A bomba de Deus
Em 1945, enquanto este dia [6 de agosto] nascia, Hiroshima morria. Na estreia mundial da bomba atômica, a cidade e sua gente viraram carvão num instante
Por Eduardo Galeano
Os poucos sobreviventes perambulavam, mutilados, sonâmbulos, no meio das ruínas fumegantes. Andavam nus, e em seus corpos as queimaduras haviam estampado as roupas que usavam quando houve a explosão.
Nos restos das paredes, o relâmpago do fogo da bomba atômica tinha deixado impressas as sombras do que houve: uma mulher com os braços erguidos, um homem, um cavalo amarrado…
Três dias depois, o presidente Harry Truman falou pelo rádio.
Disse:
– Agradecemos a Deus por ter posto a bomba em nossas mãos e não nas mãos de nossos inimigos; e rogamos a Deus que nos guie em seu uso, de acordo com seus caminhos e seus propósitos.
Eduardo Galeano – (1940 – 2015) – Escritor, em Os Filhos dos Dias, Editora L&PM, 2ª edição, 2012.
Capa: divulgação
EDUARDO GALEANO
Eduardo Hughes Galeano nasceu em Montevidéu, Uruguai, no dia 3 de setembro de 1940. Descendente de uma família de classe média, de formação católica, pensava em se tornar jogador de futebol, mas percebeu que não tinha habilidade necessária para isso, porém, escreveu muito sobre o esporte. Acabou exercendo trabalhos diferenciados, como caixa de banco e datilógrafo.
Carreira literária
Embora aos 14 anos ele já houvesse enviado uma charge para o jornal El Sol, do Partido Socialista, sua carreira na imprensa só se firmaria na década de 60, quando se tornou editor do jornal “Marcha”, ao lado de colaboradores como Mario Vargas Llosa (futuro Prêmio Nobel) e Mario Benedetti.
Nos anos 70, com o regime militar no Uruguai, Galeano foi perseguido pela publicação de seu livro “As Veias Abertas da América Latina” (1971), obra de referência de esquerda, na qual o autor analisa a história da América Latina do colonialismo ao século 20.
Em 1973, foi preso em decorrência do golpe militar em seu país, e posteriormente exilou-se na Argentina, onde lançou a revista cultural “Crisis”.
Em 1976, Eduardo Galeano mudou-se para a Espanha, por causa da crescente violência da ditadura argentina. Em 1985, lançou na Espanha o livro “Memória do Fogo”. Nesse mesmo ano, com a redemocratização de seu país, retornou a Montevidéu.
Memória do Fogo é uma trilogia da História da Américas. Os personagens são generais, revolucionários, operários, conquistadores e conquistados, que são retratados em pequenos contos que refletem o período colonial do continente.
Autor de mais de trinta livros, traduzidos para cerca de vinte idiomas, Galeano declarou, em 2014, que não se identificava mais com sua anticapitalista obra “As Veias Abertas da América Latina”. Sobre ela, disse o autor: “Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera”.
Em 2006, Eduardo Galeano ganhou o Prêmio Internacional de Direitos Humanos através da Global Exchange, instituição humanitária americana.
Eduardo Galeano faleceu em Montevidéu, no Uruguai, no dia 13 de abril de 2015, em decorrência de um câncer.
Outras obras:
- A Pedra Arde (1983)
- O Livro dos Abraços (1989)
- O Futebol ao Sol e à Sombra (1995)
- O Teatro do Bem e do Mal (2002)
- Espelhos – Uma Quase História Universal (2008)
- Os Filhos dos Dias (2012)
Fonte: E-biografias





