jerivá

JERIVÁ, PALMEIRA QUE ACOLHE

JERIVÁ, PALMEIRA QUE ACOLHE

Presente no Cerrado, na Mata Atlântica e em áreas de transição, o jerivá é palmeira de caminhos, cresce à beira de estradas e rodovias, nos limites entre o natural e o humano, como se tivesse vocação para acompanhar quem passa. Não exige solos ricos, nem cuidados delicados. Vive onde pode, e por isso mesmo simboliza adaptação e perseverança

Por Antenor Pinheiro, especial de Recanto 14 de Março, Brasil

Seu tronco esguio, marcado pelo tempo, sustenta uma copa aberta que dança com o vento, filtrando a luz do sol em sombras leves e móveis. Há nela a beleza que nasce da simplicidade e da resistência, que não se impõe, apenas permanece.

Seus frutos pequenos, verdes e logo mais dourados, alongam-se em abundância, atrelados em belos cachos. Alimentam aves, mamíferos e, silenciosamente, sustentam ciclos inteiros de vida. Nesse gesto generoso, o jerivá representa partilha, oferece sem escolher, nutre sem pedir retorno.

Há algo profundamente ético nessa biologia simples: a lição de que existir também é servir ao entorno. Culturalmente, o jerivá carrega o sentido da acolhida e sua sombra é abrigo provisório, indica pausa, descanso, continuidade.

Não por acaso, tornou-se símbolo de paradas de viajantes, de lugares onde o corpo se recompõe para seguir em frente. Ele marca o território, não como fronteira, mas como convite. Certamente por isso inspira o nome do badalado restaurante lá pelas bandas da cidade goiana de Abadiânia/GO.

Há ainda um significado mais profundo: o jerivá ensina a beleza da verticalidade serena. Sua força está no equilíbrio entre flexibilidade e firmeza, dobra-se ao vento, mas não se quebra. Assim, torna-se metáfora da vida em ambientes duros, permanece ereto sem perder a leveza.

Contemplar a palmeira jerivá é reconhecer que o extraordinário pode habitar o cotidiano.

antenor pinheiroAntenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. Foto de capa: Antenor Pinheiro. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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