LEGADO DO TXAI MACÊDO
Txai Macêdo levou murros e tiros, mas derrotou os Cameli e libertou o Alto Juruá – Ataques, ameaças e batalhas judiciais marcaram a atuação de Txai Macedo e aliados na criação da Reserva Extrativista do Alto Juruá – enfrentando seringalistas, oligarquias locais e a pressão do narcotráfico na fronteira Acre–Peru.
Por João Maurício Rosa/Jornal Varadouro
dos varadouross de Rio Branco
Em 13 de setembro de 1991, o jornalista Toinho Alves publicou no jornal A Gazeta um relato impressionante sobre a tentativa de assassinato sofrida por Antônio Macêdo, o Txai Macêdo, em Marechal Thaumaturgo. Dias antes, Macedo havia subido o rio Juruá com uma equipe encarregada de cadastrar moradores da recém-criada Reserva Extrativista do Alto Juruá. O grupo reunia antropólogos — entre eles Terri Aquino —, o cinegrafista Jorge Nazaré, sociólogos e assessores do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS).
Ao passar pela Vila Thaumaturgo, a equipe parou para comprar mantimentos. Foi quando ocorreu o ataque.
“Ao sair do comércio, cumprimentando as pessoas, Macedo foi atingido por um murro no rosto. O agressor, forte e grandalhão, puxou um revólver da cintura e apertou o gatilho duas ou três vezes”, relatou Toinho. A arma falhou. O tambor estava cheio, com seis balas. “Desculpem os materialistas, mas a única explicação que tenho é intervenção divina”, anotou o jornalista.
O autor do atentado, segundo o relato, chamava-se William.
Era filho de Naci, apontado como responsável por plantio de coca dentro da área indígena Kampa, no rio Amônia. Dias antes, lideranças indígenas haviam ido a Brasília denunciar o avanço do narcotráfico na região. Havia também a expectativa da chegada de uma comissão da Funai e da Polícia Federal para apurar as denúncias.
Para Toinho, o ataque não foi isolado. O agressor teria sido incentivado por interesses contrariados com a consolidação da reserva e com as investigações em curso. Como nos velhos filmes de bangue-bangue, o pistoleiro acreditava na impunidade: era parente de autoridade local e circulava sob a sombra de grupos políticos e econômicos influentes da região.
O clima de tensão se estendeu ao quartel da Polícia Militar, onde a equipe tentou registrar ocorrência. Houve discussão, versões desencontradas e até troca de socos entre Toinho e o soldado Onofre. O soldado se recusava a devolver uma faca apreendida que pertencia ao grupo e era indispensável para destrinchar mandis nas viagens pelos rios.
A expedição prosseguiu rio acima depois que a faca foi liberada. Mesmo com o olho roxo e os óculos quebrados, Macedo e Toinho retomaram viagem. O cadastramento precisava continuar.

Fonte: Marcos Terena
A batalha do Restauração
O atentado de 1991 não foi o primeiro. Dois anos antes, em 25 de junho de 1989, a Folha de São Paulo noticiava o retorno de Macedo e do líder seringueiro Francisco Barbosa de Melo, o Chico Ginu, ao Seringal Restauração, no rio Tejo. Ambos haviam passado mais de três meses afastados da área após sofrerem ameaças de morte.
Chico Ginu era vice-presidente do CNS. Macedo atuava como assessor da entidade. Juntos, lideravam a criação de uma cooperativa de trabalhadores extrativistas do Alto Juruá, iniciativa que rompia com o monopólio histórico dos seringalistas sobre a compra da borracha — tradicionalmente adquirida a preços irrisórios.
Entre os principais opositores estavam os empresários Marmud Cameli e Hugo Messias, ligados à família do ex-governador Orleir Messias Cameli e do atual governador Gladson Cameli. Eles ingressaram na Justiça com ações para tentar barrar a cooperativa.
Para enfrentar as pressões, Macedo e Chico Ginu buscaram apoio em Brasília. Reuniram-se com o então ministro da Justiça, Oscar Dias Corrêa, no governo José Sarney, além de entidades de apoio ao movimento seringueiro no Rio e em São Paulo. A cooperativa contava com financiamento do BNDES.
Fundada inicialmente como Associação de Seringueiros e Agricultores da Bacia do Rio Tejo, foi rebatizada como Associação dos Seringueiros e Agroextrativistas da Reserva Extrativista do Alto Juruá (ASAREAJ), atualmente uma organização comunitária fundamental na gestão da Reserva Extrativista do Alto Juruá (RESAJ).

Fonte: Leandro Altheman Lopes
O nascimento das reservas extrativistas
Mais do que resistir a atentados, Macedo ajudou a estruturar um novo modelo de política ambiental e agrária no Brasil. Ao lado de Chico Ginu e dos antropólogos Mauro Almeida e Manuela Carneiro da Cunha, participou da elaboração da minuta que deu origem artigo 9º da Lei 7.804, de 18 de julho de 1989.
Esta nova legislação modificou a Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que regia a Política Nacional do Meio Ambiente. Entre as principais mudanças, criou o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) e, em seu artigo 9º , permitiu a criação de reservas extrativistas e outras áreas protegidas.
Graças a esta legislação, em 23 de janeiro de 1990, foi oficialmente criada a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com 506 mil hectares na fronteira do Acre com o Peru — considerada a primeira reserva extrativista do mundo.
Em recente entrevista a um podcast da região, Antônio Macedo lembrou que as reservas nasceram da união de seringueiros e indígenas através da Aliança dos Povos da Floresta, uma articulação que reuniu mais de 300 lideranças de todo o Brasil.
“O que começou com reuniões da Aliança dos Povos da Floresta transformou-se em política pública”, comemorou ele.
Entre murros, tiros que não dispararam e batalhas judiciais, Macedo e seus aliados desafiaram e derrotaram os coronéis de barranco e interesses consolidados das velhas oligarquias.
