BENEDITA E JANDIRA

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BENEDITA E JANDIRA

Uma cena da terça-feira (10/12) do horror na Câmara pode ajudar as esquerdas na reflexão sobre um presente cheio de tabus e barreiras, para que se vislumbre alguma perspectiva de futuro

Por Moisés Mendes

É a cena em que Glauber Braga sai do plenário e caminha cercado pelos colegas, com o nó da gravata desatado e a bainha da camisa fora das calças.

O que se vê ali é um homem exausto, em desalinho, saindo de uma batalha física. Glauber caminha protegido por Benedita da Silva, que põe a mão esquerda no ombro do deputado, e por Jandira Feghali, que segura seu braço esquerdo. O deputado teve a proteção de duas fortalezas do Congresso.

Benedita tem 83 anos e Jandira chegou aos 68. Mas não se vê, no entorno, gente jovem para que seja tentada pelo menos uma equiparação presencial com os parlamentares mais veteranos. É uma constatação incômoda. Falar do envelhecimento das esquerdas é um tabu que poucos ousam desafiar.

Consolam-se os que dizem: ainda bem que dispomos da bravura de Benedita e Jandira. Porque não havia ali, nem na cena da mesa da Câmara, onde a valente foi Sâmia Bomfim, jovens suficientes para encarar, no braço, a imposição dos guardas fortões de Hugo Motta. 

Não para agredir, mas para defender e proteger o deputado. Para contrapor, pela força física, uma agressão física. Sempre foi assim. A política também exige, em determinadas circunstâncias, a presença de quem tem energia e força. 

Covardes são os resignados diante da presença coercitiva e violenta do fascismo sob as ordens de um presidente da Câmara inseguro, dominado e amador. Faltaram, na cena da mesa – e também depois – na saída pelo saguão da Câmara, as caras e os corpos jovens que deveriam fazer a escolta de Glauber.

Faltam jovens nas esquerdas e sobram jovens na extrema direita, como sobraram quando da ocupação da mesa pela turma de van Hattem e Nikolas Ferreira. Faltam jovens nos mandatos e nos quadros de comando das esquerdas.

Lula já tratou disso. Tarso Genro refletiu sobre a incapacidade de renovação do PT, que se faria, como em qualquer atividade, pela recomposição e pelo arejamento de ideias dos mais jovens. Mas Lula e Tarso não conseguiram provocar nem mesmo a ira dos que acham que está tudo bem assim. Foram tratados com a mais silenciosa das indiferenças.

O PT, mais talvez do que os outros partidos de esquerda, se nega a admitir que ficou velho. E que lhe falta, numa hora dessas, como se viu na terça-feira, também a presença ostensiva dos mais jovens para enfrentar a truculência dos guardas da ditadura de Hugo Motta.

Faltam caras jovens nas esquerdas, e citar Fernanda Melchionna, a própria Sâmia e Erika Hilton é apenas buscar consolos. São bravas, são inspiradoras, mas são a exceção que só denuncia o envelhecimento das esquerdas, em todos os sentidos.

Os jovens das esquerdas deveriam aparecer ontem, se existissem em número razoável no Congresso, como presença ostensiva. Deveriam ser deles, nos vídeos e nas fotos, as caras e os braços do que tentaram conter os guardas, como se fossem escudos de Glauber.

Faltaram jovens para proteger Glauber e derrotar a polícia de Motta. Faltam jovens para instigar as esquerdas a buscar a renovação, enquanto direita e extrema direita exibem seus exemplares, quase todos protagonistas.

A esquerda não pode continuar dependendo só dos seus velhinhos, convocados romanticamente a cada eleição para que salvem o partido, a democracia e a pátria. Os jovens das esquerdas, se existissem, com mandatos na Câmara, teriam vencido o Bope de Motta. 

Que Benedita e Jandira continuem nos protegendo, mas que tenham a companhia de jovens dispostos a participar dessa proteção e que sejam capazes também de protegê-las.      

BENEDITA E JANDIRA
Foto: Reprodução/Captura de Tela.

moises mendes 41f88eec7c51cfb411481aaa8b36e5e0044142b2Moisés Mendes – Jornalista, no Brasil 247. Capa: Fernando Frazão/Agência Brasil. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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