiros contos na revista O cruzeiro e estudou, por conta própria, alemão e russo.Guimarães Rosa é uma figura ilustre da literatura brasileira. 
Versado em nove idiomas, Rosa ingressou na carreira diplomática em 1934. Foi cônsul-adjunto em Hamburgo, na Alemanha, até o fim da aliança entre os países durante a Segunda Guerra Mundial, o que o levou ao cárcere em Baden-Baden em 1942. Depois de solto, tornou-se secretário da embaixada brasileira em Bogotá, e então conselheiro diplomático em Paris. De volta ao Brasil, é promovido a ministro de primeira classe.
Em 1963 é eleito, por unanimidade, membro da Academia Brasileira de Letras. Foi também representante do Brasil no II Congresso Latino-Americano de Escritores e do Conselho Federal de Cultura, em 1967. Morre no Rio de Janeiro, em 19 de novembro desse mesmo ano, vítima de um enfarte.”
Fonte: Brasil Escola 
Cerrado 03 Otoniel Fernandes Neto

Cerrado -Pintura Otoniel Fernades Neto

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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