A PEQUENA SILENCIOSA

A PEQUENA SILENCIOSA

Ela não está no centro da cidade, mas à beira da curva da costa onde o Mar Báltico se debruça como quem sussurra promessas e não as cumpre…

Por Antenor Pinheiro, especial de Langelinie, Copenhague, Dinamarca

A Pequena Sereia, feita de bronze, parece sal, névoa e memória, e guarda um lugar que não é dela. Veio do mar, mas não pertence mais a ele. Veio por amor, mas não foi correspondida, e hoje permanece como símbolo, a saudade daquilo que se perdeu ao tentar ser outra coisa.

Copenhague a rodeia com sua delicadeza nórdica: canais silenciosos, o tremor suave das bicicletas, os telhados que mudam de cor com o céu. Mas ela olha para longe, não para o visitante que a vislumbra ou o navio que singra as águas do porto da cidade. Olha para o azul que engana, para o horizonte onde ninguém a espera.

É uma estátua feita de geografia: rocha, água, vento, exílio. Um corpo entre continentes, entre o que era e o que quis ser. E ali, no ponto em que terra e mar negociam o silêncio, ela repousa. Alguns a acham pequena demais, outros a julgam triste, feito a dor sobrevivente dos países frios: sutil, firme, lírica.

A sereia é mapa de uma ausência porque não canta mais. É o eco daquilo que perdeu e que ainda ressoa entre as gaivotas, e na maré que nunca para de voltar junto dos passos humanos lentos que dela se aproximam.

A PEQUENA SILENCIOSAAntenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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