AS JAGUNÇADAS ONTEM E HOJE

Diante da aproximação dos posseiros, os jagunços fugiram mata adentro, abandonando armas e munições. Rifles, espingardas e revólveres foram recolhidos para entrega à Polícia Federal. Alguns foram alcançados e detidos. Outros, entre eles peões contratados em Manaus, apressaram-se em afirmar que não eram jagunços, mas trabalhadores pobres como os que os cercavam.
A tensão durou pouco. Por volta das 10h, o clima já era de calma. Os trabalhadores retornaram às áreas de broca, retomando o mutirão organizado para apoiar 36 famílias de posseiros impedidas havia meses de plantar e colher. O dia transcorreu em ambiente de solidariedade. As mulheres prepararam galinha com feijão e arroz. Qualquer casa estava aberta para o almoço — inclusive para os detidos, que depois foram liberados, exceto os que seguiriam para prestar depoimento.
Antes daquele domingo, todas as vias legais haviam sido tentadas. A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Boca do Acre encaminharam denúncias ao Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (Incra), ao governo do Amazonas e ao 4º Batalhão Especial de Fronteira, hoje o 4o BIS (Batalhão de Infantaria de Selva), do Exército.
Na Justiça, os posseiros haviam obtido vitória contra uma ação de despejo. Ainda assim, os jagunços ameaçavam: “Vocês ganharam na Justiça, mas vão perder na bala”.
A reação organizada dos trabalhadores foi decidida em agosto, durante reunião sindical. Tratava-se de uma ação amparada pela lei: as terras eram públicas, pertencentes à União, localizadas às margens de uma rodovia federal, a BR-317, e protegidas por legislação específica. Mesmo assim, a violência persistia.
Durante dois meses, jagunços saquearam ao menos 14 casas, levando animais, alimentos, dinheiro e utensílios. Relatos de posseiros e autoridades locais indicavam o uso de armas pesadas, inclusive metralhadoras, para intimidar famílias. As denúncias apontavam o envolvimento de grileiros, fazendeiros, políticos locais e agentes públicos.

O caso do quilômetro 38 expôs o padrão de ocupação violenta que transformou Boca do Acre, no sul do Amazonas, em território fértil para grilagem e pistolagem. Isolado do centro decisório do Estado, o município tornou-se refúgio de interesses econômicos do Centro-Sul, amparados por redes locais de poder.
Foi nesse contexto que surgiram os empates como estratégia de resistência. A ação coletiva, pacífica e massiva dos trabalhadores rompeu a lógica da violência armada e abriu um novo capítulo na luta pela terra na Amazônia. Lideranças como Wilson Pinheiro e Chico Mendes consolidariam, nos anos seguintes, esse método de enfrentamento direto ao desmatamento.
Passados quase 50 anos desde aquele “multirão contra a jagunçada”, o Sul do Amazonas continua um dos epicentros para a prática de crimes ambientais e fundiários na Amazônia. A região é marcada por intensos e violentos conflitos pela terra. A atuação de jagunços foi substituída pela de pistoleiros – com denúncias até de policiais militares do Acre e do Amazonas contratados como seguranças das grandes fazendas.
Denúncias de ameaças, torturas e assassinatos também persistem nesta tríplice divisa amazônica foramda pelos territórios do Amazonas, do Acre e de Rondônia, a chamada zona Amacro.
Para Elson Martins, o mutirão de 1979 foi um marco. “Ali ficou claro que, mesmo sob a ditadura, os trabalhadores organizados podiam enfrentar jagunços, grileiros e interesses econômicos poderosos”, recorda. A experiência também moldou o Varadouro como um jornal de movimento, coletivo, comprometido com a defesa do extrativismo, da cultura acreana e dos direitos humanos.
Décadas depois, Elson segue como uma das vozes mais autênticas da Amazônia na imprensa brasileira. “O mutirão contra a jagunçada mostrou que a floresta não estava vazia nem indefesa”, afirma. “Era habitada por gente disposta a lutar para continuar vivendo onde sempre viveu.”
Como o Varadouro tem demonstrado, o empate de Boca do Acre não encerrou os conflitos fundiários na região, apenas inaugurou uma forma de resistência que marcaria definitivamente a história social e política do Acre e da Amazônia brasileira.
