AMÍLCAR CABRAL: EM DEFFESA DA TERRA

Em defesa da terra – A problemática da erosão do solo em Amílcar Cabral  

Cabral foi exímio no estudo e entendimento das premissas ecológicas do justo equilíbrio entre a exploração da terra e a sua conservação: a necessidade de uma exploração racional e científica da terra.

Por Yussef/Esquerda.net

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Amílcar Cabral. Fotografia de Wikicommons.

O tema da erosão do solo foi uma constante na vida de Amílcar Cabral. Primeiramente na sua vivência no arquipélago de Cabo Verde – corpo que se recusa a morrer(1) –, posteriormente na sua formação académica em Portugal no Instituto Superior de Agronomia e, finalmente, na sua actividade profissional enquanto engenheiro agrónomo e investigador em várias geografias, entre as quais a Guiné-Bissau.

Na linha de Ário Lobo de Azevedo, que afirmara acreditar que a actividade como agrónomo marcou Cabral e lhe “mostrou caminhos”, acrescentaríamos que, as consequências da erosão do solo, moldaram humana e politicamente Amílcar Cabral de tal forma que chegou mesmo a colocar a problemática como “um dos problemas da humanidade, ainda que nem sempre devidamente evidenciado”.

Este posicionamento foi decalcado dos vários tipos de erosão objectos de estudo e reflexões científicas por parte de Amílcar Cabral. A saber: a erosão natural ou geológica (pg.,64), às erosões devido à seca e às chuvas, a erosão como consequência da actividade humana pela destruição de florestas, devido às queimadas e, com potencial impacto erosivo, aquela que deriva da mecanização da agricultura(pg.,239), “(…)pela aplicação de processos técnicos inadequados aos meio a explorar(pg.,64)”.

Amílcar Cabral, fazendo uso dos instrumentos da Pedologia – entendida esta como “o fulcro de toda a ciência do solo, porque estuda o fenómeno em si (pg.,88)”, embora não deva confundir-se com ela, como sublinha Cabral – vai para além da descrição do fenómeno da erosão.

A análise é descritiva, porém, radicalmente explicativa – pedagoga, simples e sintética – e proponente de soluções. Depois de nomear a consequência da erosão, sintetizou: “Desse complexo de consequências resulta um desequilíbrio geral na região erosionada. Diminuem as possibilidades de cultivo da terra e, portanto, de vida. A instabilidade do solo reflecte-se na riqueza hidrológica e vegetal da região. Quer dizer: a erosão não interessa apenas ao solo, mas também à hidrologia e à ecologia (pg.,106)”. 

Diríamos que, avant la lettre, Cabral foi exímio no estudo e entendimento das premissas ecológicas do justo equilíbrio entre a exploração da terra e a sua conservação: “A necessidade de uma exploração racional e científica da terra. Quer dizer: a necessidade de obter de cada solo o máximo permitido pela sua capacidade sem prejuízo da sua conservação”.

Em defesa da terra – a erosão – suas causas e efeitos

Os primeiros escritos de Amílcar Cabral sobre o tema da erosão do solo foram redigidos entre 1949 e 1952, entre Praia e Lisboa, já como finalista de Agronomia e, depois, já como engenheiro agrónomo. Foram divulgados no Boletim de Cabo Verde, exactamente com o título  “Em defesa da terra – a erosão (as) suas causas e efeitos I, II, III, IV e V”.

Estes escritos, fundamentalmente, visavam dar a conhecer ao “homem da rua” a urgência de conhecer a sua terra. Anos depois, com o espírito e a premissa de “conhecer a realidade que se pretende transformar”, Cabral, no seio do PAIGC, iria organizar a luta política, económica, cultural e armada na Guiné-Bissau.

No primeiro dos artigos – que perfazem um todo coerente – escrito em Setembro de 1949 aquando das férias universitárias na cidade da Praia, define o conceito de erosão: “define-se como erosão, do ponto de vista geológico, o desgaste das rochas pela acção de agentes naturais, tais como as águas das chuvas, das correntes e do mar, o vento, etc.,.

Do ponto de vista agrícola, erosão, simplesmente, ou erosão do solo, é o desgaste ou a destruição do solo agrícola (interessando fundamentalmente a camada arável) por agentes variados, tais como a acção do homem, a água das chuvas e o vento (pg., 63)”. 

