A LEVEZA DAS UTOPIAS

A leveza das utopias

No condomínio das repetições, as emoções são corrompidas pelo preconceito, o racismo e o sexismo. Disso resultam os novos atentados à alteridade pela dogmática do conservadorismo.

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No condomínio das repetições, as emoções são corrompidas pelo preconceito, o racismo e o sexismo. Disso resultam os novos atentados à alteridade pela dogmática do conservadorismo.

Ítalo Calvino (1923 Cuba – 1985 Itália) deixa preparadas Seis propostas para o próximo milênio, também conhecidas por Lezioni americane (Lições americanas), as quais pretendia apresentar na Universidade de Harvard não tivesse falecido antes.

Tratam de valores: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade. A sexta lição versaria sobre a consistência. O plano era redigi-la nos Estados Unidos para encorpar o projeto de contenção do empobrecimento da língua, a defesa do ofício de escrever e a união entre o rigor e o maravilhoso na literatura e na aventura humana.

Na palestra sobre a leveza comenta que, no início da carreira de escritor, era imperativo categórico representar o contexto da época e a “impiedosa energia” que movia a história. Sua obra debutante, O caminho para os ninhos de aranha, data de 1947, após abandonar os estudos de Agronomia em Turim. Inspira-se na heroica resistência italiana contra o nazifascismo na Segunda Guerra mundial.

Muito cedo, percebe que o estilo ágil para abordar os fatos da vida esbarra no espetáculo de uma realidade ora dramática, ora grotesca. Um enorme abismo difícil de superar. Descobre “o pesadume, a inércia, a opacidade do mundo – qualidades que se aderem logo à escrita, quando não encontramos um meio de fugir a elas”.

Tudo parece oferecer obstáculos intransponíveis. A lenta petrificação não poupa nenhum aspecto da existência. Como se ninguém escapasse ao olhar empoderado de Medusa.

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Imagem: UnB Revista

Ideias fora do lugar

No Brasil, por igual, a geração que combate a ditadura militar lida com um sentimento de desajuste para se expressar publicamente. O trabalho experimental nas artes cênicas, pictóricas, musicais e letradas no período cava alternativas estéticas para sublimar vivências medíocres impostas pela censura, a tortura e a ignorância dos regimes de exceção, no país e no continente latino-americano.

O ensaio de Roberto Schwarz publicado em 1973, As ideias fora do lugar, não remete apenas às contradições entre o liberalismo e a escravidão no século XIX: espelha o mal-estar generalizado no contexto em que liberdades são sufocadas no rumor de botas. Nas comemorações dos “quinhentos anos do descobrimento”, a impressão é de que os ideais de nação são sempre sabotados pelas elites no poder. A engrenagem emperra a ação dos ponteiros do relógio. O tempo vai aos solavancos.

Uma sensação rediviva no golpe para depor a presidenta Dilma Rousseff, em 2016. O voto para o impeachment em que um deputado homenageia um torturador condenado pela justiça destampa o esgoto, ao descortinar a distopia subjacente na quebra do paradigma constitucional.

A reação ganha um líder para reatualizar fantasmagorias do passado. O retrocesso civilizacional celebra o porta-voz do autoritarismo nacional, do Oiapoque ao Chui. No quadriênio de horror bolsonarista no Palácio da Alvorada (2018-2022), o que é ruim fica pior. A velha dialética da dominação atravessa os séculos.

Para salvar o reino

No governo problemático, milhões de pessoas olham para a face de Górgona e são petrificadas pelo mito relatado por Ovídio, em Metamorfoses. A Medusa era uma sacerdotisa do templo de Atena, conhecida pela beleza e a cabeleira, e obrigada a manter a virgindade.

É estuprada por Poseidon, deus do mar, que se apaixona por ela. Furiosa com a violação do santuário, Atena culpa Medusa e a transforma em monstro. Seus cabelos viram cobras e ela recebe o poder de empedrar quem a olha nos olhos. Eleitores que votam no quadrilheiro não temem encarar o mal, apesar de todos alertas.

Foi necessário libertar da cadeia um inocente para salvar o reino. Com o protagonismo de Perseu, capaz de recusar a visão direta embora destinado a viver entre criaturas más, cabe a um retirante nordestino cortar a cabeça assustadora e convertê-la em uma arma na luta da democracia contra o fascismo e da sustentabilidade contra a destruição da natureza.

Sua leveza consiste em não perder a ternura para com o povo de sua terra e revelar bravura para garantir a soberania da amada pátria.

Uma tarefa complicada diante do peso de viver cercado por serpentes na economia e na política. A força de que precisa está no desejo de servir os necessitados. As imagens de leveza que busca não podem se dissolver em disputas fratricidas, vaidades e ressentimentos.

É o amor aos ofendidos e humilhados que lhe indica o caminho e o desvia de armadilhas, colhendo conchas pequenas com as mãos e afastando as teias de aranha para prosseguir. À noite, a estrela banha de luz seus sonhos.

Sapiens ou demens

O pensamento voa alto, por pesarosos que sejam os assuntos que atormentam os indivíduos e os coletivos e por mais mortes que traga no coração quem trava o bom combate.

Mesmo onde a areia movediça suga virtudes, é possível rebater as desinformações dos veículos de comunicação que se arvoram proprietários da opinião pública ao sobrecarregar as crises políticas e, com premeditação, produzir confusão nas consciências para melar os juízos.

Como diz Paul Valéry, citado por Ítalo Calvino: “Il faut être léger comme l’oiseau, et non comme la plume” (“É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma”). Não significa ser vago, aleatório, volúvel – um tipo sem critérios.

As palavras modelam o real, não porque o substituam, senão por fazê-lo cognoscível. A extrema direita não procura romper o véu das coisas; ao contrário, deixa mais espesso o que impede nossa sensibilidade e discernimento perante a diversidade, privando-nos da riqueza maior, a variedade do humano.

No condomínio das repetições, as emoções são corrompidas pelo preconceito, o racismo e o sexismo. Disso resultam os novos atentados à alteridade pela dogmática do conservadorismo.

Hoje a leveza das utopias disputa com o peso-fórmula das big techs a atenção da humanidade. O mercado expõe títulos sobre a magia dos algoritmos e da Inteligência artificial (IA).

A crítica, por outro lado, denuncia o silêncio sobre as desigualdades em ambientes em que a noção de sociedade – no crescendo – se afigura etérea e sem substancialidade como se não fosse portadora das aspirações de emancipação construídas na Idade Moderna.

O narcisismo sombrio cria um individualismo oco, desvirtuado, sem respeito pela liberdade de expressão das individualidades não hegemônicas. Para alguns, essa é a derrota de Deus. Resta saber se a vitória é do Homo sapiens ou do Homo demens.

Luiz Marques é docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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