O PRENÚNCIO DA NUVEM
No horizonte do Tocantins, a nuvem em prateleira dobra-se como um véu sobre a terra quente, sopro do céu que anuncia o desequilíbrio entre o úmido e o árido, entre o tempo que era e o tempo que vem
Por Antenor Pinheiro, especial de Porto Nacional/TO, Brasil
Mais do que espetáculo atmosférico, é prenúncio. Na transição entre o cerrado e a Amazônia, a paisagem, metade cerrado, metade floresta, torna-se metáfora viva da fronteira que respira ofegante, avisa a natureza!
Densa a levitar, a nuvem parece carregar em seu ventre os vapores de biomas feridos, o hálito dos rios, o grito dos bichos que pressentem a chuva devastadora. Anuncia o desequilíbrio entre o calor acumulado e a umidade que ainda resiste nas florestas e nos campos abertos das matas de transição. Traduz a tensão da transição natural Amazônia-Cerrado.
O sistema que regula o ciclo das chuvas agora reage às queimadas, ao desmatamento e ao aquecimento global. A nuvem revoltosa é a atmosfera se curvando sobre o destino da floresta e dos arbustos tortos, como se quisesse lembrar a todos nós de que cada tempestade que se avizinha é também um pedido de socorro, um poema de vapor escrito no ar quente do céu. A cada surgimento, a brava nuvem envia sinais de exaustão e de força, lembra-nos que proteger a Amazônia e o Cerrado é também proteger o próprio ritmo do céu, das águas e da vida.

<
p data-start=”1020″ data-end=”1555″>
Antenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.





