COMO O AQUECIMENTO GLOBAL AFETA OS ANIMAIS?

COMO O AQUECIMENTO GLOBAL AFETA OS ANIMAIS?

COMO O AQUECIMENTO GLOBAL AFETA OS ANIMAIS?

 

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Boto morto em lago no município de Tefé, interior do Amazonas (André Kumark/Instituto Mamirauá)

 

Na seca de 2023, botos-vermelhos e tucuxis foram encontrados mortos no lago Tefé, no Amazonas. A água que sustentava aqueles animais havia se tornado quente demais. O episódio ajuda a enxergar uma consequência das mudanças climáticas que nem sempre aparece nas discussões sobre o futuro: a dificuldade de outras espécies continuarem vivendo nos lugares que conhecemos como seus habitats.

Uma pesquisa liderada pelo Instituto Mamirauá, publicada na revista Science em 2025, mostrou que a água do lago chegou a 41 °C. O calor alcançou toda a profundidade, deixando os animais sem uma camada mais fria onde se refugiar. A seca havia reduzido o volume de água; a forte radiação solar e outras condições ambientais agravaram o aquecimento. Para os peixes, havia ainda outro problema: água quente retém menos oxigênio dissolvido, justamente aquele que eles utilizam para respirar.

O caso amazônico é extremo, mas faz parte de um quadro mais amplo. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), aproximadamente metade das espécies avaliadas no mundo já deslocou sua distribuição em direção aos polos ou, em terra, também para altitudes maiores. São mudanças nos lugares onde essas espécies conseguem viver. Nem todas, porém, encontram passagem ou condições adequadas em outro território.

O calor também interfere na reprodução. Nas tartarugas marinhas, a temperatura durante a incubação dos ovos influencia o sexo dos filhotes. Areias mais quentes favorecem o nascimento de fêmeas e, em temperaturas excessivas, podem comprometer a sobrevivência dos embriões, explica a agência científica norte-americana NOAA. A mudança começa dentro do ninho, muito antes de o animal chegar ao mar.

Para compreender esses impactos, vale uma distinção simples: tempo é a condição de um dia; clima é o padrão observado durante décadas. Uma tarde quente, sozinha, não explica uma mortandade. Os pesquisadores acompanham séries de temperatura, chuvas e níveis dos rios, investigam doenças e cruzam os resultados. É esse trabalho que permite entender como o aquecimento se combina com outras pressões sobre a fauna.

A redução das emissões de gases de efeito estufa e o combate ao desmatamento são medidas imprescindíveis para a proteção dos animais. Além disso, recuperar as matas nas margens dos rios e conectar áreas de vegetação ajudam a manter habitats e caminhos de deslocamento. Em Tefé, o monitoramento dos lagos reúne pesquisadores e comunidades ribeirinhas. Por isso, compreender essas mudanças a tempo é essencial para proteger a biodiversidade.

 

Thaís Silveira sorri para a câmera em uma selfie. A bióloga tem cabelos longos em tranças, veste blusa branca de crochê sem mangas e está diante de uma parede clara e do batente de uma porta. Thaís Silveira – Bióloga (Universidade Estadual de Santa Cruz), pós-graduanda em gestão para sustentabilidade pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Referências:

Fleischmann et al. Science, 390, 606–611, 2025.
doi:10.1126/science.adr4029

Focus Brasil, 9 out. 2023. Temperatura elevada mata animais
ameaçados de extinção na Amazônia.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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