A BOSSA DA FOSSA, ADEUS A ANGELA RO RO

A Bossa da Fossa, Adeus para Angela Ro Ro

A fossa em música ou poema não é sofrimento a ser aplacado, repelido — muito pelo contrário

Por A Pública – EdiçãoThiago Domenici

angela ro ro agencia brasil
Foto: Agência Brasil 

Oburaco da dor é sempre mais embaixo. Mas há quem discorde. Volta e meia, chegam-me anúncios de cursos online para treinar o cérebro contra emoções inúteis.

Prometem o milagre desastroso de curar a dor de um fim de amor, affair, obsessão, ou seja lá o nome. Garantem que basta hackear o sistema de recompensa, reprogramar a expectativa, descondicionar os circuitos neurais e, abracadabra, estamos livres do incômodo! A ideia, por mais estúpida que pareça, tem ganhado bastante adesão.

Pode ser hipótese apressada, mas talvez o curso tenha algo a ver com a pesquisa do Pew Research Center, mostrando que 56% dos usuários de aplicativos de namoro sentem que sempre há alguém “melhor” no cardápio. Essas plataformas não querem que você encontre o grande amor, mas que continue deslizando, experimentando encontros – de preferência, sem sofrer demais entre um match e outro. Para sustentar esse ciclo infinito, talvez só com um cérebro reprogramável mesmo.

Indo além dos afoitos diagnósticos do presente, o desejo de imunidade afetiva intriga não porque revela algo sobre o coração frívolo da nossa época, mas porque significa o fim de uma das culturas mais antigas, belas e férteis que conhecemos: a fossa.

Fossa — do latim fossa, buraco, cova — é fonte de criação extraordinária. Acabar com ela seria um ecocídio cultural. Fossa existia antes do próprio nome e seguirá firme depois do apocalipse dos apps. Nos anos 1950 e 60, “estar na fossa” nomeava o estado de melancolia amorosa que Lupicínio Rodrigues fixou em canções de quem sabe do que fala e sente.

Foi quem popularizou a “dor de cotovelo”, a sofrência no balcão do bar. Chegou a propor uma taxonomia: a dor federal, devastadora, que só curava com porre pesado, a estadual, mais suportável, e a municipal, tão chinfrim que nem dava samba. Quanto pior (a dor), melhor (a arte) — mote antigo, sabemos.

As rainhas da fossa também sabiam, e sabiam do fracasso (amoroso) em sua força, talvez melhor até que Beckett, hoje tão citado. Nora Ney, com “Ninguém Me Ama” (1952) — “Vim pela noite tão longa, de fracasso em fracasso / E hoje, descrente de tudo, me resta o cansaço” — foi a primeira mulher a ganhar disco de ouro no Brasil.

Maysa cantava “Demais” como quem sangra um lamento denso e rude: “Vou passar minha vida esquecendo você”. Ângela Maria e sua xará, Angela Ro Ro, que se foi agora, deixando em nós um travo amargo, como costuma acontecer quando as artistas de talento puro. Nora, Maysa e as Angelas são herdeiras de uma tradição que não pede licença nem desculpas pelo ardor, pelo escândalo da intensidade, pelo desespero de perder o prumo, o esteio e o rumo. Cantaram as canções das dores difíceis. Com a soberba de quem afunda pra valer.

Angela Ro Ro viveu a desmesura sem concessões. E com talento de sobra, mandava 40 rosas de uma vez, se declarava do palco. Havia algo de Aquiles naquele excesso — o herói irado que Homero colocou no centro da Ilíada pela força com que sentia e se consumia, arrastando todo o seu povo com ele.

Os gregos não temiam a emoção desmedida. A força da fraqueza era motivo de canto, e nela se vislumbrava nossa humanidade frágil, teimosa, absurda e indomável.

Da grande família dos intensos também faz parte a autora uruguaia-espanhola Cristina Peri Rossi, que narrou amores lésbicos com uma beleza franca e rara. Rossi falava do final de uma paixão como de um desastre íntimo, como sobreviver a uma queda de avião.

A fossa em música ou poema não é sofrimento a ser aplacado, repelido — muito pelo contrário. É um território onde se descobre quem se consegue ser longe das sociabilidades bem aceitas e das intensidades suportáveis.

A voz áspera e hipnótica de Angela, tão perfeitamente amalgamada ao som do seu piano, formando um só corpo grave e sentido, nunca prometeu alívio rápido, preferindo a sabedoria que só ganha quem sabe chafurdar na lama da perda, no final bem infeliz do que custa demais a terminar.

Antes de terminar esta crônica, me deixei levar por Angela em entrevistas na TV — e, aliás, recomendo. Numa delas, dizia: “Eu mesma sou a mulher dos meus sonhos, pois nunca vi uma pessoa passar por tanta coisa numa pequena existência. Estou encantada comigo.” Também estamos, do lado de cá, e seguimos encantados com Angela.

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Angela Ro Ro 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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