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Scholastique Mukasonga: O Horror está em todo lugar

Scholastique Mukasonga: Não quis escrever livros sobre o horror, mas ele está em todo lugar

Por Maria Fernanda Rodrigues

Em abril de 1994, 37 pessoas da família de Stefania e Cosma, seu marido, incluindo o casal e ao menos duas dezenas de crianças, foram exterminadas – o genocídio de Ruanda soma cerca de 1 milhão de pessoas assassinadas cruelmente em 100 dias. Scholastique e seu irmão André não estavam lá. A família tinha decidido que eles sobreviveriam.

E, como sobrevivente, ela decidiu que era seu dever guardar a memória de todos. Foi assim que essa assistente social que iniciou sua formação em Ruanda e continuou no Burundi, para onde foi, com muito custo e risco, com André, no início dos anos 1970, se tornou escritora.

Baratas, o livro que ela escreveu, sem pretensão literária, justamente como “dever de memória”, e que a Gallimard publicou em 2006, chega agora ao Brasil pela Editora Nós um ano depois de ela ter se tornado uma das sensações da Flip, quando, desconhecida do leitor brasileiro, lançou aqui os dois livros seguintes. A Mulher de Pés Descalços (2008) fala sobre sua mãe e Nossa Senhora do Nilo (2012), um romance situado numa escola para meninas em Ruanda, como a que ela frequentou, que foi premiado na França com o Renaudot e vai virar filme do afegão Atiq Rahimi.

Autobiográfico, Baratas – o título remete ao modo como os tutsis eram chamados – é um retrato cruel de uma vida sob ameaça. De uma vida miserável e da morte violenta de milhares de pessoas. É história de uma mulher que não estava lá no final, e carrega esse peso – e o peso de não ter coberto o corpo da mãe, decepado por facões, comido pelos bichos, quem vai saber, como tantas e tantas vezes ela pediu às suas meninas. “Quando eu morrer, quando vocês perceberem que eu morri, cubram o meu corpo. Ninguém deve ver o corpo de uma mãe”, recorda Scholastique em A Mulher de Pés Descalços.

A autora, que vive na França, respondeu a algumas perguntas do Estado por e-mail. Outras seguem sem resposta. É tudo muito recente. Há 24 anos, ela recebeu um envelope com uma única folha dentro. Nela, apenas o nome de seus 37 mortos.

Meu primeiro sentimento foi o de uma enorme culpa. Por que teria eu sobrevivido? Por que eles e não eu? Como me juntar a eles? Estava à beira da loucura. Então inventei o que talvez se pareça a um mito, uma bela história para sobreviver, na qual gosto de acreditar: se meu pai me escolheu para partir em exílio não foi somente para salvar minha vida, mas para perpetuar a memória de todos os que estavam fadados a um extermínio programado”, conta.

Entre Scholastique Mukasonga receber a carta que confirmava o extermínio de sua família e a coragem de voltar a uma terra estranha onde ninguém mais a esperava, como descreveu, passaram-se 10 anos. Acompanhamos essa viagem em Baratas. Vemos sua tentativa de encontrar qualquer coisa que confirmasse que ali, naquele terreno, ela passou a infância, seus irmãos cresceram, casaram, seus sobrinhos nasceram. Que ali se dançava, fazia cerveja, se vivia.

Quando me vi em Nyamata, para onde, em 1960, minha família e outros tutsis tinham sido deportados, já não havia mais nada. No lugar da casa de meus pais, só havia um mato espesso e arbustos impenetráveis. Quiseram erradicar todo vestígio da existência deles”, conta a autora. Foi nesse momento que compreendeu que tinha de escrever, mostrar que antes do genocídio houve uma família e amor.

De volta à França, juntou as anotações feitas na viagem para “transformá-las em um livro digno sobre os que tiveram a infelicidade de sobreviver”. Baratas, ela diz, é “um túmulo de papel”.

Scholastique Mukasonga nasceu em 1956, no sudoeste de Ruanda. Três anos depois, os primeiros pogroms contra os tutsis estouraram. “A engrenagem do genocídio tinha sido acionada”, ela escreve no início do livro que narra sua história, que é a história de tantos outros que viveram sempre alerta, esperando o pior. Ela tinha 3 anos e se lembra dessas primeiras imagens de terror. Um bando aos gritos portando facões, lanças, tochas. Ela nas costas da mãe procurando esconderijo no bananal. A choupana coberta de palha onde viviam pegando fogo, os celeiros vazios. Aí começa a peregrinação da família, a expulsão e o exílio dentro de sua própria pátria.

O livro é cronológico, perpassa a infância da autora e retrata não só o terror que pairava sobre as pessoas de sua etnia, mas a miséria, a humilhação, os deslocamentos intermináveis a pé ou como gado em caminhões, a sede, a fome, o medo e a dor.

SCHOLASTIQUE MUKASONGAAcompanhamos também sua passagem pelo liceu Notre Dame de Cîteaux, para onde ela não queria ir, como se isso fosse afastá-la definitivamente da realidade de sua família, e foi isso mesmo que aconteceu, e onde ela conheceria “a solidão da humilhação e da rejeição”. Essa é a matéria-prima do romance Nossa Senhora do Nilo.

Baratas também fala dos que sobreviveram – não sem antes presenciar as piores atrocidades que o ser humano foi capaz naquele início de 1994. E, pelas lembranças que emergiram do trauma, ela foi capaz de conhecer o destino de alguns dos seus familiares mortos – que ela divide, provavelmente não por completo, com o leitor.

Eu não quis fazer de meus livros obras sobre o horror. Sempre me recusei a detalhar as atrocidades sádicas cometidas pelos genocidas em suas vítimas. Por pudor e respeito às pobres moças e crianças que sofreram os suplícios mais abomináveis”, explica. “E mesmo em Baratas, o mais sombrio, o humor não está ausente. No gueto de Nyamata também conheci dias felizes durante minha infância. E eles devem ser preciosamente preservados”, completa.

Havia poucas opções de profissão para uma menina de 15 anos naquele final de anos 1960 em Ruanda. Ela escolheu a de assistente social. Até quis voltar para ajudar os exilados de Nyamata, mas não pôde. Fez isso no Burundi, no Djibuti e na França. “Creio que este belo ofício que exerço todos os dias é necessário para meu equilíbrio. Desejo permanecer o mais próximo possível das misérias do mundo e tento, com meus parcos meios, apaziguá-las.”

Maria Fernanda Rodrigues Jornalista. Matéria publicada no Caderno de Cultura do jornal O Estado de São Paulo em 30 de junho de 2018, e reproduzida no Portal Geledés. Matéria sugerida por Iêda Leal de Souza, Educadora, Coordenadora Nacional do Movimento Negro Unificado MNU.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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