Elenca as suas consequências: “a modificação da estrutura do solo, o que traz como resultado uma menor ou nula possibilidade de retenção da água e a facilidade do arrastamento dos materiais que o constituem; diminuição ou anulamento da produtividade da terra; uma menor possibilidade de infiltração das águas alimentadoras das fontes e dos poços, que diminuem de caudal ou secam; perda de terra cultivável pela formação de ravinas; finalmente, como resultante das consequências citadas, sobrevém ou aumenta a aridez do meio (pg., 64)”.

E, contra um certo fatalismo, propõe medidas possíveis que ele define como “Soluções para o mal”:

– “Nas regiões semiáridas, como presentemente Cabo Verde, a primeira medida é o aproveitamento e a utilização, com o mínimo de perda possível, da água das chuvas, com o intuito de diminuir a velocidade do movimento da água das chuvas, para diminuir o desgaste das terras, bem como a retenção, na medida do possível, das mesmas águas com vista a aumentar a disponibilidade da água;

– A construção de terrenos para cultura do tipo moderado (bench terrace), de diques nos cursos de água, de albufeiras, de represas e de cisternas bem como de socalcos nas encostas declivosas;

– A rearborização das espécies que melhor se adaptem ao meio; A racionalização da agricultura, com estabelecimento de um sistema de cultura adaptada ao meio; O estudo, no sentido da sua adaptação, das culturas de contorno (contour cultivation); bem como a cultura em faixas(pg.,66)”.

Nos artigos II (ainda na cidade da Praia) e III (já em Lisboa) reitera medidas, tais como o aproveitamento e a utilização da água das chuvas, a imperatividade da rearborização, bem como discorre sobre o papel da vegetação na defesa do solo dando vários exemplos, entre os quais, a diminuição da velocidade de escoamento das águas pluviais à intensificação das actividades biológicas no solo.

No artigo IV, escrito em Lisboa, nos ombros de Pierre Cazenave e o seu “Les Hommes et leur nourriture”, é apresentado o papel humano nesta trama de “devastação da terra”. A conclusão é límpida: “Vemos pois que, se é o homem (indivíduo) o primeiro responsável pela destruição da vegetação e do solo, é também o homem (coletivo) quem pode defender aqueles valores inestimáveis (pg., 79)”.

Por último, no artigo V, de 1952, escrito na Praia em trânsito para Bissau, e perante as consequências múltiplas das cheias na cidade da Praia, debruça-se sobre a destruição do solo, fruto dessa erosão pluvial. E, perante esta, indica o caminho da investigação no sentido de se saber que melhor vegetação se adapta “ao novo meio (clima e solo): “Assim, o que importa é averiguar quais as espécies que, nas condições actuais do solo e clima cabo-verdianos, melhor defenderão a terra (pg.,178)”. E, para Cabral, defender a terra é sinónimo de defender o bem colectivo.

E sintetiza: “Esse equilíbrio entre o homem e a terra só pode ser obtido pela solução de muitos problemas: regime de propriedade (quem possui a terra e quem a trabalha); formas de exploração da terra (como se distribuem as despesas e ganhos resultantes do cultivo do solo); sistemas culturais e práticas de cultivo (quais as plantas que se devem cultivar e a melhor maneira de cultivá-las), etc.,.

Uma quantidade de problemas. Uns , chamados técnicos, isto é, que os estudiosos das coisas de agricultura tem a obrigação de resolver; outros, de carácter económico social, isto é, que não interessam apenas à agricultura, mas a toda a colectividade, achando-se ligados à forma como se obtêm e se repartem as riquezas ou os bens dentro dessa colectividade (pg., 179)”.

A temática da erosão dos solos tornou-se de tal forma cara a Cabral que escolhe esta temática como tese de final de curso intitulada O problema da erosão do solo – contribuição para o seu estudo na regiao de Cuba(Alentejo). Parte da dedicatória evidencia, sem beliscar o rigor científico, o seu partido na luta de classes: “Aos jornaleiros do Alentejo – trabalhadores da terra dos latifúndios, homens de vida incerta que a erosão ameaça (pg.,83)”.

