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Alzira Rufino: “Se poder é bom, mullher negra quer poder”

Alzira Rufino: “Se poder é bom, mullher negra quer poder”

“Se poder é bom, mullher negra quer poder” – Alzira Rufino nasceu em Santos, litoral de São Paulo, em 6 de julho, o mês das farturas do milho, e parece que foi ainda estes dias, mas o ano era 1949. Nasceu em casa de família pobre, trabalhadeira e digna.

Por Iêda Vilas-Bôas

Desde pequenina a menina negra de olhos bem vivos já ajudava nos afazeres da casa. Aos dezessete anos, foi admitida em um hospital como auxiliar de cozinha.

Ficou na função por dois anos, período em que ganhou seu primeiro prêmio literário; o que ali viu e viveu fez com que a moçoila aguçasse ainda mais as causas sociais latentes sem seu peito. Aos dezenove anos, iniciou os estudos na área da saúde. Dedicando-se seriamente, galgou os diferentes níveis de sua área de atuação, até graduar-se em enfermagem. Desceu e subiu muitas montanhas, galgou com afinco seu espaço e hoje é uma ativista política atuante no Movimento Negro e no Movimento de Mulheres Negras.

Em ato muito corajoso e proativo, em março de 1985 organizou a primeira Semana da Mulher da região da Baixada Santista, reunindo todas as organizações de mulheres. O primeiro passo fora dado, agora Alzira Rufino precisava seguir em frente e, em 1986, fundou o Coletivo de Mulheres Negras da Baixada Santista, um dos mais antigos grupos de mulheres negras do Brasil.

Em voo mais ousado, em 1990, fundou a Casa de Cultura da Mulher Negra (CCMN). Resgatando sua ancestralidade, Alzira se tornou Iyalorixá (mãe dos segredos dos Orixás); pela sua sensibilidade latente, tornou-se poeta e Presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra, desde 1991.

Alzira Rufino deveria ser chamada de Alzira Furacão, pois não se permite descansar. Para ela, o seu ativismo negro é a força motriz que a mantém liderando seu povo negro e os simpatizantes da causa fazendo, nestes tristes tempos, um contrabalanço contra o preconceito e o fascismo que faz rasantes sombrios sobre nossas cabeças enfeitadas com dreads coloridos, com black tie, crespos naturais ou até os cachos ondulados. Somos todos e todas alvos.

Alzira, em seu ativismo, tornou-se farol e guia do ativismo negro. Desde 1991 é Fellow da Ashoka, tendo coordenado a Rede Feminista Latino-Americana e do Caribe contra a Violência Doméstica, Sexual e Racial, na sub-região Brasil (de 1995 a 1998). Ela é expoente contra o racismo e em favor da autoestima e valorização do fenótipo do povo preto, da valorização de religiões afro-brasileiras, da etnia, e fiel à constante luta até que esteja extinta toda e qualquer forma de opressão, discriminação e preconceito contra o povo preto.

A Casa de Cultura da Mulher Negra – CCMN, presidida por Alzira, foi a primeira ONG brasileira a ser credenciada pela OEA (OAS), em 2001. Tem publicado inúmeros artigos em jornais e revistas nacionais e do exterior. Ganhou diversos prêmios de poesia em nível local e nacional e tem publicações de poesia, ficção e ensaios.

Alzira atua e trabalha com diversos temas: Violência Doméstica e Racial; Direitos Humanos das Mulheres Negras; Educação Antirracista; Comunicação e Cultura Afro-Brasileira, tendo sido a primeira mulher negra a criar um serviço de apoio jurídico e psicológico às mulheres negras e brancas sobreviventes da violência doméstica.

Desde 2001, edita a Revista EPARREI de Arte e Cultura Negra, e o Boletim EPARREI Online, espaço para seu culto sagrado e notícias de sua nação religiosa. Importante é sua contribuição na publicação de livros sobre violência doméstica e saúde: “Violência contra a Mulher – uma questão de Saúde Pública” (1998); “Violência contra a mulher – um novo olhar” (2000 e edições); “Violência contra a Mulher Saúde – Um olhar da Mulher Negra” (2004).

