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Chico Mendes: um sábio seringueiro

Chico Mendes: um sábio seringueiro

Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, foi um homem da floresta por excelência. Simples, pobre, cheio de ternura e de alma limpa. Aos 5 anos de idade acompanhava o pai, também Francisco, em longas caminhadas pela mata densa. Aos 9, “cortava” seringa e produzia borracha como gente grande. Aos 44 já era um sábio, tradutor de mistérios e mitos, conhecido por defender a floresta amazônica e os povos que nela vivem. 

Por Elson Martins 

Imagine um menino andando na mata entre cipós, tabocas, árvores gigantescas, espinhos e cheiros, muito cheiro e muita cor, entre répteis e ruídos não codificados, numa mistura de curiosidade e medo, como o ronco das guaribas nas copas fechadas, lá no alto. Só podia ser uma experiência fascinante! Assim ele formou seu imaginário, sua coragem, seu deslumbramento. E, sem nunca ter saído daquelas entranhas, se fez homem, original no andar, no vestir, no falar, para, enfim, plantar as ideias de sustentabilidade no Acre, no Brasil e, de certo modo, no mundo todo. 

Acabou por contrariar os interesses daqueles e daquelas que priorizam a ambição e o saque. No dia 22 de dezembro de 1988 foi morto no quintal de sua casa, na pequena e histórica cidade de Xapuri, de tocaia, pelo peão Darcy Alves, filho do fazendeiro Darli Alves, com um tiro de espingarda calibre 12 no peito e caroços de chumbo em cima do coração. Faz 35 anos que sua morte abalou e empobreceu o mundo. Ele completaria 80 anos de idade neste 15 de dezembro.

Em 1995, a pedido da revista N’ativa, publicada pela fundação Garibaldi Brasil, da Prefeitura Municipal de Rio Branco, escrevi o texto “Muitos Chico Mendes”, com a intenção de mostrar que o Acre é diferente por contar com muitos Chico Mendes entre os Povos da Floresta. Muitos deles continuam invisíveis:

Eles estão entranhados nas matas da Amazônia desde 1877, ano da terrível seca que os empurrou do Nordeste para cá. Para conhecê-los é preciso entranhar-se também. Os seringueiros acreanos e seus semelhantes recebem os visitantes com uma quieta satisfação. Nada de beijos e abraços, ou palavras à toa ou olhares vagos. É chegar e fazer a leitura do amor nos gestos encabulados e na quase vergonha de se mostrar. Os Chicos são irmãos cúmplices da natureza e expressam a mais singela vontade humana de conhecer e se relacionar com o próximo. Eles sabem muito. E querem ensinar e repartir o que sabem, como se dominassem o segredo da vida na sua melhor e maior dimensão. A casa deles não tem porta. Você entra, come e dorme partilhando a intimidade que expõem desarmados. E ninguém sai imune dessa relação, humana e completa. Não há como não imitá-los, se quisermos sobreviver à hecatombe de um modelo civilizatório que submeteu o homem ao desamor.

GÊNESIS

Até meados do Século 19, nos mapas antigos, o Acre era chamado de “terras não descobertas”, mas ocupadas por índios, bichos e solitários aventureiros. Eram terras bolivianas e peruanas resultantes da partilha entre impérios da Espanha e Portugal. Segundo o escritor de origem paraense, Abguar Bastos, foram os nordestinos-acreanos que, após a batalha da borracha na segunda metade daquele Século, puderam dizer ao mundo: “Eis que demos um destino a esta solidão”!

Foto: Divulgação.

Sobre esse migrante intrépido do Nordeste brasileiro, Bastos disse numa bela introdução ao livro A Conquista do Deserto Ocidental, de Craveiro Costa, que ele “veio de improviso, como uma nuvem de gafanhotos, e andou para adiante, mal-entrouxado, barbado, cabeludo, apressado e praguejante. O nordestino e o Acre eram dois destinos ainda sem comunicação com a vida: o primeiro à procura de uma terra que o recebesse, o segundo à procura dum povo que a tomasse. Um carregado de filhos. Outro carregado de rios”.

O novo e áspero mundo que aguardava os nordestinos, apesar de desconhecido por dentro, estava desenhado por fora, pelo capital internacional. Fora dividido em seringais para produzir borracha para a Europa vitoriana. Cada seringal tinha a sua “margem”, junto a um rio, onde se instalava a sede da unidade capitalista; e o “centro”, no coração da floresta, onde ficavam as colocações de seringa perto dos índios e no meio dos bichos. 

