Marchar ou não marchar? Eis a questão!

MARCHAR OU NÃO MARCHAR? EIS A QUESTÃO!

Estamos divididos! Mas o maniqueísmo aqui deve ser evitado […] Se você decidiu não ir, não responsabilize a vítima… mas se você decidir ir, não esqueça das medidas possíveis de segurança contra o vírus e outras ameaças, porque seguimos os mais vulneráveis

Deivison Nkosi

Nós, aqueles a quem não foi permitido ficar em casa, seguros/as, esperando a crise passar;

Nós, que seguimos em risco: amontoades nos transportes coletivos, entregando o seu delivery ou garantindo as suas futilidades básicas;

…aqueles que presenciaram os filhos serem mortos pela polícia, em casa ou na casa da patroa, enquanto levávamos o seu pet para passear;

Nós, a quem fizeram escolher entre a morte, sem ar, pela Covid19, ou a vida sem fôlego, por medo da fome, violência e o desamparo;

Nós, os que morrem 40% mais por Corona, os 70% mais assassinados pela polícia, mas cujo a representação política e poder efetivo junto aos “70%” que se pretendem oposição à tragédia atual, é ínfima;

Nós, enfermeiras, faxineiras, seguranças, carteiros, diaristas, ubers, entregadores, estudantes, mães e pais de filhos pretos, veados, sapatões, não binários, ou os/as militantes verdadeiros que que seguem nas ruas coletando e entregando mantimentos, ajudando o velório de famílias vitimadas pela conjuntura genocida;

Nós, aqueles que não podem mais respirar, há 500 anos, mas que sentimos aumentar sob o nosso pescoço o joelho militarizado do poder, cada vez mais, assumidamente genocida;

Nós, que assistimos há décadas, a indignação performática, da maior parte da esquerda e de uma parcela direita, acompanhada da negligência em relação ao racismo de lá ou de cá,

Nós, diante da chance real de velar a nossa própria quase-morte, em um protesto vivo, nas ruas, neste domingo… estamos com receio: de um lado, o risco do protesto físico facilitar a exposição à Covid19… do outro lado, a ameaça real de criminalização da luta por justiça…

Não há consenso! Mas o maniqueísmo aqui deve ser evitado! É falso e desonesto responsabilizar os manifestantes pela difusão do vírus: observe o tabuleiro macabro dos interesses econômicos e político do país e encontrará seus verdadeiros responsáveis. É igualmente equivocado recriminar quem optar por seguir em casa: os riscos têm se anunciado abertamente a qualquer um que tenha olhos e ouvidos… e para, nós, pretes, há ainda o temor da velha indignação performática diante das velhas dimensões raciais da exploração de classe, que tem marcado, a dita esquerda nas últimas décadas.

Há dúvidas entre Nós se a “comoção” com o racismo seguirá, após Minneapolis sair da pauta; dúvidas se os atos podem favorecer a “legitimidade” do contra-golpe em curso; dúvidas sobre a existência ou não de outros meios (não presenciais de protesto)…

Ainda assim, uma parte de Nós, marchará neste domingo, junto com outros movimentos sociais, não por estarmos dormindo no barulho, mas por entendermos ser essa a Nossa tarefa histórica. Marcharemos por estamos cansados de ficar na arquibancada de um jogo político que nos afeta diretamente.

Marcharemos porque não podemos mais respirar! Se você, pelo motivo que for, decidiu não ir, não responsabilize a vítima, quando em um ato de desespero e completa falta de perspectiva, arrisca a própria integridade se lançando contra o opressor… mas se decidir ir, não esqueça em nenhum momento das medidas possíveis de segurança contra o vírus e outras ameaças, porque seguimos Nós, os mais vulneráveis entre os vulneráveis.

Deivison Nkosi, professor, pesquisador e militante do movimento negro

Fonte: Alma Preta

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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