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O FIM DO MUNDO ADIADO: AILTON KRENAK IMORTAL

O FIM DO MUNDO ADIADO: AILTON KRENAK IMORTAL

Será que nessa cadeira cabem 300? Como dizia Mario de Andrade, eu sou 300.  Olha que pretensão.  Eu não sou mais do que um,  mas eu posso invocar mais do que 300.  Nesse caso, 305 povos  que, [nesses últimos] anos do nosso país, passaram a ter a disposição de dizer:  ‘Eu estou aqui’. Sou Guarani. Sou Xavante.  Sou Kayapó. Sou Yanomami. Sou Terena.Ailton KrenakDiscurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Abril/2024.

Por Zezé Weiss

No dia 5 de abril deste ano da graça de 2024, um sábio tornou-se o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). 

Mineiro de Itabirinha, ele nasceu em 1953, no território original Krenak, na região do Médio Rio Doce, massacrado rio que seu povo chama de “Watu” (avô). Morador da comunidade indígena Krenak, no município de Resplendor, no estado de Minas Gerais, Ailton Alves Lacerda Krenak é agora o ocupante da cadeira número 5 da ABL. 

Por volta de 1920, a exploração branca resolveu ocupar as terras onde viviam os Krenak, nas montanhas das Gerais. Chegou trazendo doenças infecciosas, violências e massacres. O povo Krenak, que tinha uma população estimada em mais de cinco mil pessoas, foi-se reduzindo, se dispersando, se dizimando.  

Ailton já nasceu tendo que enfrentar essa onda contínua de exploração. Com fazendas isolando com cercas de arame os territórios onde se moviam livres sua família e seus parentes todos. Sem chance de defesa, as famílias de seu povo, inclusive sua própria família, não tiveram outra saída: fugiram da aldeia para a floresta. 

Não demorou muito para que o flagelo chegasse também à floresta. Vieram o desmatamento, o tombo das árvores, fonte de sombra e alimento, o ronco dos caminhões puxando a madeira cortada, a pata da vaca massacrando o solo, o fim da caça, a dor da fome, o caminho da estrada. De fuga em fuga, o menino Krenak foi perdendo seu bem mais precioso: a língua original.

Quando Ailton tinha 17 anos, toda a família mudou-se para São Paulo. De um barraco erguido à beira da estrada, ganhavam o pão de cada dia como diaristas, carregando caminhões de cimento. Quando a grana não dava, complementavam a renda da família trabalhando como ambulantes. 

Dois anos depois, o jovem Krenak vomitou sangue. Teve que ser internado, tinha úlcera gástrica. Fim de linha. Aquela vida não era para um jovem indígena, nascido livre. Em pânico ante as condições de trabalho e as relações humanas daquela civilização insana, Ailton tomou destino. Resolveu estudar, encontrar outro caminho. Deu no que deu: virou imortal da Academia Brasileira de Letras. 

REZA A LENDA 

A ABL abriu os olhos quando convidou, em 2019, os Guarani-Mbyá do Rio de Janeiro, recebidos com discurso de boas-vindas em língua Guarani por seu então presidente, Marco Lucchesi. O coral de crianças Guarani cantou aos pés de Machado de Assis, sob os aplausos de Evanildo Bechara – o Cacique do Lácio.  A literatura indígena, que permanecia invisível, começou a emergir, com a apropriação da língua portuguesa e o domínio da escrita por autores indígenas, alguns deles bilíngues.

Depois da abertura de portas pelos Guarani surge, em 2021, a primeira candidatura indígena de Daniel Munduruku, que não conseguiu os votos para ingressar na ABL. Uma vaga só é aberta com a morte de um dos 40 acadêmicos imortais. A vaga para a eleição de Krenak foi aberta com o falecimento do cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, em 13 de agosto de 2023. Sua cadeira nº 5 é a ocupada hoje por Ailton Krenak, que disputou com concorrentes como a historiadora Mary del Priore (12 votos) e o grande escritor indígena Daniel Munduruku (4 votos), o que dá a dimensão da qualidade da disputa.