Na “margem”, com acesso pelo rio ficava a casa do patrão seringalista, os barracos de agregados e o armazém do aviamento. Deste eram despachados e seguiam em comboios de burros para o “centro”, mata adentro, os produtos – querosene, sal, charque, carne enlatada, farinha, feijão, fósforo, cartucho, pólvora e chumbo. Seguiam também garrafas de cachaça, xarope Capivarol, brilhantina Glostora e outros supérfluos cobrados a preço de ouro.

Na volta o comboio trazia a borracha, cujo preço avaliado no barracão – com a quebra no peso e erros na balança, ou nas anotações do caixeiro no mata-borrão – escravizava o seringueiro pela dívida impagável. Entre o homem proprietário da “margem” e o homem explorado do “centro”, a diferença, segundo Abguar Bastos era: “Um suava em meditação, o outro em sangue. Um devia dinheiro, o outro a vida. Um caía e se levantava, o outro, caía e rastejava. Um podia ter dinheiro, o outro devia obrigações. Um sofria reclamando e exigindo, o outro sofria agradecendo e humilhando-se”. 

GUERRA E TRAIÇÃO

Nesse tempo de desigualdades sociais e humanas, o capital internacional prosperava com o extrativismo amazônico. Na verdade, com uma única espécie da biodiversidade amazônica: a Hevea brasiliensis. E logo descobriu como prosperar mais rapidamente, plantando a espécie na Malásia. Em 1908, a produção asiática acompanhada de ciência e tecnologia já superava a produção brasileira.

Foto: Divulgação.

Na primeira década do Século 20, o Acre e seus seringais começam a definhar: as “margens” se esvaziam, e as relações entre seringalistas e seringueiros se alteram. Todos ficam desamparados. A agonia se estende até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando Estados Unidos e Europa ficam sem o látex controlado pelos asiáticos, parceiros de Hitler. Os norte-americanos decidem reativar os seringais amazônicos e o Brasil cria a figura do “Soldado da Borracha”. Nova leva de nordestinos é empurrada para a região com promessas e sonhos que não realizados. 

Em cinco anos terminou a guerra, e novamente o capital foi embora, deixando um rastro de lamentações. O que germinou foi uma invisível sociedade, que, nos anos 1970, emergiu sublevada, juntando seringueiros, ribeirinhos, índios e posseiros, dali pra frente conhecida como Povos da Floresta.

O SAQUE

Desde o século 16, a Amazônia sofre com o saque de suas riquezas naturais e com a agressão estúpida ao que tem de mais sagrado: sua tradição, sua cultura, os povos da floresta e das águas. Situado no sudoeste amazônico, com 16,4 milhões de hectares de área, o Acre é filho dessa desventura. Sua história começa com o primeiro ciclo da borracha (1890 a 1912), durante o qual precisou enfrentar uma guerra com a Bolívia (1902) para tornar-se brasileiro.  

Na verdade, foi preciso protagonizar quatro insurreições: primeiro o jornalista cearense José Carvalho, escrivão e juiz de paz em Boca do Acre, juntou um grupo de seringueiros e expulsou os militares bolivianos alojados em Puerto Alonso, hoje Porto Acre; depois, apareceu o aventureiro espanhol Luis Gálvez, que criou a República Independente do Acre, rejeitada pelo governo brasileiro; veio então um grupo de poetas do Amazonas que não sabia como disparar um canhão e o perdeu para o exército boliviano; finalmente, o militar gaúcho Plácido de Castro levou  a guerra a um desfecho diplomático em 1903.  

Os milhares de trabalhadores que migraram da seca do Nordeste para o dilúvio amazônico fizeram do Acre um grande produtor de borracha e um estado que chegou ao terceiro milênio como referência ecológica. Não antes de enfrentar a mais perversa patada histórica: a ditadura militar de 1964, que durou 21 anos e, na década de 1970, quis transformar a floresta em pastos para o boi.

O Acre foi subitamente invadido por migrantes do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que receberam financiamento e incentivos fiscais com os quais compraram, ilicitamente, 5 milhões de hectares de seringais com famílias seringueiras dentro. Cerca de 40 mil pessoas socialmente desarrumadas foram expulsas para as sedes municipais e para a Bolívia, até se decidirem pela organização dos “empates”. 