Capítulo 1 –  sobre o conceito de solo

No âmbito deste capítulo inicial, distingue ramos da Ciência do solo: a Pedologia da Conservação. Esta última, “estuda a relação homem-solo, e o seu objectivo é o conhecimento dos processos mais adequados de utilização da terra, sem que esta seja destruída(pg.,88)”. E, depois de afirmar “O solo conserva o homem”, indaga-se: ” Pode o homem conservá-lo?”.

Exalta o que deve ser a Pedologia: “(…)qualquer actividade científica que não tenha como objectivo, próximo ou remoto, servir o homem, não tem razão de ser.  A Pedologia, pela natureza dos fenómenos que a preocupam, é das ciências que mais imediatamente devem estar ao serviço do homem(…). Ao pedologista compete estudar o solo tal como se encontra e, analogamente ao que faz para com os outros factores, interpretar e prever as consequências da actividade do homem no seu desenvolvimento(pg.,93)”.

Empreende o trabalho de realização de uma radiografia do conceito de solo – esse “corpo natural, independente, histórico e dinâmico (pg.,208)” – desde a sua génese, passando pelas etapas do seu desenvolvimento até à sua classificação. “Os principais agentes do desenvolvimento do solo são, pois: o material a partir do qual se desenvolve, o clima e a actividade dos seres vivos”.

Sobre as suas etapas de desenvolvimento sublinha: “a numeração das etapas não significa que elas se sucedem, necessariamente, no tempo. Duas ou mais etapas podem estar em realização simultaneamente. O que não poderá verificar-se é a inversão da sua ordem”.

Evidencia-se já aqui o materialismo dialético de Cabral em todas estas passagens:

“Génese de um ser qualquer é a formação ou o desenvolvimento desse ser a partir de uma origem. Isso implica a anterior existência de um ser (nada se cria) donde provém outro (nada se perde) por meio de uma transformação (tudo se transforma)(pg.,90)”.

(…)Mas o aparecimento dessas novas formas (transformação qualitativa) da matéria – a rocha que se desagrega, um mineral que se hidrata, um hidróxido que se liberta – não é contingente, mas necessário. Isto é: verificadas determinadas condições, elas têm de surgir.

O que possibilita o seu aparecimento são as alterações na quantidade dos diversos factores em acção ; por exemplo: variações  de temperatura e de humidade, quantitativo das substâncias químicas em reacção, aumento ou diminuição da actividade dos seres vivos (inclusive o homem),etc.,.Quer dizer: são as  transformações quantitativas que conduzem às qualitativas(pg.,95)”.

E o que caracteriza essas transformações quantitativas? Cabral afirma: “(…)é que se operam gradual e insensivelmente. Pelo contrário, as qualitativas realizam-se rápida e bruscamente(…). Da rocha ao solo em evolução há como que um movimento, do inferior ao superior, do simples ao complexo. Movimento em que os percursos não se repetem(…). Para que um solo passe de um estádio a outro de desenvolvimento e indispensável a realização de um somatório de transformações. Ao conjunto destas transformações poderá designar se uma etapa do desenvolvimento do solo (pg.,95)”.

O materialismo dialético de Amílcar Cabral em 1952, para explicar a génese e transformação da rocha em solo e os efeitos erosivos neste último, aplicar-se-á, volvidos 14 anos, na Tricontinental de 1966 em Havana, para a explicação da evolução das sociedades com o materialismo histórico.

Capítulo 2 – sobre o conceito de erosão do solo

No capítulo 2 da sua tese,  diferencia os tipos de erosão do solo: erosão normal ou natural, erosão pluvial – entre as quais a erosão laminar e como consequência desta a erosão por ravinas –, erosão eólica – sendo esta um elemento erosivo pois capaz de desagregar e transportar os materiais do solo – e a erosão que resulta da actividade humana.

Diferencia a erosão normal da erosão acelerada, sendo esta aquela que resulta da “quebra do equilíbrio solo-vida-clima e se realiza tumultuosamente, que perturba os processos de desenvolvimento do solo e na qual as perdas aumentam com o tempo (pg.,102)”.

Finalmente destrinça os factores climáticos que interferem na erosão, nomeadamente a temperatura, o vento e a chuva(pgs., 109 e 110) e esboça uma função com variáveis para explicar a erosão – Erosão = F(c,r,v,s,h) onde o clima é (c), a topografia é (r), a vegetação é (v), as características do solo é (s) e a prática do cultivo é (h).

