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No tempo da “panema”

No tempo da “panema”

“Eu ainda sou do tempo da ‘panema’. Hoje não tem mais panema, mas também não tem mais caça. Foi assim que dona Cecília Mendes (tia de Chico Mendes, já falecida) me falou das crenças dos seringueiros quanto ao azar, ou “panema”, na caçada. 

Gomercindo Rodrigues 

Para não ficar “empanemado” era necessário cumprir algumas regras fundamentais:

  • Tinha que cortar a carne da caça e lavar a tábua só com água, sem sabão.
  • A roupa do caçador que, claro, ficava manchada com o sangue da caça, tinha de lavar só com água, até tirar o sangue, sem usar sabão, para não “empanemar”.
  • A mulher não podia passar por cima do sangue onde a caça tivesse sido “tratada”, se pisasse no sangue “botava moleza”.
  • A corda de tirar o couro da caça devia ser sempre a mesma, deixada no mesmo lugar.
  • Ninguém podia pisar nos ossos, os cachorros tinham que roer ou, então, tinha que enterrar na mata, num “pé de pau” (próximo ao tronco de uma árvore.

No caso de “empanemar”, ou ficar com “moleza” na caça, o seringueiro tinha de cumprir alguns rituais para se livrar da panema.

Uma vez, seu Quinca, esposo de dona Cecília, (também falecido) matou uma caça. A carne foi mal salgada, estragou. Uma mulher jogou a carne fora. Seu Quinca ficou mais de um ano sem matar caça. Para tirar a panema, precisou tomar banho de pau d’alho e pião roxo, e ir pra mata. No outro dia seu Quinca foi pro mato, matou uma caça, tinha perdido a panema.

Outra receita para tirar a panema é do seringueiro Raimundo Monteiro. Numa tarde, deixa-se uma “jarina” com o “olho” amarrado com cipó. Na manhã seguinte, bem cedo, com um galho de pião roxo, dá-se uma surra na jarina para tirar a “panema”, falando em voz alta o nome da pessoa que “botou moleza”. Porém, se não foi essa pessoa, o “empanemado” cai num febrão danado.

Para os seringueiros, esse é um recado da natureza para combater a injustiça, ou seja, antes de acusar alguém, é preciso ter certeza, caso contrário, tem-se que arcar com as consequências.

Gomercindo Rodrigues – Engenheiro Agrônomo. Advogado. Amigo e assessor de Chico Mendes. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. Foto: Divulgação/ Expedicionários Fotografi a e Natureza.

 
 
 
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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