GREGÓRIO BEZERRA TEM ACERVO DIGITALIZADO

Gregório Bezerra: Torturado em praça pública em 1964, tem acervo digitalizado e divulgado na Web

A extrema direita do Brasil costuma dizer que não houve tortura durante a ditadura militar implantada no país a partir de 1964. Negacionismo ou demagogia à parte, os livros de história, dossiês de grupos como o Tortura Nunca Mais, e até vítimas que sobreviveram aos maus tratos, estão aí para provar o que aconteceu nas masmorras do regime nos anos de chumbo.

 
O caso mais emblemático desses atentados aos direitos humanos ocorreu com o militante Gregório Bezerra (1900-1983), que foi barbaramente torturado em praça pública. No caso, a de Casa Forte, no Recife, onde estudantes crianças e adolescentes do Colégio Sagrada Família assistiram à barbárie. Cenas que jamais esquecerão.

Ele era chamado de “o homem de ferro e flor”. Pois apesar de sua bravura contra os regimes de direita e de ter participado de atentado, pessoalmente era uma pessoa meiga, que adorava crianças. Já lembrado no Memorial da Democracia, que funciona no Sítio da Trindade, no bairro de Casa Amarela, Gregório Bezerra é história.
E todo o seu acervo documental e iconográfico foi doado pela família ao Memorial e será disponibilizado para consulta pública pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), em seu site. Ou seja, um prato cheio para estudantes e historiadores. 
O acervo está em fase final de digitalização. Um passo importante para manter viva a memória de Gregório Bezerra, líder político, sargento do Exército, sindicalista, deputado federal pelo PCB em Pernambuco (1946) que teve papel de destaque em diversos momentos da história brasileira.  Além de tudo, um dos líderes políticos mais coerentes do Brasil, diferente daqueles que mudam de ideologia de acordo com os poderosos de plantão.

fevereiro2026 Gregorio Bezerra no Exercito em 1923
Gregório Bezerra, em foto de 1923, quando servia ao Exército: o homem de ferro e flor

A consulta pública sobre Gregório poderá ser feita no Acervo Cepe, hospedado no site da empresa (www.cepe.com.br). Os documentos físicos (mais de 600) serão encaminhados para o Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, responsável pela guarda. O acervo de Gregório Bezerra começou a ser organizado em junho de 2025, numa missão que contou com o trabalho da economista Lília Gondim e da professora e pesquisadora Socorro Ferraz.
Elas são integrantes da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Camara e do Conselho Deliberativo do Memorial da Democracia Fernando Vasconcellos Coelho.
“Foi realizado o levantamento, a classificação e a catalogação de todo o material, com organização nas seguintes categorias: periódicos, fotografias, correspondências recebidas e enviadas, documentos pessoais, a Constituinte de 1946 e textos e publicações diversas”, explica Lília Gondim. 
Neste arquivo de registros da existência de Gregório estão reunidos textos escritos pelo próprio líder político, outros assinados por figuras históricas, como Frei Betto e Francisco Julião; fotografias; recortes de revistas e jornais; panfletos e discursos de campanha.
fevreiro2026 gregorio preso com uruguaio“Esses documentos perpassam por sua vida de lutas junto aos camponeses, por sua eleição para deputado federal constituinte, em 1946, seguida da cassação do mandato dos parlamentares comunistas, em 1948, e posterior devolução simbólica do mandato, em 2013”, afirma Lília.
Para a secretária-executiva de Direitos Humanos do Estado e presidente do Conselho Deliberativo do Memorial da Democracia Fernando de Vasconcellos Coelho, Fernanda Chagas, a digitalização do acervo é um legado, sobretudo, para as futuras gerações.
O vice-presidente do Conselho Deliberativo do Memorial e diretor administrativo e financeiro da Cepe, Igor Burgos, também reafirma a importância da preservação documental.
“Digitalizar o acervo de Gregório Bezerra é manter viva a memória de uma trajetória marcada pela luta democrática”, avalia Igor, que cita a “luta pela justiça social” e a “resistência”.
E acrescenta: “A Cepe cumpre seu papel histórico de guardiã da memória pública”, avalia. Eternizar o legado de Gregório Bezerra foi o que motivou a sua família a fazer a doação do acervo ao Memorial da Democracia”.
A família do líder político também está satisfeita com a iniciativa. “Decidimos que a nossa geração e a futura deveriam conhecer a história desse grande guerreiro, que doou sua vida pela libertação de um povo tão sofrido e perseguido”, defendeu Jurandir Bezerra Filho, neto de Gregório.
Fonte: https://oxerecife.com.br/gregorio-bezerra-torturado-em-praca-publica-em-1964-tem-acervo-digitalizado/
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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Cepe e Acervo #OxeRecife 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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