COMO O AQUECIMENTO GLOBAL AFETA OS ANIMAIS?

Na seca de 2023, botos-vermelhos e tucuxis foram encontrados mortos no lago Tefé, no Amazonas. A água que sustentava aqueles animais havia se tornado quente demais. O episódio ajuda a enxergar uma consequência das mudanças climáticas que nem sempre aparece nas discussões sobre o futuro: a dificuldade de outras espécies continuarem vivendo nos lugares que conhecemos como seus habitats.
Uma pesquisa liderada pelo Instituto Mamirauá, publicada na revista Science em 2025, mostrou que a água do lago chegou a 41 °C. O calor alcançou toda a profundidade, deixando os animais sem uma camada mais fria onde se refugiar. A seca havia reduzido o volume de água; a forte radiação solar e outras condições ambientais agravaram o aquecimento. Para os peixes, havia ainda outro problema: água quente retém menos oxigênio dissolvido, justamente aquele que eles utilizam para respirar.
O caso amazônico é extremo, mas faz parte de um quadro mais amplo. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), aproximadamente metade das espécies avaliadas no mundo já deslocou sua distribuição em direção aos polos ou, em terra, também para altitudes maiores. São mudanças nos lugares onde essas espécies conseguem viver. Nem todas, porém, encontram passagem ou condições adequadas em outro território.
O calor também interfere na reprodução. Nas tartarugas marinhas, a temperatura durante a incubação dos ovos influencia o sexo dos filhotes. Areias mais quentes favorecem o nascimento de fêmeas e, em temperaturas excessivas, podem comprometer a sobrevivência dos embriões, explica a agência científica norte-americana NOAA. A mudança começa dentro do ninho, muito antes de o animal chegar ao mar.
Para compreender esses impactos, vale uma distinção simples: tempo é a condição de um dia; clima é o padrão observado durante décadas. Uma tarde quente, sozinha, não explica uma mortandade. Os pesquisadores acompanham séries de temperatura, chuvas e níveis dos rios, investigam doenças e cruzam os resultados. É esse trabalho que permite entender como o aquecimento se combina com outras pressões sobre a fauna.
A redução das emissões de gases de efeito estufa e o combate ao desmatamento são medidas imprescindíveis para a proteção dos animais. Além disso, recuperar as matas nas margens dos rios e conectar áreas de vegetação ajudam a manter habitats e caminhos de deslocamento. Em Tefé, o monitoramento dos lagos reúne pesquisadores e comunidades ribeirinhas. Por isso, compreender essas mudanças a tempo é essencial para proteger a biodiversidade.
Thaís Silveira – Bióloga (Universidade Estadual de Santa Cruz), pós-graduanda em gestão para sustentabilidade pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
Referências:
Fleischmann et al. Science, 390, 606–611, 2025.
doi:10.1126/science.adr4029
Focus Brasil, 9 out. 2023. Temperatura elevada mata animais
ameaçados de extinção na Amazônia.