“A MULHER INDÍGENA É MÃE DO BRASIL. A AMAZÔNIA É O CORAÇÃO DO MUNDO”
“Bloco Não é Não” leva protagonismo de mulheres indígenas às ruas de Goiânia no Carnaval de 2026
Por Maria Letícia

Sob o tema “A mulher indígena é a mãe do Brasil. A Amazônia é o coração do mundo”, o Bloco Não é Não balançou as ruas de Goiânia, no dia 14 de fevereiro de 2026.
Com direção musical do Alemão, do Coró de Pau, nas ruas centrais da capital goiana, o bloco reuniu o protagonismo de mulheres indígenas e o debate sobre as violências sofridas por mulheres e meninas indígenas dentro e fora de seus territórios.
O bloco destaca com arte e responsabilidade a importância da defesa da demarcação de terras dos povos originários como caminho para a construção da Justiça Climática no Brasil.
O cortejo, gratuito, como todos os anos, contou com o “Espaço da Inclusão”, com acessibilidade arquitetônica e comunicacional; com a presença de intérpretes de Libras e com banheiro adaptado. Um “Trenzinho da Acessibilidade” atendeu especialmente crianças e pessoas com mobilidade reduzida.
Também fazem parte do Bloco ações de enfrentamento às importunações sexuais e outras formas de violações da integridade e da liberdade sexual das mulheres; de incentivo à gestão adequada de resíduos, à limpeza do trajeto e à economia solidária. E haverá, também, a belíssima programação com DJs, artistas circenses e grupos de percussão.
BLOCO NÃO É NÃO: TRADIÇÃO, RESPONSABILIDADE SOCIAL E DIVERSÃO
O Bloco Não é Não, conhecido tradicionalmente por trazer às ruas de Goiânia arte, diversidade, respeito e inclusão, foi idealizado pela psicóloga Cida Alves, doutora em Educação com mais de 30 anos de atuação no atendimento a mulheres e crianças vítimas de violência.
Hoje, ele é um coletivo ecofeminista formado por artistas, produtoras culturais, médicas, jornalistas, psicólogas, educadoras e ativistas de direitos humanos. Ao longo dos anos, o grupo vem promovendo ações de enfrentamento à misoginia, ao feminicídio e à cultura do estupro, por meio de arte, atividades culturais e mobilização social ligadas ao Carnaval de rua, que se tornou uma forte tradição local.
“Foi uma decisão consensual e coletiva trazer para o foco do Carnaval deste ano o debate sobre as violências sofridas por mulheres e meninas indígenas.
A violência não é um fenômeno natural: ela é socialmente construída e precisa ser enfrentada de forma coletiva. Além de colocar a voz das mulheres indígenas no centro, o bloco levanta a bandeira da demarcação das terras dos povos originários como parte da construção da Justiça Climática no Brasil”, afirma Cida Alves.
AS MULHERES INDÍGENAS NO CENTRO DO DEBATE SOBRE JUSTIÇA CLIMÁTICA NO BRASIL E A IMPORTÂNCIA DA DEMARCAÇÃO

O tema escolhido pelo Bloco Não é Não “A mulher indígena é mãe do Brasil. A Amazônia é o coração do mundo” tem como foco trazer visibilidade para uma pauta fundamental quando se trata de preservação ambiental e justiça climática no Brasil, um país com cerca de 14.5% das terras do país reservados aos povos indígenas, sendo que a maior porcentagem delas estão localizadas na Amazônia Legal.
As práticas prejudiciais ao Meio Ambiente, em sua maioria vindouras de grandes indústrias poluidoras e das queimadas na Amazônia, transformam o entorno socioambiental de várias comunidades indígenas e tradicionais, afetando diretamente seu modo de vida e colocando em risco sua segurança.
Atualmente, os povos indígenas são uma das populações mais impactadas pelas mudanças climáticas, principalmente as mulheres, um dos grupos mais vulneráveis pela degradação ambiental.
A luta pela demarcação de terras ainda continua e é uma longa disputa de interesses que se estende a décadas, tornando-se, hoje, uma das principais pautas para o Estado brasileiro.
De acordo com o estudo realizado pelas ONGs ambientalistas Rights and Resources Initiative, Woods Hole Research Centre and World Resources Institute, demarcar terras indígenas diminui o aquecimento global. Isto se dá pelo fato de que os povos indígenas emitem 27 vezes menos dióxido de carbono. O trabalho também ressalta que não considerou todos os territórios indígenas na pesquisa.
Além disso, o tema do Bloco Não é Não evidencia a violência contra mulheres e meninas dentro e fora do contexto territorial, uma terrível crescente no país, conforme aponta estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em que foi constatado que, entre 2003 e 2022, o feminicídio de mulheres e adolescentes indígenas aumentou em 500%.
Em setembro de 2025, durante audiência na Comissão dos Direitos Humanos (CDH), no Senado Federal, em debate sobre o projeto de lei que estabelece medidas de atendimento a mulheres indígenas vítimas de violência doméstica e familiar (PL 4.381/2023), a deputada federal Célia Xakriabá, autora do projeto, defendeu a importância do Estado no acolhimento de mulheres indígenas vítimas de violência e a importância de seus direitos perante a legislação, levando em consideração suas especificidades culturais e linguísticas: “Nós temos urgência porque, se quem tem fome tem pressa, quem está convivendo em uma comunidade sob situação de violência tem muito mais pressa ainda.
Essa mulher não consegue comer, essa mulher não consegue sorrir, essa mulher não consegue conviver. Do que adianta estar viva se sua alma está violentada todos os dias?”.
Para além disso, as pautas acerca da demarcação, justiça climática e proteção das mulheres indígenas estão intrinsecamente ligadas, uma vez que as mudanças climáticas afetam diretamente os povos indígenas, suas culturas e seus modos de vida, tornando extremamente dificultoso o acesso a direitos básicos como saúde, educação e segurança.
Por essa razão, a demarcação de TIs e a preservação da Amazônia são umas das etapas para a resolução de problemas estruturais no país e à reparação histórica com o povo brasileiro, mas principalmente aos povos indígenas. A vitória em cada demarcação de terra indígena significa vida e esperança para o mundo. Defender a demarcação de terra é garantir direitos aos povos originários e respeitar a primeira mãe do Brasil, a mulher indígena.
Maria Letícia – Colunista da Revista Xapuri.
NOTA DA REDAÇÃO: A audiência foi promovida para discutir o projeto que prevê medidas de atendimento a mulheres indígenas vítimas de violência, de autoria da deputada Célia Xakriabá (de amarelo) Foto: Carlos Moura/Agência Senado. Imagens: Fotos do Ensaio Aberto, dia 28 de janeiro, no Prosperidade Cultural – Beco da Codorna. Arte de Capa: Wes Gama.