TERRITÓRIO ANCESTRAL

TERRITÓRIO ANCESTRAL

TERRITÓRIO ANCESTRAL

Maá munhã ira apigá upé rikué

Waá perewa, waá yuká

Waá munhã maá putari.

(tradução)

O que fazer com o homem da vida

Que fere, que mata

Que faz o que quer?

Do encontro entre o “índio” e o “branco”

Uma coisa que não se pode esquecer

Das lutas e grandes batalhas

Para o direito a terra defender.

A arma de fogo superou minha flecha

Minha nudez se tornou escândalo

Minha língua foi mantida no anonimato

Mudaram minha vida, destruíram meu chão.

Antes todos viviam unidos

Hoje, se vive separado.

Antes se fazia o Ajuri

Hoje, é cada um para o seu lado.

Antes a terra era nossa casa

Hoje, se vive oprimido.

Antes era só chegar e morar

Hoje, o território está dividido.

Antes, para celebrar uma graça

Fazia-se um grande ritual.

Hoje, expulso da minha aldeia

Não consigo entender tanto mal.

Como estratégia de sobrevivência

Em silencio decidimos ficar.

Hoje nos vem a força

De nosso direito reclamar.

Assegurando aos tanu tyura

A herança do conhecimento milenar.

Mesmo vivendo na cidade

Nos unimos em um único ideal

Na busca pelo direito

De ter nosso território ancestral.

O que fazer com homem na vida

Que fere, que mata

Que faz o que quer?

TERRITÓRIO ANCESTRALMárcia Wayna Kambeba é indígena, do povo Omágua/Kambeba no Alto Solimões (AM). Nasceu na aldeia Belém do Solimões, do povo Tikuna. Mora hoje em Belém (PA) e é mestra em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas.

 

 

 

Capa: Registros do Acampamento Terra Livre de 2024. Foto: Eduardo Weiss/Revista Xapuri.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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