MANOEL APOLÔNIO, O INVENTOR DA CISTERNA DE PLACAS

MANOEL APOLÔNIO, O INVENTOR DA CISTERNA DE PLACAS

Manoel Apolônio de Carvalho, conhecido como Nel, foi um pedreiro que revolucionou a convivência com a seca no Nordeste brasileiro ao criar a cisterna de placas

Por Henrique Bolfi

A tecnologia, que utiliza placas de cimento pré-moldadas para armazenar água da chuva, transformou a vida de milhões de sertanejos, garantindo água potável para consumo humano e criação de animais durante os longos períodos de estiagem.
 
Manoel Apolônio nasceu no interior da Bahia, mas instalou sua vida no município de Simão Dias em Sergipe. A cisterna de placas tem capacidade para armazenar cerca de 16.000 litros de água, o suficiente para uma família de cinco pessoas consumir por até 8 meses.
 
A invenção de Nel foi fundamental para o Programa Um Milhão de Cisternas, da Articulação Semiárido Brasileiro, consolidando-se como uma das maiores tecnologias sociais do Brasil.
 
A invenção de Nel se tornou um símbolo de resistência, saúde e cidadania, permitindo que a população do sertão não precise abandonar suas casas devido à falta de água.
 
Manoel Apolonio nel
Foto: Jeito Nordestino, editada na capa por limitação de espaço
 
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No Brasil, as cisternas para captação e armazenamento da água da chuva já são utilizadas por mais de um século. Um exemplo de cisterna é o sistema de Cisternas de placas desenvolvido no Semiárido Brasileiro, o qual vem sendo reproduzido há mais de vinte anos.
Como forma de diminuir o impacto da seca e da falta ou ausência de acesso à água para insumos básicos em residências do semiárido, a Tecnologia Social foi replicada, após alguns projetos de governo e de iniciativas privadas sem fins lucrativos, em mais de um milhão de exemplares, sendo instalados próximos às casas de famílias da região.
Conforme descrito no site da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), o Sistema de Cisternas de placas instalado nas residências “consiste em um reservatório cilíndrico, construído próximo à casa da família, com capacidade de armazenar até 16 mil litros de água da chuva captados do telhado – suficientes para suprir a necessidade de consumo básico de uma família de cinco pessoas por até oito meses”.
As dimensões das cisternas de placas podem variar de acordo com o modelo. O modelo utilizado pelo Programa Cisternas, criado pelo Governo Brasileiro, segundo o Modelo da Tecnologia Social de Acesso à Água Nº 1 – Cisternas de Placas de 16 mil litros, consiste em uma estrutura circular de 3,46 metros de diâmetro por 2,40 metros de altura – sendo 1,20 metro a profundidade do buraco -, cujas placas das paredes possuem a espessura de 4 centímetros. O número de placas divide-se entre 88 que compõem as paredes e 21 que constituem a cobertura em formato de trapézio, cuja sustentação é mantida por 21 vigas na diagonal de cima para baixo.
Além disso, as cisternas necessitam de um sangradouro que permite o escoamento da água excedente, uma bomba para puxar a água, tubos para a renovação do ar, uma tampa para limpeza e proteção da água e, por fim, um sistema de calha acoplado no telhado. 
Os projetos desenvolvidos pela parceria entre a ASA, a Fundação Banco do Brasil (FBB) e o Governo Brasileiro garantiram, ao decorrer de mais de vinte anos, a construção de mais de um milhão de cisternas.
Até o fim de 2010, foram construídas 322.000 cisternas rurais através do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) em mais de mil municípios, além de outras propostas como cursos de capacitação. Essas ações ganharam força com o lançamento, em 2011, tanto do “Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Água – Água para Todos” quanto do “Plano Brasil sem Miséria”.
Fontes: Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e Fundação Banco do Brasil (FBB).
Cisterna de Placas fbb

Foto: FBB

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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