Zuzu Angel: Uma História real, inteira, pesada, humana e impossível de esquecer

ZUZU ANGEL: UMA HISTÓRIA IMPOSSÍVEL DE ESQUECER

Zuzu Angel: uma História real, inteira, pesada, humana e impossível de esquecer

O amor de uma mãe talvez seja a força mais inexplicável que exista. Ele não tem forma, não tem lógica, não tem limite. É o tipo de amor que levanta peso que nem existe no mundo físico, que atravessa portas fechadas, que resiste a governos, que desobedece a qualquer ordem.

Por Fagner Oliveira

E é exatamente por isso que a história de Zuzu Angel não cabe numa palavra pequena. Ela é enorme porque começou com o que há de mais simples: uma mãe tentando proteger os filhos.
 
Zuzu nasceu em 1921, em Curvelo, Minas Gerais, cercada de agulhas, bordados e do trabalho das mãos femininas. Cresceu vendo mulheres criarem beleza com paciência e fibra. Mais tarde, já jovem, mudou-se primeiro para Belo Horizonte e depois para o Rio de Janeiro. Foi no Rio que conheceu Norman Angel Jones, um mecânico de aviões americano. Os dois se apaixonaram, casaram, tiveram três filhos: Hildegard, Ana Cristina e o primogênito, Stuart. O casamento acabou, e Zuzu ficou sozinha com três crianças num país desigual, caro e difícil.
 
E é aqui que a história dela começa a se tornar gigante, muito antes de qualquer fama.
Zuzu costurava para sobreviver. Costurava para colocar comida na mesa. Costurava para pagar escola. Costurava para não deixar faltar nada.
 
Montava peças em casa, vendia na vizinhança, fazia roupa sob encomenda para conseguir pagar as contas. Era o Brasil das mulheres anônimas que sustentam o mundo com trabalho invisível. E Zuzu era uma delas.
 
Só que, daquelas linhas, começou a nascer outra coisa.
 
Um estilo.
 
Uma identidade.
 
Uma estética brasileira que ninguém tinha visto antes.
 
Flores, rendas, cores, pássaros, bordados que respiravam o nosso país.
 
A costureira virou estilista.
 
A estilista virou referência.
 
A referência virou exportação.
 
E, num salto impossível, Zuzu Angel se tornou uma das primeiras brasileiras reconhecidas internacionalmente na moda. Ela abriu uma loja própria.
 
Desfilou em Nova York. Virou nome em revistas. Criou uma marca. Se tornou símbolo. Mas nenhuma dessas conquistas preparou Zuzu para o que estava por vir.
 
Porque essa não é a história de uma artista.
 
É a história de uma mãe.
 
Stuart, seu filho mais velho, cresceu inteligente, sensível, inconformado com injustiças. Nos anos 60, quando o Brasil mergulhou em repressão, censura e violência de Estado, ele se aproximou dos grupos de resistência. Entrou para o MR-8. Eram tempos em que escolhas políticas não eram teoria: eram risco de vida. Stuart acreditava na liberdade e acreditava que o país precisava enfrentar o autoritarismo. E essa escolha custou tudo.
 
Em 1971, Stuart foi preso pelo DOI-CODI, no Rio de Janeiro. Não houve direito, não houve defesa. Houve tortura. Há testemunhos de que ele foi amarrado à traseira de um jipe, com a boca presa ao cano de escapamento, e arrastado enquanto aspirava gás tóxico até morrer. É uma crueldade que desmonta até quem só lê sobre ela. Imagine a mãe.
 
O corpo nunca foi devolvido.
 
Nunca teve certidão.
 
Nunca teve túmulo.
 
Foi apagado, como se desaparecimento fosse solução para crime.
 
E esse foi o momento exato em que Zuzu deixou de ser apenas uma estilista e se tornou uma força que nenhum regime conseguiu conter.
 
Zuzu buscou o filho de forma obsessiva. Bateu em quartéis, gabinetes, embaixadas, jornais, igrejas. Levou o nome de Stuart ao Senado dos Estados Unidos, à imprensa internacional, a organizações de direitos humanos. Escreveu cartas. Guardou provas. Reuniu depoimentos. Resgatou testemunhas. 4
 
E fez o impensável: transformou sua moda em denúncia. Em 1971, apresentou um desfile histórico em Nova York onde suas roupas carregavam tanques, anjos caídos, gaiolas, manchas de sangue, pássaros aprisionados. Era arte, moda e grito. Era dor transformada em tecido.
 
O Brasil tentou calar.
 
Zuzu não parou.
 
E quando uma mãe não recua, o Estado treme.
 
Em 14 de abril de 1976, Zuzu dirigia seu Karmann-Ghia pela Estrada da Gávea. Um carro a perseguiu. Houve um impacto. Zuzu morreu na hora. O regime chamou de “acidente”. Mas documentos e testemunhos revelados décadas depois mostraram o que todo mundo já sabia:
 
Zuzu Angel foi assassinada pela ditadura militar brasileira, assim como seu filho.
 
O corpo de Stuart nunca apareceu.
 
O corpo de Zuzu foi silenciado.
 
Mas a história dos dois continua falando.
 
No fim, Zuzu Angel nos deixa uma verdade que não envelhece: nenhum governo, por mais cruel que seja, é maior que o amor de uma mãe. O que fizeram com ela e com Stuart não é política. É humanidade quebrada. É o retrato de um tempo em que falar podia custar a vida, e amar custou duas.
 
Zuzu enfrentou o Estado com linha, agulha, coragem e dor. E pagou com a própria vida, porque algumas mães não aceitam o silêncio. E silenciam quem ama quando não conseguem apagar quem morreu.
 
Essa é a história real dela, inteira, pesada, humana e impossível de esquecer.
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Capa: Wikipédia.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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