Pesquisar
Close this search box.

O Aluá

Por: Rachel de Queiroz

O aluá é uma bebida sertaneja, que eu imaginava de origem indígena, mas aprendi no Aurélio ser originária da África. Aliás, bastava pensar um pouco e não sair para conclusões xenófobas, pois o aluá leva especiarias que, evidentemente, os índios não conheciam.

Antes que aparecessem os refrigerantes, o aluá era bebida indispensável em todas as festas do sertão (além da cachaça, é claro). Mas no NÃO ME DEIXES, o aluá continua a ser feito, em ocasiões festivas ou não.

Enche-se com água, de preferência água de chuva, um grande pote de barro. Nessa água põe-se de um a dois quilos de milho em grão torrado (não muito torrado, apenas tostado) e algumas rapaduras em pedaços.

Quando a rapadura estiver desmanchada, põe-se então os temperos: cravo, canela, erva-doce e gengibre. De vez em quando dá-se uma mexida com colher de pau, para derreter de vez a rapadura e incorporar os temperos ao líquido.

No dia seguinte, com o milho já fragmentado, o aluá ainda está meio sem graça, mas já com o seu gosto característico. No terceiro dia de fermentação ele estará picante e ligeiramente alcoólico.
Vai-se, então, tirando do pote a quantidade a ser servida, côa-se em pano novo e bem lavado, tudo sempre com muito cuidado, pois senão o aluá corre o perigo de “babar”, isto é, engrossar, perder a consistência puramente líquida e ficar meloso como uma calda, e aí não presta mais.

Se isso não acontecer, o aluá estará perfeito, e quanto mais tempo ficar no pote (um ou dois dias), maior teor alcoólico ele vai adquirir. Não preciso dizer que nesse ponto é que o aluá é mais apreciado. (Há também quem use pão dormido ou arroz para obter a fermentação. Quanto a mim e a todos lá de casa, sempre preferimos a aluá de milho).

Rachel de Queiroz, em “O Não me Deixes” – livro da escritora sobre os usos e costumes na fazenda de sua  família no Ceará.

ANOTE:  Este site é mantido com a venda de nossas camisetas. É também com a venda de camisetas que apoiamos a luta de movimentos sociais Brasil afora. Ao comprar uma delas, você fortalece um veículo de comunicação independente, você investe na Resistência. Visite nossa Loja Solidária: http://xapuri.info/loja-solidaria. Em Brasília, encomendas com Janaina: 61 9 9611 6826.

Camiseta Lampião: http://xapuri.info/produto/camiseta-virgulino-lampiao/

Posts redes loja Lampião

 

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Parcerias

Ads2_parceiros_CNTE
Ads2_parceiros_Bancários
Ads2_parceiros_Sertão_Cerratense
Ads2_parceiros_Brasil_Popular
Ads2_parceiros_Entorno_Sul
Ads2_parceiros_Sinpro
Ads2_parceiros_Fenae
Ads2_parceiros_Inst.Altair
Ads2_parceiros_Fetec
previous arrowprevious arrow
next arrownext arrow

REVISTA

REVISTA 115
REVISTA 114
REVISTA 113
REVISTA 112
REVISTA 111
REVISTA 110
REVISTA 109
previous arrowprevious arrow
next arrownext arrow

CONTATO

logo xapuri

posts recentes