A ALMA SILENCIOSA DA CHINA

A alma silenciosa da China

Como a espiritualidade chinesa moldou ética poder e cotidiano sem deuses centrais articulando família Estado e sociedade

A China não se impôs ao século XXI apenas por fábricas, satélites ou supercomputadores. Ela chegou até aqui sustentada por algo menos visível e mais decisivo: uma disciplina moral acumulada ao longo de mais de dois milênios.

Por Washington Araújo/Brasil247

Enquanto muitas sociedades apostaram em rupturas sucessivas, a China avançou preservando um eixo ético contínuo. Sua espiritualidade não é de templos monumentais nem de dogmas exaltados. É uma espiritualidade de conduta, silêncio e responsabilidade — e talvez por isso tenha atravessado impérios, revoluções e colapsos sem se dissolver.

No centro dessa arquitetura está Confúcio, nascido em 551 a.C., em Qufu, numa época de guerras internas e fragmentação política. O dado histórico importa porque sua filosofia nasce do colapso, não da estabilidade. Sua resposta não foi mística nem messiânica. Foi prática, exigente e profundamente humana: quando o Estado falha, o caráter precisa sustentar a ordem.

Órfão ainda jovem, funcionário modesto e professor itinerante, Confúcio percorreu reinos oferecendo conselhos quase sempre ignorados. Morreu sem ver seus ideais implementados. Ainda assim, seus discípulos reuniram seus ensinamentos nos Analectos, obra fragmentada, sem sistema teológico fechado, mas com uma coerência ética que atravessou séculos e dinastias.

Essa visão moldou uma espiritualidade sem deus pessoal, mas com forte senso de dever. O Céu não é um ser que intervém, mas uma ordem moral que observa. O sagrado não se manifesta em milagres, mas na correção do gesto, no respeito à hierarquia legítima e na fidelidade aos vínculos familiares. A transcendência não está fora do mundo, mas na forma como ele é habitado.

Esse legado não pertence apenas ao passado. Ele reaparece com força na China contemporânea. Em 2024, o país formou mais de 11 milhões de graduados universitários em um único ano. O investimento persistente em educação, disciplina acadêmica e mérito ajudou a sustentar a transformação econômica que retirou mais de 800 milhões de pessoas da pobreza desde o fim dos anos 1970.

A espiritualidade confucionista também se reflete na lógica de planejamento de longo prazo. A China governa por planos de décadas, não por ciclos curtos. O projeto de modernização até 2049, centenário da República Popular, expressa a ideia de responsabilidade intergeracional. Governar é preservar a ordem para os que ainda virão.

A convivência histórica com o taoismo e o budismo reforçou essa visão prática. O taoismo ensinou a agir sem romper violentamente o fluxo natural das coisas. O budismo introduziu introspecção, autocontenção e tolerância ao sofrimento. O resultado é uma espiritualidade aplicada à vida cotidiana, capaz de conviver com ciência, tecnologia e crescimento econômico acelerado.

Esses resultados não emergem apenas de capital financeiro. Eles repousam sobre uma cultura de disciplina coletiva, respeito a normas, planejamento rigoroso e subordinação do ego ao bem comum. Valores confucionistas traduzidos em políticas públicas, metas industriais e organização social.

Após a Revolução Cultural, quando Confúcio foi atacado como símbolo do passado, muitos analistas apostaram em seu desaparecimento definitivo. O que ocorreu foi o oposto. A partir dos anos 2000, o pensamento confucionista retornou ao discurso público, às escolas e aos rituais cívicos.

Hoje, Institutos Confúcio estão presentes em mais de 150 países. No interior da China, cresce o interesse por rituais ancestrais, textos clássicos e valores de harmonia social. Há uso político dessa herança, mas também há uma demanda social real por sentido em meio a jornadas extenuantes, competição extrema e transformações aceleradas.

A espiritualidade chinesa não separa ética de política nem vida privada de responsabilidade pública. O sagrado não está fora do mundo, mas na forma como o mundo é organizado, transmitido e preservado.