O que mudou para que a Academia receba um autor indígena e reconheça sua obra? Como em outras instituições, a ABL, na seleção de seus membros, está condicionada à conjuntura política, social e ideológica. Na época da ditadura, reza a lenda que Pedro Calmon, titular da cadeira nº 16 e ex-reitor da UFRJ, convidou o marechal Castelo Branco a se candidatar à ABL. O ditador de turno, criador do Serviço Nacional de Informação (SNI), objetou:

– Mas não tem nenhuma vaga aberta.

– Por isso não. Eu lhe cedo a minha, marechal – disse o saudoso ex-professor de direito constitucional, competente e amável, mas tão subserviente ao poder constituído, que esta “lenda” corria dentro da sala de aula da Faculdade Nacional de Direito. Para isso, as “lendas” rezam.

Pedro Calmon continuou vivo, vivíssimo, por mais vinte anos. Quem morreu logo depois foi o marechal, num acidente aéreo, em 1967. Sua prometida e sonhada vaga foi herdada pelo general Aurélio Lira Tavares, eleito em 1970 para a Cadeira nº 20, logo após governar o Brasil como membro da Junta Militar. Qual a sua obra? O AI-5 que assinou. Cassou mandatos, fechou o Congresso Nacional, reprimiu a UNE e os sindicatos e censurou jornais, livros, revistas, peças de teatro e letras de música.

Lira Tavares se dizia poeta por haver cometido em sua juventude poemas publicados em jornais da Paraíba, sua terra natal, com o pseudônimo de Adelita, composto com as iniciais de seu nome. Quando embaixador do Brasil em Paris (1970-74), tentou convencer a Académie Française a traduzir sua obra, sem sucesso. 

Felizmente o fim deste mundo, embora adiado por mais de vinte anos, se concretizou. A história da ABL mostrou sua outra face e pôde se arejar nos novos tempos com Ana Maria Machado, Cacá Diegues, Eduardo Giannetti, Fernanda Montenegro, Gilberto Gil, Lilia Schwartz, Marco Lucchesi, Rosiska de Oliveira, e tantas outras inteligências que honram a memória de Machado de Assis. O pássaro que pousou em silêncio voltou aos céus sem deixar rastros. Milicos, nunca mais!

A escolha do Burum Krenak para ocupar uma cadeira no Petit Trianon deu-se no contexto da criação do Ministério dos Povos Indígenas, dirigido por Sônia Guajajara, uma mulher indígena, assim como do fortalecimento da luta indígena organizada, não de hoje, mas há décadas, para a qual muito contribuiu o novo acadêmico, ambientalista e líder indígena, que participou da criação da União dos Povos Indígenas, em 1988 e, junto com Chico Mendes, da Aliança dos Povos da Floresta, em 1989. 

ALIANÇA DOS POVOS DA FLORESTA 

Ailton tinha 26 anos quando, em 1979, fundou a União das Nações Indígenas (UNI) junto com outras jovens lideranças indígenas. Nos anos seguintes, viajou mais de 8 mil quilômetros – a pé, de canoa, de ônibus, de charrete, de carro de boi – para levar a UNI a comunidades indígenas de norte a sul do país. 

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Foto: Acervo IEA

A UNI chegou a ter dezenas de grandes líderes nacionais e mais de mil membros ativos. Depois, parte das lideranças, ligadas à Igreja, decidiram assumir a liderança da UNI. Em 1989, depois de uma longa luta no Congresso Nacional contra a construção da hidrelétrica de Altamira, Ailton e outras grandes lideranças fundamentais na organização do movimento indígena resolveram deixar a UNI. 

Mas Ailton já vinha trilhando outras picadas, perseguindo outras utopias.  Do encontro político com Chico Mendes, veio a coragem de lutar para unir indígenas e seringueiros/as em uma só frente, em defesa da Amazônia e dos povos da Floresta. Os dois trabalharam muito nessa ideia, moveram montanhas e rios, colocaram na mesma canoa indígenas e extrativistas. 

Chico Mendes foi assassinado em 22 de dezembro de 1988, no quintal de sua casinha azul e rosa, na cidade acreana de Xapuri. Em março de 1989, a Aliança dos Povos da Floresta foi fundada em Rio Branco, no Acre, sob a liderança e com a presença de Ailton Krenak. 

