A PAIXÃO DE ZIZUÍNO (RETRATOS DO HOMO CERRATENSIS)

A PAIXÃO DE ZIZUÍNO (RETRATOS DO HOMO CERRATENSIS)

A PAIXÃO DE ZIZUÍNO (RETRATOS DA VIDA DO HOMO CERRATENSIS)

Era sábado, dia de feira, naquele pequeno povoado, quando um adolescente de tez morena clara se aproximava dos locais mais movimentados da feira, à procura de um canto onde pudesse acomodar seus produtos à venda

Por Altair Sales Barbosa

3 06set2022 Cerrado 15 LGPrado
Árvores do Cerrado embelezam a paisagem do campus Darcy Ribeiro da UnB. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom

Eram prenhas de araticum, cajuzinho do campo, puçá e outros frutos dos gerais que, misturados aos poucos produtos da rocinha que cultivava, andu, feijão-verde, uma abóbora, um feixe de quiabo e ovos devidamente embalados em palhas de milho completavam o repertório de fartura do local onde morava e que trazia até a feira em um par de bruacas, que eram acomodadas no lombo de um jumentinho. 

Logo vendia tudo e, com os trocados que ganhava, saía pela feira à procura de outros produtos para completar as necessidades de casa, onde morava com seu pai, viúvo, que havia perdido a esposa quase um ano antes. Este, certamente, ficara em casa para cumprir outras labutas.

Depois de vender a mercadoria, o belo rapaz passeava um pouco pela feira, comia alguma novidade e logo estava de retorno ao local onde morava, que não era tão longe – talvez uns seis quilômetros, perto da boca de entrada para os grandes gerais.

Certa vez, numa dessas ocasiões, ele avistou uma moça bonita, um pouco mais jovem que ele, que zanzava pela feira à procura de novidades. Logo ela descansou o olhar no quase hipnotizado olhar do rapaz, ainda meio menino, que a olhava de forma encabulada. Pairava no ar uma sensação de carinho, nada mais.

Voltou para casa, recheado de alegria, e buscou no fundo da mente e do coração algumas cantigas. Dessa forma, cantarolava pelas trilhas que o conduziam até sua morada, ansioso para que os dias vindouros voassem e trouxessem logo o novo sábado.

No domingo, levantou-se cedo, tomou café com o pai, logo saiu para alimentar as criações e cuidar das coisas que plantava no pequeno roçado. A segunda-feira chegou de forma diferente. Trazia no seu raiar uma luminosidade enamorada.

Pela manhã, cuidou das labutas. Após o almoço, foi correndo para a escola do grotão onde, juntamente com outros e variados colegas de todas as idades, aprendia nos livros de Erasmo Braga os ensinamentos distribuídos pela calejada professora.

E assim logo chegou o outro sábado. Saiu com a neblina ainda alta, com toda a tralha preparada na tardinha de sexta-feira, em direção à feira do povoado. Ocupou de mansinho seu lugar, de uma forma como nunca havia feito. Estava também vestido com sua melhor roupa. 

Ansioso, começou a vender seus produtos. Desta vez, o estoque estava enriquecido com sabão “dicuada”, feito da raspa seca da polpa do pequi e de rosários de coco licuri. 

Ainda não tinha avistado a menina moça que o encantara. Mas foi só uma questão de tempo. Logo que terminou de vender seus produtos, eis que ela surge numa das esquinas, radiante como nunca, trajando um vestido branco.

Ela o procurou pela feira e, quando seus olhares se cruzaram, foi como se uma explosão atômica acontecesse, tal a força de tanta energia. Houve um sorriso, acanhado e encantador. Nada além disso.

Os olhares continuaram a viajar pelas trilhas adocicadas do ambiente, por cerca de quase uma hora. Nesse ínterim, o rapaz, que deveria ter uns dezesseis anos, estava comprando o essencial para levar para casa: querosene, sal, café e, certamente, um litro de pinga para o pai. 

Trocaram mais alguns olhares e, em seguida, a menina-moça tomou o rumo de sua casa, o mesmo acontecendo com o rapaz. O caminho da volta exalava perfumes suaves de alegria, que até os passarinhos pareciam estar contagiados pelas alegrias de seus gorjeios.

Um dia, na feira, ainda movimentada, ele se aproxima dela e, entregando-lhe de presente uma gargantilha, apenas diz: – Eu fiz para você. 

Ela ficou rubra, ele também, mas uma aura dourada parecia irradiar aquele momento. Apenas o gesto dela de colocar o presente ao pescoço. Nada mais houve.

