LEGADO DO TXAI MACÊDO

LEGADO DO TXAI MACÊDO

Em 13 de setembro de 1991, o jornalista Toinho Alves publicou no jornal A Gazeta um relato impressionante sobre a tentativa de assassinato sofrida por Antônio Macêdo, o Txai Macêdo, em Marechal Thaumaturgo. Dias antes, Macedo havia subido o rio Juruá com uma equipe encarregada de cadastrar moradores da recém-criada Reserva Extrativista do Alto Juruá. O grupo reunia antropólogos — entre eles Terri Aquino —, o cinegrafista Jorge Nazaré, sociólogos e assessores do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS).

Ao passar pela Vila Thaumaturgo, a equipe parou para comprar mantimentos. Foi quando ocorreu o ataque.

“Ao sair do comércio, cumprimentando as pessoas, Macedo foi atingido por um murro no rosto. O agressor, forte e grandalhão, puxou um revólver da cintura e apertou o gatilho duas ou três vezes”, relatou Toinho. A arma falhou. O tambor estava cheio, com seis balas. “Desculpem os materialistas, mas a única explicação que tenho é intervenção divina”, anotou o jornalista.

O autor do atentado, segundo o relato, chamava-se William.

Era filho de Naci, apontado como responsável por plantio de coca dentro da área indígena Kampa, no rio Amônia. Dias antes, lideranças indígenas haviam ido a Brasília denunciar o avanço do narcotráfico na região. Havia também a expectativa da chegada de uma comissão da Funai e da Polícia Federal para apurar as denúncias.

Para Toinho, o ataque não foi isolado. O agressor teria sido incentivado por interesses contrariados com a consolidação da reserva e com as investigações em curso. Como nos velhos filmes de bangue-bangue, o pistoleiro acreditava na impunidade: era parente de autoridade local e circulava sob a sombra de grupos políticos e econômicos influentes da região.

O clima de tensão se estendeu ao quartel da Polícia Militar, onde a equipe tentou registrar ocorrência. Houve discussão, versões desencontradas e até troca de socos entre Toinho e o soldado Onofre. O soldado se recusava a devolver uma faca apreendida que pertencia ao grupo e era indispensável para destrinchar mandis nas viagens pelos rios.

A expedição prosseguiu rio acima depois que a faca foi liberada. Mesmo com o olho roxo e os óculos quebrados, Macedo e Toinho retomaram viagem. O cadastramento precisava continuar.

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Fonte: Marcos Terena 

A batalha do Restauração

O atentado de 1991 não foi o primeiro. Dois anos antes, em 25 de junho de 1989, a Folha de São Paulo noticiava o retorno de Macedo e do líder seringueiro Francisco Barbosa de Melo, o Chico Ginu, ao Seringal Restauração, no rio Tejo. Ambos haviam passado mais de três meses afastados da área após sofrerem ameaças de morte.

Chico Ginu era vice-presidente do CNS. Macedo atuava como assessor da entidade. Juntos, lideravam a criação de uma cooperativa de trabalhadores extrativistas do Alto Juruá, iniciativa que rompia com o monopólio histórico dos seringalistas sobre a compra da borracha — tradicionalmente adquirida a preços irrisórios.

Entre os principais opositores estavam os empresários Marmud Cameli e Hugo Messias, ligados à família do ex-governador Orleir Messias Cameli e do atual governador Gladson Cameli. Eles ingressaram na Justiça com ações para tentar barrar a cooperativa.

Para enfrentar as pressões, Macedo e Chico Ginu buscaram apoio em Brasília. Reuniram-se com o então ministro da Justiça, Oscar Dias Corrêa, no governo José Sarney, além de entidades de apoio ao movimento seringueiro no Rio e em São Paulo. A cooperativa contava com financiamento do BNDES.

Fundada inicialmente como Associação de Seringueiros e Agricultores da Bacia do Rio Tejo, foi rebatizada como Associação dos Seringueiros e Agroextrativistas da Reserva Extrativista do Alto Juruá (ASAREAJ), atualmente uma organização comunitária fundamental na gestão da Reserva Extrativista do Alto Juruá (RESAJ).

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Fonte: Leandro Altheman Lopes 

O nascimento das reservas extrativistas

Mais do que resistir a atentados, Macedo ajudou a estruturar um novo modelo de política ambiental e agrária no Brasil. Ao lado de Chico Ginu e dos antropólogos Mauro Almeida e Manuela Carneiro da Cunha, participou da elaboração da minuta que deu origem artigo 9º da Lei 7.804, de 18 de julho de 1989.

Esta nova legislação modificou a Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que regia a Política Nacional do Meio Ambiente. Entre as principais mudanças, criou o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) e, em seu artigo 9º , permitiu a criação de reservas extrativistas e outras áreas protegidas.

Graças a esta legislação, em 23 de janeiro de 1990, foi oficialmente criada a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com 506 mil hectares na fronteira do Acre com o Peru — considerada a primeira reserva extrativista do mundo.

Em recente entrevista a um podcast da região, Antônio Macedo lembrou que as reservas nasceram da união de seringueiros e indígenas através da Aliança dos Povos da Floresta, uma articulação que reuniu mais de 300 lideranças de todo o Brasil.

“O que começou com reuniões da Aliança dos Povos da Floresta transformou-se em política pública”, comemorou ele.

Entre murros, tiros que não dispararam e batalhas judiciais, Macedo e seus aliados desafiaram e derrotaram os coronéis de barranco e interesses consolidados das velhas oligarquias.

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Txai Macedo morreu em 15 de fevereiro em Cruzeiro do Sul, no Acre. Foto: Reprodução/CPI-Acre

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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