Assim nasceram as Reservas Extrativistas, os Assentamentos Extrativistas, o Partido dos Trabalhadores, o Conselho Nacional dos Seringueiros, a União dos Povos da Floreta e o Governo da Floresta, com o conceito (melhor dizer sentimento) de acreanidade e florestania.  Dois ícones desse movimento – Wilson Pinheiro e Chico Mendes – tombaram assassinados pelos agressores. 

Mas o legado deles ficou alimentando ações em favor de um Acre mais justo. O estado consegue salvar sua tradição extrativista e ambientalista, mas também “experimentalista”, procurando conciliar interesses econômicos, ambientais, sociais e políticos. 

FAMÍLIA

Chico Mendes nasceu no seringal Porto Rico, em Xapuri (AC), em 15 de dezembro de 1944. Os pais moravam na Colocação Bom Futuro, uma unidade de produção que ocupa, em média, 300 hectares de floresta densa com três “estradas” de seringa (caminho que acessa 150 árvores produtoras do látex). 

Foto: Élson Martins.

Na forma de pétala, a “estrada” tem partida e chegada no mesmo ponto: a casa do seringueiro numa pequena clareira aberta na mata fechada. As colocações se ligam à sede do seringal por um caminho mais largo, o varadouro, utilizado pelos comboios de burros que levam as mercadorias (aviamentos) para o seringueiro e recolhem a borracha produzida. 

Em 1955 a família mudou-se para o Seringal Equador, Colocação Pote Seco, próximo ao Seringal Cachoeira, ainda em Xapuri. Lá, aos 16 anos, Chico conheceu Euclides Fernandes Távora, o “Pranchão”, a pessoa que lhe ensinou a ler e pensar sobre injustiças sociais. Euclides era um tenente do Exército Brasileiro que tinha participado da Intentona Comunista organizada por Luiz Carlos Prestes, em 1935. 

Com a derrota de Prestes, foi preso juntamente com outros participantes na Ilha de Fernando Noronha, de onde conseguiu escapar com a ajuda do influente militar Juarez Távora, seu tio, um dos generais da ditadura de 1964.  Após a fuga, viveu no Pará, depois se exilou na Bolívia, onde participou de levantes armados com os mineiros bolivianos. 

Temendo ser preso novamente, Pranchão entrou na floresta boliviana e de lá atravessou a fronteira para o Acre. Em 1961 visitou a colocação do pai de Chico Mendes, distante 3 horas de caminhada da sua, interessando-se pela vida do jovem seringueiro. Chico passou a visitá-lo nos fins de semana para ouvir rádio (a pilha) e conhecer jornais velhos, com o novo amigo que o ensinou a ler e escrever. Melhor, ensinou a ver como acontecia a exploração do homem pelo homem nos seringais.

Em 1965 Euclides adoeceu, viajou em busca de tratamento e Chico nunca mais o viu. Uma década depois, o Acre entrou em reboliço com a “revoada de jacus” que chegava de outras regiões do país para bovinizar o Estado. Na verdade, se tratava da desarrumação completa dos seringais, diante da qual os seringueiros, analfabetos e desamparados, eram pressionados a abandonar suas colocações e se tornar estatísticas de fome nas periferias urbanas.

As famílias viviam aterrorizadas. Recebiam visitas de capatazes, jagunços, advogados e policiais (civis e militares), que exibiam documentos falsos da compra dos seringais e estabeleciam prazos para que saíssem das terras. Ao mesmo tempo, queimavam barracos, destruíam roçados e fechavam caminhos na floresta com a derrubada de arvores. Os policiais prendiam seringueiros e posseiros e os torturavam nas delegacias. Em alguns casos, obrigavam-nos a assinar acordos com os fazendeiros, tendo uma arma apontada para a cabeça.

OS EMPATES E OS SINDICATOS

Aflito, Chico Mendes percorria os seringais tentando organizar uma resistência. Em 1975 soube que uma comissão da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) estava promovendo um curso de lideranças sindicais em Brasiléia, na fronteira com a Bolívia, e foi para lá. Fez o curso e participou da criação do Sindicato dos Trabalhadores no município, no dia 21 de dezembro. 

Foto: Élson Martin.

Chico estava tão eufórico que levantou suspeitas do delegado da Contag, João Maia da Silva Filho, que pensou tratar-se de um olheiro dos pecuaristas. A suspeita era infundada, Chico chamava atenção porque ajudava a maioria que não sabia escrever a preencher a ficha de filiação. Acabou sendo eleito secretário-geral da Sindicato, compondo a diretoria com Elias Rosendo e Wilson Pinheiro.