E, entre outras conclusões, avança: “A sua complexidade reside no facto de conter em si 2 aspectos: i) um de carácter sócio-económico, referente às relações do homem com a terra; ii) outro, de carácter técnico, respeitante ao conhecimento dos processos mais adequados, de conservação do solo, sem prejuízo da sua exploração (pg.,117)”.

Capítulo 3 – A região estudada. Os agentes da erosão – O Homem

Com a minúcia de análise, empreende uma espécie de Sociologia rural na região de Cuba, no Alentejo, que lhe leva a identificar os factores que afectam o solo através de uma carta dos solos – classificada consoante a sua capacidade de exploração –, também mediante a elaboração de uma carta de erosão e outra de conservação, bem como empreende à análise do tipo de regime de propriedade e as práticas de cultivo (pgs.,122 e 123).

Assim, a capacidade analítica holística do cientista agrónomo casa com a crítica política à estrutura sócio-económica, afirmando que as formas de propriedade e exploração da terra favorecem o espírito de lucro com o mínimo de despesas e afastam toda a preocupação de defender o solo.

Acrescenta: “Como geralmente, a influência do factor homem, como agente de erosão, desenvolve-se através de dois aspectos: i) acção da sociedade, por imperativo da estrutura sócio-económica em que assenta; ii) acção do indivíduo, por meio de práticas de cultivo que favorecem a destruição do solo (pg.,125)”.

E a tendência à polarização social constatada em 1933 pelo prof., Henrique de Barros é retomada por Cabral, porque confirmada in loco, anos depois: “As ferragiais e seareiros contra os latifúndios. A propriedade tende para a concentração mais do que para a divisão. Dia a dia cresce o abismo que separa os 2 pólos da estrutura social alentejana: o jornaleiro e o latifundiário(pg.,120)”.

Da análise histórica do Alentejo, desde a época romana até à sua época, à guisa de Marx e Engels no Manifesto comunista (2), analogamente Cabral chega à conclusão: “Hoje, ao patrício, donatário ou ordem religiosa corresponde o latifundiário; ao plebeu ou servo corresponde o jornaleiro(pg.,121)”.

E concretiza: “Desse complexo de circunstâncias não resulta apenas a destruição do solo. O aspeto social do panorama agrário é sua consequência directa. As contradições em que vive o jornaleiro, cuja vida depende unicamente do trabalho que lhe é facultado durante o ano; a crónica crise do desemprego rural; o progressivo desaparecimento dos ferragiais, com o consequente empobrecimento dos pequenos proprietários; o baixo nível de vida, característico do Alentejo; um abismo cada vez mais acentuado entre os dois polos da estrutura sócio económica alentejana: o latifundiário (ou o lavrador) e o jornaleiro”. 

Da concatenação entre o problema agrário e a destruição do solo estabelece: “Existe, pois, um problema agrário alentejano, do qual depende e no qual se integra o da destruição do solo. Essa destruição, por acção recíproca, influencia aquele problema, dificultando-lhe a solução à medida que progride(pg.,122)”.

E terminava alertando que, caso não houvesse modificação da estrutura sócio-económica e das práticas de cultivo, poder-se-ia confirmar, hélas, o que o historiador romano Plínio, o Velho, afirmara alguns séculos antes: “os latifúndios perderam o Alentejo(pg., 125)”.

Capítulo 4 – Para a defesa da terra

Neste capítulo, Para a defesa da terra, está implícita a indagação “O que fazer?”. Um aspecto que Amílcar Cabral ressalta é a questão da planificação económica regional integrada no âmbito nacional: “A defesa da terra tem de basear-se no estudo de diversos factores, não só influentes na erosão, como também relativos à sócio economia da região a defender. Tal estudo tem de ir mais longe: deve transcender a escala regional para se integrar numa planificação nacional da conservação do solo”.

(…)Mas a defesa da terra numa dada região pode exigir uma profunda alteração das características gerais da agricultura e, consequentemente, da sua economia. Dificilmente essa alteração não terá reflexos na economia de outras regiões, interessando, portanto, a estrutura económica do País. Daí a necessidade de, com vista à defesa da terra, estudar e coordenar as determinantes económicas, não só em relação a uma dada região, mas também ao conjunto geográfico que constitui o país (pgs., 151 e 152).