Jornalista raiz
Elson Martins, aos 86 anos, pode dizer que é o mais autêntico representante da Amazônia no jornalismo nacional. Poucos profissionais podem reivindicar essa condição com tamanha legitimidade. Ele nasceu no coração do Acre profundo, no Seringal Nova Olinda, às margens barrentas da cabeceira do rio Iaco, quase parido em território Manchineri, entre Sena Madureira e Assis Brasil.
Era o último de uma prole de 14 filhos e trazia no sangue a história de um pai, Chico Martins, que primeiro empunhou armas ao lado de Plácido de Castro na Revolução Acreana e, depois, trocou o fuzil pelo terçado, tornando-se seringueiro e seringalista.
Elson faz questão de marcar distância entre sua origem e a caricatura dos antigos coronéis de barranco. O Nova Olinda, adquirido por seu pai Francisco e pelo tio Otávio, nunca foi palco de ostentação. “Eles nunca acenderam charutos com notas de um conto de réis”, lembra, ironizando a fama de esbanjamento atribuída aos grandes seringalistas da era da borracha. Seu pai era analfabeto, passava o dia no roçado, a mãe vivia na cozinha. A casa era simples, a vida também.
O jornalista, escritor e fundador do Varadouro Elson Martins; do Seringal Nova Olinda, às margens do Iaco, para escrever a história da Amazônia na imprensa (Foto: Ramon Aquin)
“Meu pai nunca foi rico. Os seringalistas do Iaco viviam de escambo, sem dinheiro, sobrevivendo como podiam”. Ainda assim, havia música. O pai comprou uma vitrola do tamanho de uma geladeira e discos pesados, bolachões. Entre a dureza da floresta e o som da vitrola, nasceu o homem que transformaria a vida amazônica em palavra impressa, sem jamais perder o chão de onde veio.
Ainda jovem, Chico Martins integrou o exército de Plácido de Castro e, a partir dos anos 1940, passou a receber uma pensão como veterano da Revolução Acreana. Viveu quase um século. A mãe, que criou os 14 filhos, morreu pouco depois, sobrevivendo da pensão do marido. Hoje restam apenas cinco irmãos vivos. Elson é o caçula, com 86 anos.
Como ocorreu com a maioria dos seringais, o Nova Olinda entrou em decadência após a Segunda Guerra Mundial. Foi vendido a preço de liquidação. A herança de Elson resumiu-se a R$ 2 mil, valor que ele doou a um dos irmãos. A sorte foi pequena na floresta, mas grande no jornalismo.

No auge da carreira, Elson tornou-se correspondente d’O Estado de São Paulo, o Estadão, quando o jornal vivia seu período de maior influência e mantinha a rede de correspondentes mais bem estruturada e remunerada do país.
No Acre, o correspondente tinha poder real. “Eu podia contratar pequenos aviões se soubesse de um conflito grave, sem precisar consultar São Paulo”, recorda. “O salário era bom — não comparável ao de secretários de Estado —, mas havia algo mais forte: o idealismo e a certeza de estar servindo ao lugar onde nasceu”, acrescenta.
Em 1975, foi um dos três correspondentes escolhidos para relatar a rotina profissional no tabloide comemorativo dos 100 anos do Estadão. No ano seguinte, ainda sob o governo do ditador general Ernesto Geisel, veio o reconhecimento maior: o Prêmio Esso de Jornalismo, na categoria Equipe, pela série “Os Superfuncionários”.
Coordenadas por Ricardo Kotscho, as reportagens, publicadas entre 1º e 4 de agosto de 1976, escancararam o estilo de vida luxuoso de servidores públicos no auge da ditadura militar. O contraste com a miséria do funcionalismo comum e da população chocou o país e popularizou termos como “marajás” e “mordomias”.
À época, o governador do Acre, Geraldo Mesquita (Arena), mantinha o gabinete de portas abertas para o correspondente do Estadão. Elson transitava com liberdade no Palácio Rio Branco, o que lhe permitia confrontar diretamente o governador sempre que identificava injustiças cometidas por secretários ou pela máquina pública.

