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A fome como projeto de dominação

A fome como projeto de dominação

Enio Verri  faz uma reflexão a respeito do tamanho continental do país, de sua produção agrícola e da concentração de riquezas nas mãos de poucos e nos conclama a combater o atual sistema para tirar o país do mapa da fome. Também nos alerta: Quem tem fome, não consegue se organizar

O Brasil é admirado, quando não invejado, pela sua grande extensão de terras agricultáveis, quase 20% do seu território e por ser um dos sete países com maior porção de solos muitos férteis. São mais de 150 milhões de hectares, dos quais pouco mais da metade está em produção. Este País é, também, um dos maiores produtores de alimento do mundo. Contudo, infelizmente, há nele uma praga que não permite que essa riqueza seja de acesso justo e democrático aos mais de 210 milhões de brasileiros. Trata-se da parasitária classe dominante que, desde as capitanias hereditárias, não faz outra coisa senão espoliar esta terra e todos os que aqui trabalham. É uma gente constrangida de ser brasileira, com complexo de vira-latas, que tem o Brasil como uma feitoria continental a serviço dos povos aos quais ela queria pertencer.

É uma mistura de ódio com o medo da ascensão de quem realmente produz as riquezas deste País. Durante a monarquia, por exemplo, havia decreto imperial impedindo filhos de escravos frequentarem as escolas, espaço restrito a quem era considerado gente e não uma ferramenta. A escravidão ainda não foi realmente abolida, não houve a mais basilar das reformas, a agrária. Seus efeitos são sentidos ainda hoje, em resgates de trabalhadores em situação de trabalho escravo, na cidade e no campo. A fome da classe trabalhadora é um projeto da classe dominante, a fim de subjugá-la a seus eternos ganhos. Um exemplo da história recente são os governos do tucano Fernando Henrique Cardoso quando, ao fim deles, morreram diariamente 300 pessoas, em sua maioria crianças e idosos.

Este ano, o Nobel da Paz foi conquisto pelo Programa Alimentar Mundial, da ONU. Diferente do governos Bolsonaro e FHC, que estabeleceram a fome como uma condição para explorar a classe trabalhadora, os governos do Partido dos Trabalhadores lutaram contra as seculares estruturas excludentes para que cerca de 40 milhões de brasileiros fizessem três ou mais refeições, por dia. Segundo o ex-diretor da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o brasileiro José Graziano, “a fome é causa e consequência de guerras e conflitos”. Para a classe dominante, essa paisagem é a ideal para o seu provinciano e truculento poder de dominação. Quem tem fome, não consegue se organizar. Com um rígido e pleno controle das forças de repressão, produzem uma classe trabalhadora permanentemente dominada que não a permite questionar a contradição desse flagelo sobre tão abundante e rico solo.

Esse é um dos motivos pelos quais a classe dominante deu o golpe, em 2016, e está reconduzindo o Brasil, a passos largos, ao Mapa a Fome. O desgoverno do lacaio Bolsonaro, mantido pela imprensa comercial e pelo mercado financeiro para sustentar o ministro da Economia de outros países, Paulo Guedes, reduz o auxílio emergencial. Enquanto 14% da população está desempregada e mais de 10 milhões voltam a passar fome, 42 bilionários brasileiros aumentaram suas fortunas, durante a pandemia, em US$ 34 bilhões. Para manter o auxílio emergencial, Bolsonaro pretende arrochar a tributação da classe média, sem cogitar taxar os super ricos. Estes, como é sabido, graças a FHC, não pagam um centavo de IRPF. Lula e Dilma inseriram os pobres na economia e promoveram o enriquecimento do País. A cada R$ 1,00 pago pelo Bolsa Família R$ 1,78 volta para a formação do PIB. O projeto, além de tirar os brasileiros da pobreza, aquece a economia.

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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