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A cidade não tem rima mas tem muro

A cidade não tem rima mas tem muro

Por Elizeu Braga

a cidade não tem rima
mas tem muro
tem promessa de progresso
mas nenhuma de futuro
a cidade é perna aberta pra quem chega de outros mundos
a cidade obedece a moda da roda dos imundos
que só faz ela apodrecer
esconde o que de mais bonito tem
potência no agronegócio arrebentando com a terra
e com quem nela se mantém
cidade empresarial,
corta as árvores nativas, planta palmeira imperial
expulsa os indígenas, trata o pobre como marginal
até ai tudo bem, nada de novo no fronte
a situação aqui é exemplo pra Belo Monte
região norte, periferia do Brasil
a Amazônia do teu cartão postal já se destruiu
felizmente por aqui ainda existem guerreiros e guerreiras que lutam
e são tantos quantos os dançarinos de boi bumbar
balas lhes perseguem na floresta mas só viram pauta na imprensa popular
foi por isso que fiz essa toada pra poder na base da palavra
a força desses guerreiros evocar
e grita Corumbiara a resistência e a luta
guerra contra os latifundiários
noticia que os grandes meios de comunicação e o cacique do PMDB oculta
porque assim como um Marighela
uma professora do movimento camponês lutou
e assim como Chico Mendes uma bala em seu peito estourou
e gritam as comunidades na beira do Rio Madeira
que mantiveram sua fé e a tradição da cultura Beradeira
ficaram em suas casas quando veio a grande alagação
os outros prejuízos trazidos pela destruição
da irresponsabilidade de projetos que produzem lucros pra outra região
a cidade segue explorada, colonizada, anestesiada
mas sonha, sonha, sonha com seus filhos que virão
não aqueles que buscam dela a riqueza
mas aqueles que por ela lutarão

★★★

elizeu-braga

Fonte: livreopiniao.com


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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