Após basear-se nos dados estatísticos de 1940 para o distrito de Beja – que englobava a região de Cuba – que apontavam que 76% da população que trabalhava a terra não sabia ler, relevava que a questão da defesa do solo deveria ir para além da alfabetização: “Mas não basta saber ler para compreender a utilidade da defesa do solo”.

Afirma, mais uma vez avant la lettre e na veste de precursor, que cada indivíduo deveria assimilar a ideia de que “o solo é um bem que não pertence a nenhuma geração, mas a todas as gerações”. Continua: “O uso da terra será tanto mais racional quanto maior for o número de indivíduos por ele beneficiados”. E foca uma espécie de responsabilidade transgeracional: “cada geração, ao explorar a terra, deve procurar melhorá-la, a fim de que sirva as necessidades, sempre crescentes, das gerações futuras”.

E retoma aquilo que para Cabral seria o busílis da questão: “No regime de propriedade está localizado o nó górdio do problema agrário alentejano”. Remete tanto a má utilização da terra como a devastação do solo para aquela. Com efeito, o corolário: “a consecução de um conveniente uso da terra, bem como da defesa do solo – objectivos  inadiáveis –, está indissoluvelmente dependente do regime de propriedade(pgs.,154 e 155)”.

Amílcar Cabral na Guiné-Bissau

A 21 de Setembro de 1952, Amílcar Cabral chega a Bissau com o estatuto de “engenheiro agrónomo de 2a classe” na Repartição dos Serviços Agrícolas e Florestais, assumindo o posto de Director do Posto Agrícola Experimental (pg.,181). Entre as várias tarefas que vai abraçar, com grande destaque para o Recenseamento Agrícola da Guiné, o tema da erosão do solo é uma delas.

Parte do seu relatório final do curso de engenheiro agrónomo será recuperado e respaldado no documento “Para o conhecimento  do problema da erosão do solo na Guiné – o conceito da erosão do solo”, publicado no Boletim cultural da Guiné Portuguesa. Desta série, os documentos “Os factores da erosão na Guiné” e o “Estádio actual do problema da erosão na Guiné”, que seriam análises concretas da situação concreta da erosão do solo na Guiné-Bissau, não chegaram a ser publicados.

No entanto, no “A propósito da mecanização da agricultura na Guiné portuguesa” – documento de inestimável valor cujas reflexões de natureza técnica e sócio-económica, mutatis mutandis, são válidas hoje para a Guiné-Bissau – Amílcar Cabral reflecte, en passant, sobre a questão da erosão alertando para uma necessária análise prévia das terras que poderiam ser submetidas à mecanização no processo produtivo, “sem prejuízo da fertilidade e defesa do solo (pg.,239)”.

Neste mesmo trabalho desconstrói a equação mecanização sinónimo automático de aumento da produção unitária. Defende que aquela abre portas ao cultivo de áreas maiores, porém, alerta para os eventuais problemas que dela podem advir, entre os quais, no que tange “a conservação do solo” e “a restituição à terra dos materiais fertilizantes que lhe são retirados pelas plantas”.

Por fim, o mesmo Cabral, pontua um outro problema respeitante à força de trabalho que, mais uma vez, revela a centralidade do ser social no seu pensamento: “Na actual conjuntura económica, social e cultural da Guiné, em que actividade se ocupariam os milhares de indígenas que ficariam dispensados ou aliviados dos trabalhos agrícolas, pelo facto de se introduzir a cultura mecanizada(pg.,239)?”.

Em 1954, a investigação espelhada no trabalho denominado “Acerca da utilização da terra na África negra”, permitir-lhe-á, mais uma vez, tecer considerações, sobre a questão da erosão e da conservação dos solos. Da Guiné-Bissau à Tanzânia, passando pelo Uganda, descreve técnicas que permitiram a vários povos proteger os solos da erosão (pg.,245). Esta análise dos modos de prática agrícola leva o engenheiro agrónomo a identificar o sistema itinerante como o tipo hegemónico – embora não exclusivo da África negra mas, sim, comum nas regiões tropicais.