Foi nesse contexto que o Acre mergulhou no conflito aberto entre seringueiros e fazendeiros. Com incentivo da ditadura militar, uma onda de empresários do Sul e do Sudeste (os chamados “paulistas”) chegou ao estado com jagunços e motosserras, apoiada por prefeitos, delegados, advogados e governos.
As famílias de seringueiros eram expulsas de suas posses, abandonadas nas periferias urbanas, vivendo em barracos de lona, sem trabalho, sem renda, sob ameaça constante de despejo. “Uma loucura”, resume Elson. “E eu entrei nesse furacão.”
Ele não entrou sozinho. Teve como aliados o bispo da Prelazia do Acre e Purus, Dom Moacyr Grechi, e os advogados da Contag, João Maia da Silva Filho e Pedro Marques da Cunha Neto, ex-caminhoneiro baiano que ajudou a fundar oito sindicatos rurais no Acre e em Boca do Acre. Para enfrentar as expulsões e prisões arbitrárias, recorriam paradoxalmente a instrumentos legais da própria ditadura: o Estatuto da Terra e o Código Civil.
As ameaças se multiplicaram. Elson e Dom Moacyr passaram a ser alvos diretos. Houve até uma reunião de fazendeiros, de madrugada, em Rio Branco, para planejar o assassinato do jornalista do Estadão. Um dos participantes comentou o plano numa delegacia, sem saber que o delegado era cunhado de Elson. O aviso veio rápido. A polícia lhe entregou um revólver para manter debaixo do colchão. O jornal propôs que ele se afastasse por um mês, em São Paulo. Elson aceitou.
Nesse ambiente nasceu o Jornal Varadouro. “O Varadouro não tinha dono: era um jornal de movimento, coletivo, feito para dar voz à massa desarrumada que saía dos seringais, sofria violência policial e era invisível para a grande imprensa. Falava de extrativismo, cultura, história, solidariedade, identidade acreana e, sobretudo, dos conflitos que ninguém mais queria contar”, analisa Elson.
Enquanto isso, o extrativismo agonizava. Fazendeiros adquiriram cerca de seis milhões de hectares no Acre — mais de um terço do território estadual — com apoio de órgãos federais. Castanheiras e seringueiras, mesmo protegidas por lei, eram derrubadas. Foi nesse cenário que emergiram lideranças como Wilson Pinheiro e Chico Mendes, e os empates se consolidaram como forma de resistência.
Apesar das vitórias, a floresta permaneceu em grande parte nas mãos desses grupos, exceto nas áreas transformadas em reservas extrativistas graças à luta de Chico Mendes. Elson lembra que nenhum outro estado brasileiro teve tanta gente criada na floresta como o Acre. Até os anos 1960, os seringueiros eram cerca de 60% da população.
Desenvolveram conhecimento profundo da mata, dos animais, das plantas; as mulheres caçavam. Uma tia de Chico Mendes, dona Cecília, dizia sentir-se mais segura à noite na floresta do que na cidade de Xapuri.
Mais tarde, governos como o de Jorge Viana investiram na construção de uma identidade — florestania, acreanidade — com avanços importantes. Hoje, Elson vê retrocessos e a retomada acelerada da bovinização. Ainda assim, faz questão de continuar colaborando. “Seguir escrevendo é continuar lutando pelo Acre da vida acreana. Quero ir nisso até o fim”.
Antes de tudo isso, Elson quase seguiu outro caminho. Com bolsa da extinta Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), estudou Química Industrial na Universidade do Trabalho de Minas Gerais (Unimig). “Fiz mais para ter direito à generosa bolsa da Sudam. Serviu para trabalhar como químico da Companhia de Leite Pasteurizado de Belém durante quatro anos depois de um estágio na fazenda Santana do Rio Abaixo em São José dos Campos (SP), de propriedade do então ministro da Indústria e Comércio da ditadura, Severo Gomes.
Em Belo Horizonte, Elson também frequentou a Escola Guignard, de Belas Artes, e a Escola de Cinema na Universidade Católica. “Não concluí nenhum desses cursos”. Em vez disso, Elson mudou de rota ao se envolver com a militância política ligada a Carlos Marighella, no Pará, e com João Capiberibe, futuro governador e senador do Amapá. “Minha vida desandou para o jornalismo”, diz, sem arrependimento.