Confúcio nunca prometeu transcendência. Prometeu coerência — e exigiu disciplina para alcançá-la. Num século marcado por crises, rupturas e polarizações, a alma silenciosa da China deixa uma lição incômoda e atual: sem caráter, nenhuma potência se sustenta; com ele, até o futuro pode ser planejado.

Bandeira da China. Foto: Reuters
Bandeira da China. Foto: Reuters
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CHINA “ACENDE” SEU SOL ARTIFICIAL

China “acende” seu sol artificial e avança rumo a uma fonte de energia limpa e quase inesgotável

Por Isabelle Miranda/Money Times

Enquanto o mundo debate a transição energética, a China resolveu ir direto à origem — literalmente. O país vem acumulando progressos relevantes na busca pelo chamado “sol artificial”, um experimento que tenta reproduzir na Terra o mesmo processo que mantém o Sol “aceso” há bilhões de anos.

A proposta é relativamente simples de explicar, mas extremamente difícil de executar: gerar energia unindo átomos, e não quebrando-os. Na prática, trata-se de um reator de fusão nuclear, tecnologia frequentemente apontada como o “Santo Graal” da energia limpa.

A promessa é ousada: produzir eletricidade abundante, em escala quase infinita, sem emissão de carbono e com resíduos muito menores do que os da energia nuclear convencional.

Não é marketing da China: é física de alto nível

Diferentemente das usinas nucleares atuais, que funcionam por fissão — a quebra de átomos —, a fusão faz o inverso: combina núcleos de hidrogênio para formar hélio, liberando energia no processo.

É exatamente isso que ocorre no núcleo do Sol. O desafio é que, para a reação acontecer, é necessário alcançar temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius e manter um plasma extremamente instável confinado por tempo suficiente.

É nesse ponto que entra o tokamak: uma câmara em forma de anel que utiliza campos magnéticos extremamente potentes para “conter” o plasma, impedindo que ele toque as paredes do reator.

O avanço mais recente do EAST foi operar acima de limites teóricos clássicos, como o chamado limite de Greenwald — nome dado em homenagem ao físico americano Martin Greenwald, que definiu esse parâmetro em 1988 e que estabelece a densidade máxima segura do plasma.

Em termos simples: os pesquisadores conseguiram inserir mais combustível no reator sem perder estabilidade, um passo fundamental para que a fusão, no futuro, produza mais energia do que consome.

É esse ponto que faz o “sol artificial” deixar de ser apenas uma curiosidade científica e passar a ser visto como um elemento estratégico na transição energética global.

Corrida global — e a China quer sair na frente

China não está sozinha nessa aposta. O país é um dos principais participantes do ITER, o maior projeto internacional de fusão nuclear em construção na França, que reúne União Europeia, Estados Unidos, Japão, Rússia e Coreia do Sul.

A diferença é que, enquanto o ITER ainda está em fase de montagem, os chineses já acumulam anos de testes práticos, dados operacionais e recordes próprios.

Apesar do otimismo, há um ponto crucial: nenhum reator de fusão no mundo ainda produz mais energia do que consome.

O “sol artificial” chinês não é uma usina, mas um laboratório experimental. A expectativa dos próprios cientistas é que a fusão comercial ainda leve décadas para se concretizar.

O caminho envolve o desenvolvimento de novos materiais, maior controle do plasma e uma redução significativa de custos. Ainda assim, o consenso é claro: nunca se esteve tão perto.

Isabelle Miranda
Por Isabelle Miranda Repórter. Jornalista com pós-graduação em Literatura, Artes e Filosofia. Atua como repórter nos portais de notícias Money Times e Seu Dinheiro, onde também já trabalhou como Analista de SEO.
 
Energia China

Imagem: Wikimedia Commons
CHINA TERRACOS
https://www.nationalgeographicbrasil.com/photography/2017/12/21-fotos-dos-mais-impressionantes-patrimonios-da-humanidade-da-china?image=honghe-hani-rice-terraces-unesco-china
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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