A HISTÓRIA DE SAMARICA PARTEIRA

A história de Samarica parteira

Os médicos nordestinos são os primeiros a reconhecer a importância das parteiras para o Sertão. O obstetra Zé Dantas, parceiro de Luiz Gonzaga, dedicou às comadres uma de suas mais lindas e longas canções. A versão completa de “Samarica parteira”, com dez minutos de duração, foi gravada em 1973 por Luiz Gonzaga.

Capitão Barbino, apavorado com a dô de menino de sua mulher, Juvita, manda seu peão Lula montar na bestinha melada e riscar ligeiro para buscar a parteira.
Quando ele já ia riscando, Barbino ainda ameaça: olha, Lula, vou cuspi no chão, hein! Tu tem que vortá antes do cuspe secá!
E lá se vai Lula atrás de Samarica, abrindo cancelas, atravessando lagoas, sapecando a pobre égua, na maior carreira, até chegar à casa da parteira. Samarica, é Lula… Capitão Barbino mandou vê a senhora que Dona Juvita tá com dô de menino.

Luiz Gonzaga

Samarica Parteira

Oi, sertão!
Ooi!
Sertão d’ capitão barbino! Sertão dos caba valente
Tá falando com ele!
E dos caba frouxo também
Já num tô dento
Há, há, há
Sertão das mulhé bonita
Ôoopa
E dos caba fei’ também ha, ha
Há, há, há
Lula!
Pronto patrão
Monte na bestinha melada e risque
Vá ligeiro buscar samarica parteira que juvita já tá com dô de menino
Ah, menino! Quando eu já ia riscando
Capitão barbino ainda deu a última instrução
– Olha, lula, vou cuspi no chão, hein?!
Tu tem que vortá antes do cuspe secá!
Foi a maior carreira que eu dei na minha vida
A eguinha tava miada
Piriri piriri piriri piriri
Uma cancela: Nheeeiim, pá
Piriri piriri piriri piriri
Outra cancela: Nheeeiim, pá!
Piriri piriri piriri pir, êpa!
Cancela como o diabo nesse sertão: Nheeeiim, pá!
Piriri piriri piriri piriri
Um lajedo: Patatac patatac patatac patatac patatac. Saí por fora!
Piriri piriri piriri piriri
Uma lagoa, lagoão: Bluu bluu, oi oi, kiki ki
A saparia tava cantando
Aha! Ah menino!
Na velocidade que eu vinha essa égua
Deu uma freada tão danada na beirada dessa lagoa
Minha cabeça foi junto com a dela!
E o sapo gritou lá de dentro d’água
Ói, ói, ói ele agora quaje cai!
Sapequei a espora pro suvaco no vazi’ dessa égua
Ela se jogou não’água parecia uma jangada cearense
[Bluu bluu, oi oi, kik’ k’]
Tchi, tchi, tchi
Saí por fora
Piriri piriri piriri piriri
Outra cancela: Nheeeiim, pá!
Piriri piriri piriri piriri
Um rancho, rancho de pobe
Au au!
Cachorro de pobe, cachorro de pobe late fino
Tá me estranhan’o cruvina?
Era cruvina mermo. Balançô o rabo
Não sei porque cachorro de pobe tem sempre nome de peixe
É cruvina, traíra, piaba, matrinxã, baleia, piranha
Há! Maguinho mas caçadozinh’ como o diabo!
Cachorro de rico é gooordo, num caça nada, rabo grosso, só vive dormindo
Há há
Num presta pra nada, só presta pra bufar
Agora o nome é bonito: É white, flike, rex, whiski, jumm
Há! Cachorro de pobe é ximbica!
Samarica, ooooh, samarica parteeeeira!
Qual o quê, aquelas hora no sertão, meu fi
Só responde s’a gente dê o prefixo
Louvado seja nosso senhor j’us Cristo!
Para sempre seja Deus louvado
Samarica, é lula
Capitão barbino mandou vê a senhora que dona juvita já tá com dô de menino
Essas hora, lula?
Nestante, capitão barbino cuspiu no chão
Eu tem que vortá antes do cuspe secá
Peguei o cavalo véi de samarica que comia no murturo?
Todo cavalo de parteira é danado pra comer no murturo, não sei porque
Botei a cela no lombo desse cavalo
E acochei a cia peguei a véia joguei em riba
Quase que ela imbica pra’outa banda
Vamos s’imbora samarica que eu tô avexado!
Vamo fazê um negócio lula?
