O VÉU DA INTOLERÂNCIA”: BÀBÁ SIDNEI NOGUEIRA ATUALIZA LIVRO E APROFUNDA DEBATE SOBRE RACISMO RELIGIOSO
Por Giovanne Ramos
Nova edição da obra “Intolerância Religiosa” argumenta que ataques a terreiros vão além da fé e atingem modos de vida, conhecimentos e estruturas comunitárias
Bàbá Sidnei Nogueira lança a nova edição revisada e ampliada de Intolerância Religiosa, pela Rosa dos Tempos, selo do Grupo Editorial Record. A obra integra a coleção Feminismos Plurais, organizada por Djamila Ribeiro. A edição anterior figurou entre as finalistas do Prêmio Jabuti 2021.
O livro investiga as raízes históricas da perseguição religiosa e questiona a definição das violências contra as religiosidades afro-brasileiras apenas como “intolerância religiosa”. Para o autor, essa classificação encobre o racismo que estrutura os ataques.
“Quando um terreiro é atacado, não estamos falando apenas de uma agressão à fé. Estamos falando de uma tentativa de apagar modos de vida, conhecimentos, relações comunitárias e formas de compreender o mundo”, afirma Bàbá Sidnei em nota à imprensa.
A provocação aparece em uma das perguntas que conduzem a obra: “O véu da intolerância: o que o véu cobre?”. A partir dela, o autor discute estigma, etnocentrismo, colonialidade, racismo estrutural e as diferentes formas de violência que atingem as comunidades tradicionais de terreiro.
QUANDO TOLERAR NÃO BASTA
A própria palavra “tolerância” é colocada em discussão. Bàbá Sidnei questiona uma relação na qual alguém ocupa a posição de tolerar, admitir ou suportar a existência do outro.
A discussão desloca o debate da simples convivência entre diferentes religiões para o reconhecimento do direito à existência de diferentes tradições, conhecimentos e formas de estar no mundo.
“Não basta que nossas tradições sejam toleradas. O que está em discussão é o direito de existir, produzir conhecimento, transmitir saberes e viver a própria ancestralidade sem que isso nos coloque sob ameaça”, aponta Bàbá Sidnei.
DA PERSEGUIÇÃO À CURA
Intolerância Religiosa está organizado em três grandes partes. A primeira recupera os caminhos históricos da perseguição e do estigma religioso e observa suas manifestações contemporâneas. Na segunda, “A verdade sobre a intolerância religiosa é branca: mais um dos tentáculos do racismo”, Bàbá Sidnei aprofunda a relação entre racismo e perseguição às tradições de matrizes africanas.
A terceira parte, “Da perseguição à cura: epistemologia negra como possibilidade de desconstrução do racismo religioso”, apresenta outros caminhos para pensar o enfrentamento a essa violência. Cosmossentidos, alteridade e ética aparecem como elementos de uma reflexão que ultrapassa o campo religioso e alcança as formas pelas quais a sociedade se relaciona com a diferença.
“Voltar a este livro hoje é perceber o quanto essa discussão continua urgente. A violência contra os terreiros não começa quando uma porta é quebrada ou uma imagem é destruída. Ela começa muito antes, quando determinados saberes, culturas e modos de existir são tratados como menos legítimos do que outros”, diz Bàbá Sidnei.
Giovanne Ramos – Redator. Matéria originalmente publicada no site Alma Preta, disponível em: https://almapreta.com.br/sessao/cultura/baba-sidnei-nogueira-atualiza-livro-intolerancia-religiosa/










