MANOEL FIEL FILHO, ASSASSINADO SOB TORTURA

Manoel Fiel Filho foi tirado do trabalho e assassinado por policiais da ditadura

Há 50 anos, o metalúrgico foi assassinado sob tortura no DOI-Codi. O regime militar alegou suicídio, versão repetida meses antes no caso do jornalista Vladimir Herzog, também morto na prisão

 
 
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 O assassinato do metalúrgico Manoel Fiel Filho completa 50 anos neste janeiro de 2026. O crime, cometido em 17 de janeiro de 1976, permanece como um dos episódios mais emblemáticos da repressão da ditadura militar contra militantes políticos e trabalhadores brasileiros.
Manoel foi morto sob tortura nas dependências do Destacamento de Operações de Informações–Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do 2º Exército, em São Paulo. A morte ocorreu um dia após sua prisão e evidenciou o uso sistemático da violência de Estado para sufocar a organização política no mundo do trabalho.
Prisão na hora do expediente
Manoel Fiel Filho trabalhava havia 19 anos como prensista na empresa Metal Arte, na zona leste da capital paulista. Na manhã de 16 de janeiro de 1976, foi abordado por agentes da repressão na fábrica onde exercia sua função.
Os militares o acusavam de ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Além do trabalho como metalúrgico, Manoel atuava na difusão do jornal clandestino Voz Operária, órgão oficial do partido, e na articulação política entre operários da região da Mooca.
Após a prisão, agentes do DOI-Codi vasculharam sua residência e apreenderam exemplares do periódico. Nada além disso foi encontrado.
A versão oficial e o silêncio imposto à família
No dia seguinte à prisão, Manoel morreu na carceragem do DOI-Codi. Assim como havia ocorrido com o jornalista Vladimir Herzog, assassinado no mesmo local três meses antes, os militares divulgaram uma versão falsa de suicídio. Segundo o Exército, o metalúrgico teria se enforcado com as próprias meias.
Um agente retornou à casa da família levando um saco plástico com as roupas usadas por Manoel no momento da prisão e um envelope timbrado do 2º Exército com seus documentos. “Seu marido se suicidou”, disse o militar à viúva, Thereza de Lourdes Martins Fiel, conforme relato posterior.
A família só conseguiu retirar o corpo do Instituto Médico Legal (IML) após aceitar a exigência de que o velório e o enterro ocorressem de forma rápida e discreta. Ao ver o corpo, constatou sinais evidentes de tortura.
Quando o caso veio a público
Os detalhes da prisão, da morte e das pressões impostas à família só se tornaram públicos em 22 de janeiro de 1976, após reportagem do jornalista Ricardo Kotscho publicada em O Estado de S. Paulo. Até então, a crise provocada pelo assassinato permanecia restrita aos bastidores do regime militar.
O então presidente Ernesto Geisel foi alertado sobre a gravidade do caso pelo governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins. Dois dias após a morte de Manoel, Geisel decidiu exonerar o comandante do 2º Exército, general Ednardo D’Ávila Mello.
Reação militar e radicalização
A exoneração provocou forte reação entre setores da linha-dura das Forças Armadas. Um relatório do general Reynaldo Mello de Almeida, então comandante do 1º Exército, datado de 21 de janeiro de 1976 e divulgado pelo jornalista Elio Gaspari, registrou críticas à condução política do governo.
O documento afirmava haver consenso entre militares de que a distensão política estava sendo priorizada em detrimento da segurança nacional. O relatório previa a radicalização de ações anticomunistas fora do controle militar, o que se confirmou naquele mesmo ano com atentados atribuídos à chamada Aliança Anticomunista Brasileira.
Menos repercussão, mesmo horror
Apesar da gravidade, a morte de Manoel Fiel Filho não teve a mesma repercussão pública que o assassinato de Vladimir Herzog. A imprensa só noticiou o caso três dias depois, com base em uma nota oficial curta e sem explicações do Exército.
Ainda assim, o episódio marcou um ponto de inflexão na repressão em São Paulo. A saída do comandante do 2º Exército enfraqueceu politicamente a ala mais dura do regime, embora não tenha encerrado as violações de direitos humanos nos porões da ditadura.
A verdade desmonta a farsa
Nos anos seguintes, a versão oficial de suicídio foi sendo desmontada. Em 1978, o legista José Antônio de Mello, integrante da equipe do IML de São Paulo à época, afirmou em reportagem da Folha de S.Paulo que casos de autoestrangulamento são raríssimos e que o laudo indicava homicídio.
No mesmo ano, Thereza Fiel ingressou com ação judicial contra a União, com apoio da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Em 1980, a Justiça Federal reconheceu a responsabilidade objetiva do Estado brasileiro pela prisão, tortura e morte do metalúrgico. A sentença foi proferida pelo então juiz Jorge Flaquer Scartezzini.
Reconhecimento oficial décadas depois
Em setembro de 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) produziu laudo pericial indireto sobre o caso. O documento concluiu que Manoel Fiel Filho foi vítima de homicídio por estrangulamento, cometido dentro do DOI-Codi.
O laudo apontou inconsistências técnicas na versão oficial e confirmou que o suicídio foi simulado para encobrir o crime. Segundo a CNV, a posição do corpo e a impossibilidade técnica do nó reforçam a conclusão de assassinato sob custódia do Estado.
Um nome que permanece
Manoel Fiel Filho morreu aos 49 anos, em circunstâncias semelhantes às de outros trabalhadores e militantes assassinados pela ditadura, como José Ferreira de Almeida, Pedro Jerônimo de Souza e, o já comentado, Vladimir Herzog.
Cinco décadas depois, a história de Manoel Fiel Filho permanece como alerta concreto sobre o custo humano da repressão política no mundo do trabalho.
Em um país que voltou a assistir, em 8 de janeiro de 2023, a ataques diretos às instituições democráticas, preservar essa memória é fundamental para compreender como a violência de Estado é  tóxica e maligna à sociedade brasileira. Além disso, manter viva a memória desse episódio ajuda a enfrentar ações antidemocráticas da extrema direita e a reafirmar que violações de direitos humanos não podem ser relativizadas nem repetidas.
Fonte:  Manoel Fiel Filho assassinato 50 anos

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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