Alzira é responsável pela criação de diversas leis e serviços: criação da Casa-abrigo de Santos (2000), leis contra o racismo e a violência contra a mulher na Baixada Santista; Criação da Lei Federal da Notificação Compulsória da Violência Doméstica pelos Serviços de Saúde Públicos e Privados (2003).

A atuação consciente e consequente de Alzira Rufino inspirou ou influenciou trabalhos similares em cidades como Três Corações/MG, Goiânia/GO, São Sebastião/SP, São José dos Campos/SP, Duque de Caxias/RJ, com foco no resgate cultural, na criação de serviço jurídico e psicológico e na geração de renda para mulheres em situação de risco.

Foi a primeira escritora negra a ter seu depoimento gravado no Museu de Literatura, recebeu diversos prêmios, deu conferências em vários países como Canadá, Holanda, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Índia, Chile e Senegal.

Foi homenageada em 1991 como Mulher do Ano 1990, no Rio de Janeiro,

pelo Conselho Nacional da Mulher Brasileira e, em 1992, pela Câmara Municipal de Santos e Câmara Municipal do Cubatão. Em 1992, recebeu o título de “Cidadã Emérita” da Câmara Municipal de Santos, sendo a primeira mulher negra a receber essa homenagem na região.

Foi escolhida, em 1995, como uma das coordenadoras da subsede brasileira da Rede Feminista Latinoamericana y del Caribe contra la Violência Domestica y Sexual; Coordenou de 1995 a 2012 a Campanha “Violência contra a Mulher, uma questão de Saúde Pública”. Foi, em 2003, tema de tese de doutorado de Dawn Duke, do Department of Hispanic Languages and Literatures, University of Pittsburgh, USA. Em março de 2004, recebeu homenagem do Clube Soroptimista Internacional de Santos como Mulher Destaque. O nome Soroptimist significa “O melhor para as Mulheres”, ou seja, mulheres em seu melhor desempenho a fim de ajudar outras mulheres. Ela é uma das 52 mulheres negras brasileiras do Mil Mulheres para o Nobel da Paz.

Em 2005, recebeu da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo o Prêmio Zumbi dos Palmares; recebeu também o Troféu ANID – Ação Negra de Integração e Desenvolvimento. Em 2006, conquistou o Troféu Consciência Negra. Em 2007, o Diploma expedido pela Câmara dos Deputados em nível federal. Em 2007/2008, recebeu Diploma da Assembleia Legislativa de São Paulo, pelo trabalho desempenhado em prol das mulheres negras.

Em 2008, recebeu também Diploma como Embaixadora Cultural. Em 2009, o Prêmio Festa-Artistas do Teatro Amador de Santos. Em 2010, é premiada pela África no Brasil-Centro Cultural Africano. Em 2011, foi premiada pela OAB e pela Comissão da Mulher Santista.

Em 2012, foi homenageada com a Medalha Ruth Cardoso pelo Governo do Estado de São Paulo e recebeu o Prêmio Consciência Negra – Conselho da Comunidade Negra de Santos. Em 2013 foi reconhecida como a Mulher do Ano – Rede de Mulheres Africanas – Comunidade de Manguene. Ao todo recebeu 108 diplomas e 96 placas de prata vindas de organizações da sociedade civil, de empresas privadas e de governos municipais, estaduais e federal.

Nos dias de hoje, do alto de seus 71 gloriosos anos, ela continua na luta e se auto intitula “batalhadora incansável pelos direitos da mulher, sobretudo da mulher negra.”.

Para a grande Alzira Rufino deixo meu:

Ò dàbo! (até breve), minha gratidão, e também o meu salve!


Salve! Pra você que chegou até aqui, nossa gratidão! Agradecemos especialmente porque sua parceria fortalece  este nosso veículo de comunicação independente, dedicado a garantir um espaço de Resistência pra quem não tem  vez nem voz neste nosso injusto mundo de diferenças e desigualdades. Você pode apoiar nosso trabalho comprando um produto na nossa Loja Xapuri  ou fazendo uma doação de qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Contamos com você! P.S. Segue nosso WhatsApp: 61 9 99611193, caso você queira falar conosco a qualquer hora, a qualquer dia. GRATIDÃO!

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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