Chico Mendes sabia que a prioridade, como lhe ensinou Euclides, era alfabetizar e conscientizar os seringueiros e posseiros para que lutassem contra a exploração e expulsão de suas terras. 

E a Contag passou a ser uma grande aliada ao colocar à disposição da classe um bom advogado, o cearense Pedro Marques da Cunha Neto, que apresentou o Estatuto da Terra e o Código Civil como instrumentos jurídicos de defesa dos direitos dos trabalhadores rurais. Isso era novidade para quem nunca fora reconhecido como categoria funcional na legislação brasileira.

A VEZ DE CHICO MENDES

Em 1985 criou o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), que colocou em discussão temas como reserva extrativista, exploração comunitária e nacional da biodiversidade amazônica, unidades de conservação, demarcação de áreas indígenas, estudos de impacto ambiental nas estradas e outros projetos abertos na região.

Foto: Divulgação/ Carlos Ruggi/Estadão.

A luta de Chico Mendes foi monumental e perigosa. Nos anos 1970 e 1980 espalhou-se uma energia ruim no estado inteiro. A sociedade extrativista se contorcia de dor, mas quase ninguém se importava. As vantagens, os direitos, as leis, as oportunidades oferecidas pelo regime militar excluíam o pioneirismo e a tradição da terra. As motosserras roncavam na floresta e o fogo seguia atrás, queimando a paisagem.    

Quem mais se preocupava com o futuro da tradição extrativista eram os subletrados da floresta, como Chico Mendes. Foram eles que reagiram com os empates e trouxeram o conflito para a cidade. A Universidade Federal do Acre, cujo perfil foi objeto de estudo do especialista Oswaldo Sevá, de São Paulo, professor da Unicamp, concluíra que a instituição era “tranquila demais para a sociedade efervescente que a cercava”. O reitor Aulio Gélio recebia recados desaforados dos coronéis da ditadura, morria de medo deles, mas metia medo nos professores e alunos.

Àquela altura, Chico já era um experiente palestrante e tinha formado uma boa lista de aliados. Entre estes, a antropóloga Mary Allegretti, que o conhecia desde 1978 e não o  largou mais; o assessor de Bill Clinton (Presidente dos Estados Unidos), Steve Schwarzman,  com estudos realizados na Amazônia, e Adrian Cowell, cineasta britânico que acabou realizando o melhor filme documentário sobre Chico Mendes, I Want to Live

LEGADO

A partir de 1989, um ano após ser assassinado, foram criadas as Reservas Extrativistas onde os seringueiros permaneceram em suas colocações sem mais ameaças. A proposta tornou-se modelo de reforma agrária para a Amazônia Legal e outras regiões do país. Hoje os povos da floresta são libertos e defendem o desenvolvimento sustentável com base na exploração racional da biodiversidade amazônica. 

Foto: Arquivo/Resex.

No Acre, mais de 50 por cento das terras estão protegidas por unidades de conservação e todas as terras indígenas foram demarcadas. No total, o estado tem 80 por cento de floresta em pé.  Em 1998 o partido (PT) que ele ajudou a criar em 1982 ganhou o Governo da Floresta inspirado em suas ideias.

O Acre é hoje o estado amazônico mais conhecido no mundo por praticar a economia de baixo Carbono, com apoio de bancos internacionais como BID e Bird (americanos) e KfW (alemão). Seu “desenvolvimento sustentável” prioriza a defesa do meio ambiente global. 

Após 20 anos de governo petista no Estado, iniciado em 1999, as lideranças políticas de esquerda não vivem ameaçadas como antes, mas perderam parte de sua força por desmobilização. Andam perdidos no meio da burocracia e da centralização que criaram e o Acre agora tem um governo bolsonarista. 

O Acre continua sendo um estado amazônico com ares de sustentabilidade, mas as ameaças reaparecem. Está cada vez mais difícil identificar os riscos e também os líderes que possam enfrenta-los com consciência política. O governo tem dificuldades, hoje, de reconhecer os protagonistas preferenciais do desenvolvimento acreano.

Os povos indígenas, os ribeirinhos e os seringueiros não são mais tão miseráveis quanto antes. Os extrativistas, agora monitorados pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade), não contam com ciência e tecnologia para explorar os recursos da floresta. Mas não desapareceu a tentação da pecuária e do agronegócio, o que leva a pensar em novos empates. 

Elson Martins – Jornalista. Escritor, autor de Acre: Um estado de espírito. Editora Xapuri, 2022. Foto de capa: Divulgação/ Márcia Pimentel.

 
 
 
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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