FERROVIAS, RIOS E FLORESTAS

FERROVIAS, RIOS E FLORESTAS 

Desde a década de 1940, Amazônia Ocidental salva locomotivas e ordena migração. Após décadas de abandono, estruturas da Estrada De Ferro Madeira Mamoré são recuperadas na capital rondoniense. Construção de ferrovia, no início do século passado, foi essencial para consolidar a formação do território brasileiro na Amazônia Ocidental, “desenhando” a nova fronteira com os países vizinhos

Por Montezuma Cruz/Jornal Varadouro

Dos varadouros de Porto Velho

Porto Velho salva locomotivas desde o início do Território Federal do Guaporé, em 1943, apurou Varadouro. Na área mecânica e de recursos humanos “pratas da casa” vêm de longe trabalhando para a salvação do mínimo patrimônio que agora resta da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. 

Após décadas de inatividade, recentemente o prefeito Léo Moraes (Podemos) festejou a restauração da locomotiva 18 (de fabricação alemã, em 1936). A Associação Brasileira de Preservação Ferroviária colaborou.

A volta dessa locomotiva foi o ponto alto das celebrações e passou mel nos lábios de crianças, jovens e idosos da capital rondoniense, porque a equipe responsável pretende revitalizar o complexo ferroviário como atração turística. No dia do aniversário de 111 anos de Porto Velho (2 de outubro), o próprio prefeito subiu no trem e fez eloquente discurso ao público presente no pátio ferroviário.

“Recuperamos peça por peça, incluindo a complexa parte da caldeira, isso é patrimônio de nós todos e precisa ser valorizado”, declarou o prefeito Léo Moraes na ocasião.

Tal qual nos anos 1980, o ex-governador Jorge Teixeira de Oliveira inaugurava o trecho de sete quilômetros entre a Estação Central e Santo Antônio, hoje bairro que nem de longe lembra a velha cidade à margem do rio Madeira. Daquela vez, ele contava com a experiência de antigos ferroviários.

Solução local para a Mogul 13

Porto Velho ainda era Amazonas. O Território Federal do Guaporé seria criado em 13 de setembro de 1943 pelo Decreto-Lei nº 5.812. Sete meses antes, na edição nº 2.664, ano XXVI, em 25 de fevereiro, o bissemanário Alto Madeira publicava em sua primeira página “a vitória dos operários da Madeira-Mamoré.”

A informação se referia às oficinas de locomoção da ferrovia, onde a locomotiva maria-fumaça tipo Mogul nº 13 (fabricada pela North British Locomotive Company), que havia sido acidentada. A administração inglesa da EFMM já considerava a máquina “imprestável” e solicitava ao governo a permissão para importar uma caldeira – relata o jornal.

Fevereiro de 1943: “vitória dos operários da EFMM”

“Agora o Sr. P. Vilanova, competente e esforçado chefe da Locomoção, com os recursos daqui mesmo e somente com o auxílio dos operários sob sua digna direção conseguia reparar a locomotiva 13, fazendo-a voltar ao serviço dentro de poucos dias, pois as experiências feitas deram resultados completamente satisfatórios.”

Para o jornal, então dirigido por Inácio de Castro, isso representou “grande vitória do operariado”. E felicitou a direção da EFMM pela volta da locomotiva, “que assim vem aumentar a nossa capacidade de tráfego ferroviário.”

Nessa mesma edição, Guajará-Mirim (ainda Mato Grosso), na fronteira Brasil-Bolívia e um dos extremos da Madeira-Mamoré, comemorava o Decreto Real de 18 de janeiro de 1943, do Governo Helênico sediado em Londres e do ministro da Grécia em Buenos Aires, criando o Vice-consulado da Grécia naquele município. A repartição era confiada ao empresário Paulo Cordeiro da Cruz Saldanha, que foi gerente da Guaporé Rubber Company.

Estrutura da EFMM na cidade de Guajará-Mirim, na fronteira com a Bolívia. Um patrimônio da História do Brasil e da Amazônia esquecido e abandonado pelas autoridades (Foto: Fabio Pontes/Varadouro 11/21)

“Recolonização em alta escala”

Na mesma edição, o Alto Madeira noticiava a presença de técnicos em Manaus, “para a fixação de migrantes nordestinos acossados pela seca.” O texto enfatizava que essa migração já ocorria “há longa data para o Acre”, com êxito para o antigo território federal.

Naquele período conhecido pela “Batalha da Borracha”, o “Estado Novo” do presidente Getúlio Vargas organizou um plano de fixação de migrantes para a região. A Segunda Guerra Mundial iniciada em 1939, terminaria em 1945.

O jornal porto-velhense saudava essa nova fase: “Espera-se que o trabalhador nordestino, que já demonstrou sua eficiência nos tempos em que imigrava desamparado de qualquer apoio, agora que conta com a proteção do governo, possa constituir-se elemento precioso para o aumento da produção e incremento de uma região rica, extensa e despovoada como é a nossa Amazônia.”

Nessa mesma edição pesquisada pelo Varadouro, em sessão do Conselho Nacional de Proteção aos Índios, o então general Cândido Rondon falou a respeito da proposta enviada pelo Vaticano para Ministério do Exterior, para a realização de um contrato com o Governo Brasileiro, no sentido de as missões católicas ampliarem sua ação no País, “encarregando-se da catequese sistemática dos índios.” Conforme Rondon, isso implicaria “a anulação da administração política do Serviço de Proteção aos Índios”, criado e regulamentado por decreto em julho de 1910.

Recuperada, a locomotiva maria-fumaça nº 18, poderá fazer trecho turístico entre as antigas estações Central e Santo Antônio (Foto: Divulgação Prefeitura de Porto Velho)

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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