A Aliança dos Povos da Floresta teve e tem, até os dias de hoje, papel relevante na defesa das Terras Indígenas e das Reservas Extrativistas, um modelo de reforma agrária ecológica para a Amazônia, desenvolvido pelas lideranças extrativistas do Vale do Acre, com base no cuidado dos povos indígenas com seus territórios. 

Depois de muitas andanças, Krenak voltou para Minas Gerais, onde passou a se dedicar ao Núcleo de Cultura Indígena. Desde 1998, o NCI realiza, na região da Serra do Cipó, em Minas Gerais, o Festival de Dança e Cultura Indígena, promovendo a integração entre populações indígenas dos mais diferentes cantos do Brasil. 

Inquieto, o imortal Krenak segue na militância em defesa dos povos indígenas e do meio ambiente. É coautor da proposta da UNESCO que criou a Reserva de Biosfera da Serra do Espinhaço, em 2005, e que ele assim define: 

Sempre que abrimos uma narrativa sobre algum lugar ou paisagem natural, temos a tentação de iniciar pela medida do tempo dos homens, nosso tempo de vida ou de algumas gerações. Entretanto, alguns lugares do mundo nos obrigam a uma mirada mais distante para que ao menos parte desta grandeza e maravilha possa ter mais significado.

A Serra do Espinhaço reivindica uma história assim, de bilhões de anos, de eras geológicas, quando a Terra ainda estava em movimentos fantásticos, juntamente com outras regiões do planeta, transformando suas estruturas, formando todas as terras e criando as formações que hoje conhecemos como relevos, serras, montanhas, vales, com seus mares internos e cumes das grandes cordilheiras.

Uma incrível matéria com plasticidade inimaginável para desenhar continentes inteiros 

“CARA PINTADA” NA CONSTITUINTE

A eleição do Burum Ailton Krenak para a ABL, em 5 de outubro de 2023, coincidiu com o aniversário de 35 anos da “Constituição Cidadã”, promulgada em 5 de outubro de 1988. 

Durante a Assembleia Nacional Constituinte, instalada no Congresso Nacional, no dia 1º de fevereiro de 1987, com a missão de elaborar – e votar – uma nova Constituição para o Brasil, a participação do movimento indígena e, em especial, do jovem líder Krenak, foi fundamental para a inclusão   do Capítulo “Dos Índios” – artigos 231 e 232, no texto final da Constituição. 

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Foto: Câmara dos Deputado

Em 4 de setembro de 1987, Ailton Krenak fez história na tribuna da Assembleia Nacional Constituinte, onde não era comum “índio” discursar. Krenak ocupou a tribuna. E ocupou causando. Contrastando com a “austeridade” da plenária, revolucionário, representando a União das Nações Indígenas, Ailton Krenak discursou vestido em um impecável terno branco. 

À medida em que ia falando, com firmeza, mas devagar, com breves pausas, como se estivesse medindo o impacto da performance e das palavras naquela audiência alienígena, o Burum ia pintando o rosto de preto, com tinta de jenipapo, em geral usada para servir de proteção espiritual na luta dos povos originários, a cor negra significando o luto sentido pelos/as milhares de indígenas assassinados/as nos conflitos pelo direito à terra no Brasil. 

Assustados/as, os/as congressistas ficaram em silêncio para ouvir Ailton Krenak:

Todos vocês devem saber quanto sangue indígena foi derramado em cada metro deste imenso território brasileiro. Ainda hoje nos defrontamos com a violência que vem da ganância e do poder econômico, da discriminação contra os povos originários. 

Os senhores não terão como ficar alheios a mais a essa agressão movida pelo poder econômico, pela ganância, pela ignorância do que significa ser um povo indígena. 

Povo indígena tem um jeito de pensar, tem um jeito de viver, tem condições fundamentais para sua existência e para a manifestação da sua tradição, da sua vida, da sua cultura, que não coloca em risco e nunca colocaram a existência, sequer, dos animais que vivem ao redor das áreas indígenas, quanto mais de outros seres humanos.

Por favor, parem de negar os fatos.