O pingente artesanal consistia em um coco de tucum maduro e seco, muito bem polido, estampando na parte da frente a marca de um crucifixo, certamente pirografado com um ferro pontiagudo. Na parte superior do coquinho, havia dois pequenos orifícios, pelos quais passava um cordão finamente trançado, feito das fibras das palmas de tucum. Onde as pontas do cordão se encontravam, havia um pequeno anel de couro costurado com a maestria de um grande ourives.

E assim os dois continuaram naquela rotina, mas lá no fundo sentiam que um grande amor, talvez impedido pelo acanhamento, existia entre os dois. Muitas luas se passaram, veio o tempo das águas, passou a seca, e a sensação de amor só aumentava.

Certa vez, era mais cedo que de costume. O rapaz, que se chamava Zizuíno, ainda estava no seu posto da feira, vendendo seus produtos, quando avistou a mocinha, cujo nome ele nem ao certo sabia. 

Ela vinha radiante como sempre, bonita como nunca se viu, e trazia um jeito diferente. Aproximou-se dele, também não sabia seu nome, e com os olhos meio lacrimejando, disse:

– Meus pais vão embora para Goiás, eu vou com eles semana que vem. 

E, estendendo o braço, agarrou com carinho a mão dele, dizendo: 

– Adeus.

Zizuíno, naquele momento, sentiu-se como uma estrela que se desgarrou do céu. Com as pernas trêmulas, ainda pode ver no pescoço dela o pingente de tucum e uma lágrima escorrendo em seu rosto. Ela foi-se afastando lentamente.

Ainda dentro de sua lucidez, porém amargurando uma imensa tristeza, Zizuíno comprou as necessidades para suprir a casa e saiu rápido em direção ao local onde morava. Chegando lá, deixou a matula dependurada num galho de um pequizeiro, em frente à casa. E caiu na boca do mundo. 

Encontrando uma clareira, se ajoelhou e, olhando no rumo daquele sol escaldante, rezou a oração de Santa Catarina, talvez para amenizar a culpa das blasfêmias que certamente fizera a Deus:

Senhora Santa Catarina,

Me defendei com a sua misericórdia,

Eles terão olhos e não me enxergarão,

Terão pernas e não me alcançarão,

 

Terão armas e não me ofenderão,

Seus ouvidos não me ouvirão,

Suas bocas não pronunciarão contra mim.

Assim como estas palavras são verdadeiras,

Assim meus inimigos não me ofenderão.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Amém.

Seu pai, num primeiro momento, não se deu conta do acontecido. Deve ter pensado que, já sendo rapaz, Zizuíno teria saído com algum amigo da região para se divertir em alguma festa. Mas, a partir do meio-dia de domingo, começou a ficar preocupado. 

Saiu pela vizinhança buscando informações, mas tudo em vão, ninguém dava notícias. Assim, com a ajuda dos amigos, se embrenhou pelos gerais. Durante sete dias, não obteve nenhum sinal do filho.

Com o tempo, e com muito pesar, foi se conformando com o ocorrido, mas sempre carregava uma tristeza profunda. Depois de muito tempo, percebeu que, em certas ocasiões, dava a impressão de que, durante a noite, alguém rondava sua casa. 

Saía com uma candeia, chamava pelo nome Zizuíno, mas ninguém aparecia. Mesmo assim, desconfiado, deixava uma matula com farinha, carne seca, rapadura e uma muda de roupas dependurada no galho do pequizeiro. No outro dia, percebia que alguém pegara a matula, o que lhe dava um pouco de esperança. Esse fato aconteceu por umas três vezes, depois, não mais.

Certa vez, durante uma de suas idas à feira do povoado, alguém o informou que, há algum tempo, vira Zizuíno dormindo sobre a sepultura de sua mãe, no pequeno cemitério do povoado. Mas, quando tentou se aproximar, ele saiu em disparada, rumo aos gerais de dentro.

Essa foi a última notícia que se teve de Zizuíno.

Era uma vez um rapaz bonito, que cultivava em silêncio uma paixão profunda por uma moça bonita que um dia morou naquele pequeno povoado. O povo daquele lugar diz que o destino lhe fez traição e que Zizuíno hoje mora nas grotas de alguma constelação.

altair sales barbosa 15 12 09 ed pelikano 11Altair Sales Barbosa – Pesquisador do CNPq – Prof. Visitante da Universidade Evangélica de Goiás – Sócio Emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás – Conselheiro da Revista Xapuri.

Capa: Mateus S Figueiredo.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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