A RIQUEZA COMO TEMPO DO BEM-VIVER

A riqueza como tempo do bem viver

Da acumulação material de Aristóteles e Marx às capacidades humanas de Sen, a riqueza culmina em um novo paradigma: o tempo livre e qualificado

Por Marcio Pochmann

Ao longo da história, a noção de riqueza nunca foi estática. Ela se transformou conforme as mudanças sociais, tecnológicas, políticas e institucionais. O que começou como sinônimo de abundância material e acúmulo de metais preciosos para incorporar o trabalho, a produção, o capital, as instituições e, mais recentemente, as capacidades humanas e os indicadores multidimensionais de bem-estar.

No debate contemporâneo, diante da transição para a Era digital, abre-se a possibilidade de uma inflexão decisiva. Cresce, em âmbito internacional, o entendimento de que a verdadeira riqueza de uma sociedade não pode mais ser reduzida a renda, patrimônio ou Produto Interno Bruto.

Ela se expressa, sobretudo, na capacidade real das pessoas de viverem bem: com dignidade, autonomia, segurança e oportunidades. Em outras palavras, riqueza passa a significar tempo de bem viver – tempo disponível para a convivência, o cuidado, a cultura, o aprendizado, a participação cidadã e a fruição da vida.
A evolução histórica do conceito de riqueza – A definição de riqueza sempre refletiu as concepções dominantes de cada época. Na Antiguidade, especialmente em Aristóteles, a riqueza não era um fim em si mesma, mas um meio para o florescimento humano. Em Política, o filósofo distingue a aquisição natural, voltada à vida boa, da acumulação ilimitada – a crematística – considerada artificial e socialmente destrutiva. Desde então, instaurou-se uma tensão fundamental entre quantidade e qualidade, que retorna com força no debate atual.
Na Idade Média, a tradição escolástica, representada por Tomás de Aquino, reforçou os limites morais da riqueza, subordinando os bens materiais à vida comunitária e à realização espiritual. A riqueza permanecia como meio, jamais como finalidade última.
Essa concepção se altera profundamente entre os séculos XVI e XVIII, com o mercantilismo e a fisiocracia. A riqueza passa a ser vista como estoque acumulável – especialmente de metais preciosos – e associada ao poder dos Estados nacionais. Enquanto o mercantilismo vinculou riqueza à balança comercial, à expansão colonial e ao controle estatal, os fisiocratas deslocaram o foco para a produção agrícola, identificando nela a origem do excedente econômico.
A economia política clássica rompeu com a ideia de riqueza como mero estoque. Adam Smith redefiniu a riqueza como o produto anual do trabalho de uma nação, destacando a divisão do trabalho e a produtividade como elementos centrais. David Ricardo aprofundou essa abordagem ao associar riqueza à produção de bens úteis, condicionada pela tecnologia e pela distribuição entre salários, lucros e rendas.

A virada neoclássica redefiniu a riqueza como utilidade individual, reduzindo-a a variáveis de mercado e desconsiderando desigualdades, tempo social e valores não monetários. Ao mesmo tempo, ampliou-se o conceito para incluir ativos físicos e financeiros capazes de gerar fluxos de renda ao longo do tempo.
John Maynard Keynes rompeu parcialmente com essa visão ao introduzir as dimensões psicológicas, institucionais e políticas da riqueza. Em um mundo marcado pela incerteza, a riqueza passa a depender de expectativas, confiança e da ação do Estado na coordenação do investimento e do emprego.
Nas últimas décadas, novas abordagens ganharam destaque. Amartya Sen redefiniu a riqueza como o conjunto das capacidades humanas para realizar funcionamentos valiosos, deslocando o foco da renda para a liberdade substantiva. Instituições internacionais e autores como Thomas Piketty passaram a tratar a riqueza de forma mais ampla, incorporando patrimônio, sustentabilidade e bem-estar, além de evidenciar sua concentração crescente.

Na Era digital, a aceleração do tempo, a sobrecarga informacional e a intensificação do trabalho tornam evidente que riqueza não é apenas acesso a bens e renda. Ela se manifesta, cada vez mais, na possibilidade de dispor de tempo para viver com qualidade, cuidar, participar da vida coletiva e usufruir da natureza – tempo não capturado pela lógica mercantil.
Assim, a riqueza passa a ser definida como qualidade quantitativa do tempo vivido. O tempo do trabalho vendido cede lugar ao tempo da vida compartilhada. O tempo do bem viver emerge como o novo eixo estruturante da riqueza, articulando liberdade temporal, autonomia, sustentabilidade e qualidade de vida. Trata-se de uma inflexão conceitual profunda, com implicações teóricas, éticas e estatísticas para o século XXI.
O desafio brasileiro e o papel do IBGE – Essa concepção ampliada de riqueza oferece ao Brasil uma oportunidade histórica de redefinir seu projeto nacional de desenvolvimento. Nesse processo, o IBGE ocupa posição estratégica, cabendo à instituição produzir, integrar e difundir informações estatísticas e geocientíficas de múltiplas fontes, capazes de revelar não apenas quanto o país produz, mas como sua população vive – e como pode viver melhor.
Para o IBGE, responsável por garantir transparência pública e orientar a ação do Estado, o desafio vai além da mensuração da produção econômica. É necessário medir as condições concretas da vida como a distribuição do tempo, o acesso ao território, as oportunidades, as desigualdades estruturais e os obstáculos que impedem indivíduos e comunidades de alcançar o bem viver.
A implantação do Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (SINGED) e do Plano Geral de Informações Estatísticas e Geográficas (PGIEG), em curso, integra esse processo de modernização institucional. Ao reposicionar o IBGE como protagonista, o Brasil avança na construção de um projeto que articula democracia, justiça social, sustentabilidade ambiental e soberania informacional.
A riqueza brasileira do século XXI dependerá, acima de tudo, da capacidade de garantir às pessoas tempo para viver com dignidade. E essa garantia exige um Sistema Estatístico e Geográfico mais robusto, confiável e orientado ao bem público.
*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor, entre outros livros, de Novos horizontes do Brasil na quarta transformação estrutural (Editora da Unicamp) [https://amzn.to/46jSkQk]
Referências
AQUINO, T. Suma teológica. São Paulo: Loyola, 2001.
ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
KEYNES, J. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1985.
MARSHALL, A. Princípios de economia. São Paulo: Abril Cultural, 1985.
MARX, K. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.
OCDE. How’s Life? Measuring Well-Being. Paris: OECD Publishing, 2020.
ONU. The Inclusive Wealth Report. New York: UN, 2022.
PIKETTY, T. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
QUESNAY, F. Tableau Économique. Paris: INED, 2005.
RAMIREZ, R. La vida y el tiempo. Buenos Aires: CLACSO, 2022.
SEN, A. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
WALRAS, L. Elementos de economia política pura. São Paulo: Nova Cultural, 1986.
bem viver Paulo H. Carvalho Agencia Brasilia
Foto: P.H. Carvalho/Agência Brasília 

Do a terra é redonda

Via Brasil 247

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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