O discurso contundente daquele jovem líder indígena de apenas 33 anos impactou o pensamento branco dominante dos fazedores (e das poucas fazedoras – de 599 congressistas, apenas 26 eram mulheres) da nova Lei maior brasileira. Pela primeira vez na história do Brasil, o “índio” entrou na Carta Magna do país como sujeito de direitos. 

IDEIAS PARA “ADIAR O FIM DO MUNDO” 

Com Ailton Krenak, doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora; doutor honoris causa pela Universidade de Brasília (UnB); vencedor do Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano (2020), da União Brasileira de Escritores (UBE); e comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República, a Academia Brasileira de Letras incorpora um novo tipo de literato, aquele que escreve de forma tão encantadora como fala, mesclando a escrita e a oralidade com a letra e o som da palavra. 

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Foto: Divulgação

Como bem diz a ambientalista Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental:

Um autor fundamental para apresentar uma cosmovisão indígena, na perspectiva de olhar o mundo e o futuro pela ótica de povos que estão aí há milênios, e que já passaram por tanta coisa, para ajudar a inspirar nossa sociedade, que está enfrentando várias crises, ao mesmo tempo em que necessita de um olhar criativo e  diverso, para esse enfrentamento. A obra de Ailton Krenak tem aberto esses caminhos para nossa sociedade aprender com os povos indígenas e refletir melhor sobre o futuro.

Voz incansável, militante e engajada na defesa dos povos indígenas, da paz no mundo e da vida na Terra, brilhante, o pensador, filósofo e escritor Ailton Krenak rompeu fronteiras. De seus mais de 15 livros publicados, dentre eles: Um rio, um pássaro (2023); Futuro ancestral (2022); A vida não é útil (2020); e Ideias para adiar o fim do mundo (2019), muitos estão traduzidos em diversos idiomas e são lidos em mais de 20 países. 

Ideias para Adiar o Fim do Mundo tem edições no Japão, na Turquia, na Tchecoslováquia e em toda a América Latina.  De tão famoso, o livro ganhou até uma tradução para o português de Portugal, onde recebeu um título novo: Ideias para salvar a humanidade. Irreverente, o autor comentou: 

Esse meu livro foi publicado na suposta língua do Brasil, que é o português. Eles disseram: “não, queremos traduzir o livro para o português”. Isso quer dizer que os falantes naturais de português consideram que nossa língua é brasileira, não é português.

POSSE À MODA INDÍGENA 

O que não faltou foi autoridade na posse de Krenak na ABL. Marcaram presença a ministra da Cultura Margareth Menezes, o ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida, o vice-ministro dos Povos Indígenas Eloy Terena, a presidenta da Funai Joenia Wapichana, e o secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro Marcelo Calero. 

MODA
Foto: Divulgação/ABL

Também não faltou diversidade e informalidade. Acompanhado de um grupo de convidados/as especiais, que ele próprio escolheu, incluindo o amigo Benki Piyãko, do povo Ashaninka do Acre, Ailton Krenak juntou um belo mosaico das mais variadas gentes, parceiras suas de sonhos e de lutas.   

O discurso de boas-vindas veio da escritora e acadêmica Heloísa Teixeira. E, entre muitos beijos e mesuras, recebeu o colar de imortal de Fernanda Montenegro, a espada, do acadêmico Arnaldo Niskier, e o diploma, do acadêmico Antonio Carlos Secchin. 

Na cabeça, levou sua usual bandana dos Huni Kuin, símbolo da parentagem que tem com o povo Kaxinawá [o outro nome dos Huni Kuin], do Acre. O Burum é avô do jovem Siã, que também é neto do grande líder indígena Siã Huni Kuin e bisneto do legendário cacique Sueiro (já encantado), companheiro de Krenak e de Chico Mendes na construção da Aliança dos Povos da Floresta.

Outro toque especial foram os comes e bebes. A pedido do imortal, não foram servidas bebidas alcoólicas, substituídas por água de coco tirada na hora e chás, e frutas, muitas frutas. Produzido pelo grupo Terra Come, de Belo Horizonte, o menu incluiu uma sopa com bases indígenas – mandioca, banana da terra, taioba e especiarias da terra, servida em cumbucas de argila.