Identifica o que há de progressista com este modus faciendi agrícola mas, também, descortina o que nele contém de castrador no âmbito demográfico, para quem a pratica, com este dilema:”(…)ou aumenta as áreas cultivadas e o número de anos de cultivo, aumentando assim as probabilidades de destruição do solo (da destruição do homem, portanto), ou tem de limitar-se a uma alimentação incompatível com o desenvolvimento demográfico.

Além disso, o sistema itinerante exige uma grande instabilidade dos aglomerados populacionais. O homem não se fixa à terra. Ora a fixação, ao que parece, é condição essencial ao progresso de qualquer povo. A necessidade de deslocamento periódico por parte do agricultor itinerante, o fraco rendimento da agricultura e a inferior qualidade dos alimentos produzidos bastam para condenar o sistema. O homem passou a ser presa da sua própria criação. Mas pode sempre libertar-se(pg., 247)”.

Relembra o impacto que esse fenómeno totalitário – o colonialismo – teve na agricultura itinerante: o exacerbar desta com recurso à queimada e a consequente devastação da terra. A estas conclusões também chega no trabalho “Queimadas e pousios na circunscrição de Fulacunda em 1953”, identificando concretamente fenómenos como “a carência de solo cultivável, baixa de fertilidade, destruição pela erosão e lateralização(pg.,262)”. 

Portanto, entre outras necessidades, afirma que, para além de se assimilar o que de melhor a técnica de outros povos forjou a par com o que há de útil nas técnicas tradicionais africanas, é devir “A necessidade de estabelecer uma estrutura agrária que não permita a exploração desordenada e gananciosa da terra; que não permita a exploração, tout court, do homem pelo homem (pg.,249)”.

A erosão e a questão da estrutura económica

Sem embargo da noção da responsabilidade do indivíduo na problemática da erosão, Amílcar Cabral, perante as conclusões às quais chega, retira o ónus em cima daquele e, em justa medida, coloca-o na estrutura económica através do esboço de uma explicação materialista para o fenómeno:

“O individualismo dos tempos modernos manifesta-se incompatível com uma defesa efetiva da terra. A propaganda e alguns exemplos mostram-se insuficientes para resolver um problema cujas raízes mergulham na própria estrutura económica das sociedades(pg.,108)”. Ainda:“É preciso definir-se claramente o significado da afirmação de que o homem provoca a destruição do solo. Não significa que o homem destrói o solo.

Deve traduzir apenas este facto simples: ante a necessidade de obter o indispensável alimento e inconsciente das consequências da sua atitude (primariamente); ante a necessidade de obter do solo o máximo de riqueza (lucros) com um mínimo de tempo e de despesas – imperativo surto das próprias condições sócio-económicas em que se debate (posteriormente) – o homem derruba florestas, destrói prados, explora desordenadamente a terra e possibilita, inconscientemente, o desencadear dos fenómenos erosivos”.

Como tal, “(…) a causa, portanto, do desencadeamento desses fenómenos não reside propriamente na actividade do homem ser individual. É determinada pela estrutura económica da sociedade (pg.,109)”. 

E o que é a estrutura económica para Amílcar Cabral? “As forças produtivas, conjugadas com o modo de produção, de que aliás, são determinantes, constituem a estrutura económica de uma dada região(pg.,236)”.

Assim, vimos que, Amílcar Cabral, para uma explicação-síntese cabal das determinantes do fenómeno “erosão do solo”, colocou em permanente tensão categorias próprias da Pedologia e da Conservação do solo bem como do domínio político-económico. Com efeito, como lembrou o Prof., Catedrático Luís Soares Barreto, no pensamento cabralista “o Homem é Natureza (pg.,44)”. O método analítico que permitiu esta síntese foi claramente genético-evolutivo, crítico, materialista e dialéctico.

1)Lopes, José Vicente – Cabo Verde Um Corpo Que se Recusa A Morrer, Spleen Edições, Praia, 2021

2)Marx, Karl and Engels Friedrich – O Manifesto comunista, Fundação Friedrich Engels, 2001. p.10.

Cabral, Amílcar – Os Estudos agrários de Amílcar Cabral, Instituto de investigação Científica Tropical & Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, Lisboa, 1988.

AMILCAR CABRAL CHANGE.ORG

Amílcar Cabral – Foto: Change.org

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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