Meu cavalin’ é mago, sua eguinha é gorda, eu vou na frente
Que é que há samarica
pra gente num chegá hoje?
Já viu cavalo andar na frente de égua, samarica?
Vamo simbora que eu tô avexado!!
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
Nheeiim, pá!
Piriri tic tic piriri tic tic
Bluu oi oi bluu oi, uu, uu
Ói, ói, ói ele já voltoooou!
Saí por fora
Piriri tic tic piriri tic tic
Piriri tic tic piriri tic tic
Patateco teco teco, patateco teco teco, patateco teco teco
Saí por fora da pedreira
Piriri piriri tic tic piriri tic tic
Nheeeiim, pá!
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
Nheeeiim, pá!
Piriri tic tic piriri tic tic piriri tic tic
Nheeeiim, pá!
Piriri piriri tic tic piriri tic tic
Uu uu
Tá me estranhando, nero? Capitão barbino, samarica chegou
Samarica chegou!!
Samarica sartou do cavalo véi embaixo
Cumprimentou o capitão, entrou pra camarinha
Vestiu o vestido verde e amerelo, padrão nacioná
Amarrou a cabeça c’um pano e foi dando as instrução
Acende um incenso. Boa noite, d. Juvita
Ai, samarica, que dô!
É assim mermo, minha fi’a, aproveite a dô
Chama as muié dessa casa, pra’a rezá a oração de são reimundo
Que esse cristão vem ao mundo nesse instante
B’a noite, cumade tota
B’a noite, samarica
B’a noite, cumade gerolina
B’a noite, samarica
B’a noite, cumade toinha
B’a noite, samarica
B’a noite, cumade zefa
B’a noite, samarica
Vosmecês sabe a oração de são reimundo?
Nós sabe
Ah sabe, né? Pois vão rezando aí, já viu??
Capitão barbiiino! Capitão barbino tem fumo de arapiraca?
Me dê uma capinha pr’ ela mastigar
Pegue d. Juvita, mastigue essa capinha de fumo e não se incomode
É do bom! Aguenta nas oração, muié!
Mastiga o fumo, d. Juvita
Capitão barbino, tem cibola do cabrobró?
Ai samarica! Cebola não, que eu espirro
Pois é pra espirrar mesmo minha fi’a, ajuda
Ui
Aproveite a dor, minha fi’a
Aguenta nas oração, muié
Mastigue o fumo d. Juvita
Capitão barbiiino, bote uma faca fria na ponta do dedão do pé dela, bote
Mastigue o fumo, d. Juvita. Aguenta nas oração, muié
Ai samarica, se eu soubesse que era assim
Eu num tinha casado com o diabo desse véi macho
Pois é assim merm’ minha fi’a
Vosmecê casou com o vein’ pensando que ela num era de nada?
Agora cumpra seu dever, minha fi’a
Desde que o mundo é muundo, que a muié tem que passar por esse pedacinh’
Ai, que saudade! Aguenta nas oração, muié!
Mastigue o fumo, d. Juvita
Ai, que dô!
Aproveite a dô, minha fi’a. Dê uma garrafa pr’ ela soprá, dê
Ô, muié, hein? Essa é a oração de s. Reimundo, mermo?
É, é
Vosmecês num sabe outra oração?
Nós num sabe
Uma oração mais forte que essa, vocês num têm?
Tem não, tem não, essa é boa [muitas vozes]
Pois deixe comigo, deixe comigo, eu vou rezar uma oração aqui, que se ele num nascer, ele num tá nem cum diabo de num nascer: “sant’ antoin pequenino, mansadô de burro brabo, fazei nascer esse menino, com mil e seiscentos diabo!”
Nasceu e é menino homem!
E é macho!
Ah, se é menino homem, olha se é? Venha vê os documento dele! E essa voz!
Capitão barbino foi lá detrás da porta, pegou o bacamarte que tava guardado a mais de 8 dia, chegou no terreiro, destambocou no oco do mundo, deu um tiro tão danado, que lascou o cano. Samarica dixe
Lascou, capitão?
Lascou, samarica
É mas em redor de 7 légua, não tem fi duma égua que num tenha escutado
Prepare aí a meladinha, ah, prepare a meladinha, que o nome do menino
É bastião

Composição: Luiz Gonzaga.

Deixe seu comentário

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

PARCERIAS

CONTATO

logo xapuri

REVISTA