O ponto forte do cardápio foi a batata doce roxa, considerada “o pão da terra” por muitas comunidades indígenas. Assada em uma camada de argila carimbada com a palavra Krenak (que na língua Krenak, proveniente do tronco linguístico Macro-Jê, significa “Kre” – cabeça e “Nak” – terra), a iguaria foi quebrada com martelo e servida para ser comida com as mãos, à moda indígena. 

“UM NÓ NA ACADEMIA” 

A entrada de Ailton Krenak, aos 70 anos, para o seleto clube de 40 intelectuais da ABL, marcado pelo predomínio branco e masculino, deve mudar um pouco as coisas por lá. O discurso da antropóloga, historiadora e acadêmica Lilia Schwartz (uma das únicas cinco mulheres na Academia) na posse do Burum, dá um pouco o tom dessa perspectiva de mudança:

Durante muito tempo, a branquitude se escondeu na ideia de que a universalidade era só ocidental e branca. E agora nós vemos que a universalidade tem a ver com ser cosmopolita, no sentido de se alterar em função das relações que nós estabelecemos com os outros e com os nossos outros. Então eu acho que Krenak é o outro do outro, o outro da outra. E ele vai dar um nó na Academia, assim como tem dado um nó no Brasil também.

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Foto: Divulgação

Schwartz tem razão. Krenak não chega apenas com sua clássica bandana Kaxinawá, nem só com suas “duas mãos e o sentimento do mundo”. Krenak chega com planos: 

Uma das minhas intenções é convidar a ABL para criar uma plataforma, com a experiência que temos, por exemplo, com uma plataforma que já existe, chamada Biblioteca Ailton Krenak, disponível para quem quiser acessar na web centenas de imagens, textos, filmes e documentos. Não é legal? Poderíamos fazer isso com todas as línguas nativas. Teria tudo a ver com a ABL incluir mais línguas além do português. Eu [trago] comigo as línguas nativas do Brasil. O português não é uma língua brasileira. É uma língua europeia. Já comecei dando esse sinal óbvio de que não chego à Academia para ampliar a lusofonia. Vou promover uma sinfonia. Essa sinfonia é estimada pelos linguistas em 180 línguas indígenas. O Museu do Índio tem um acervo muito antigo de registros de narrativas, algumas delas só na língua materna. Vamos traduzi-las com uma tradução simultânea e as pessoas vão poder ouvir. Podemos fazer isso junto com todas as etnias que estão envolvidas no resgaste linguístico. A Unesco declarou essa década a segunda década das línguas indígenas. Podemos chamá-la para dar um pouco mais de publicidade junto com a ABL. A ideia é priorizar a oralidade, e não o texto. O que ameaça essas línguas é a ausência de falantes.

Taí Ailton Alves Lacerda Krenak, o primeiro indígena a tomar posse na centenária, historicamente elitista, patriarcal e misógina Academia Brasileira de Letras. Criada há mais de 120 anos, em 1897, por Machado de Assis, um escritor negro, até 1977, quando admitiu Rachel de Queiroz, uma mulher nordestina, a ABL foi composta só por homens brancos.  

Taí o Burum imortal, conselheiro da nossa Revista Xapuri, tradução desse momento histórico de transição da ABL como um espaço diverso e plural de erudição: outra vez lúcido, outra vez sonhador, outra vez militante, outra vez gentil, outra vez incisivo, outra vez cordial, outra vez abrindo picadas, outra vez na vanguarda, outra vez, ao seu modo único de ser e de viver, dando um jeito de “adiar o fim do mundo”.  

NOTA DE REDAÇÃO: Nesta segunda-feira (13), nosso conselheiro foi condecorado com a insígnia de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra, pela Embaixada da França. Krenak é motivo de orgulho para brasileiros e brasileiras e, consequentemente, para a Revista Xapuri. 

zezeZezé Weiss – Jornalista, com conteúdos tomados por empréstimo de José Bessa Freire (Reza a Lenda) e da introdução do livro Um rio, um pássaro, de Ailton Krenak (dados biográficos), editados por limitação de espaço. 

 
 
 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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