“BASTA DE FEMINICÍDIO. QUEREMOS AS MULHERES VIVAS”

“BASTA DE FEMINICÍDIO. QUEREMOS AS MULHERES VIVAS”

“BASTA DE FEMINICÍDIO. QUEREMOS AS MULHERES VIVAS”

Ato nacional reuniu milhares de pessoas em 20 estados diante do aumento dos feminicídios, da subnotificação e da concentração de vítimas negras, enquanto políticas federais de proteção são ampliadas

Por Guto Alves e Rose Silva  

Milhares de manifestantes foram às ruas no dia 7/12 para protestar contra o aumento da violência contra as mulheres e os feminicídios. Com o lema “Basta de feminicídio. Queremos as mulheres vivas”, os atos reuniram mulheres, homens e crianças em ao menos 20 estados e no Distrito Federal, segundo o movimento Levante Mulheres Vivas.

Em São Paulo, o protesto reuniu cerca de 9,2 mil pessoas, de acordo com levantamento do Monitor do Debate Político do Cebrap, em parceria com a USP.

No mesmo dia ocorreram as mortes da farmacêutica Daniele Guedes Antunes, de 38 anos, em Santo André, e de Milena da Silva Lima, de 27 anos, em Diadema, ambas atacadas por ex-companheiros.

No Rio de Janeiro, centenas de pessoas se reuniram no Posto 5, em Copacabana. Uma das participantes foi a agente de educação infantil Evelyn Lucy Alves da Luz, de 44 anos, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio em 6 de fevereiro de 2017. Os tiros disparados pelo ex-marido deixaram marcas nela e na filha, que tinha 6 anos à época e presenciou a agressão.

O ato no Distrito Federal, onde já ocorreram 26 mortes neste ano, contou com a presença de representantes do governo, entre eles seis ministras, deputadas federais, a primeira-dama Janja Lula da Silva e diversas lideranças populares. O caso mais recente de feminicídio foi registrado em 5/12, quando a cabo do Exército Maria de Lourdes Freire Matos foi assassinada por um soldado dentro de um quartel.

Em Florianópolis, manifestantes realizaram uma caminhada em homenagem à professora Catarina Kasten, de 31 anos, estuprada e assassinada em uma trilha em 21 de novembro.

UM GRITO DE BASTA 

O movimento Levante Mulheres Vivas ganhou força após uma sequência de casos recentes. Entre eles, o de Tainara Souza Santos, de 31 anos, atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro por um “ex-ficante”, em São Paulo, em 29 de novembro. 

Na mesma data foram registrados os assassinatos de Isabely Gomes de Macedo, de 40 anos, e de seus quatro filhos, de 7, 4, 3 e 1 ano, vítimas de um incêndio provocado pelo marido em Recife. 

No Rio de Janeiro, as funcionárias do Cefet Allane de Souza Pedrotti Matos e Layse Costa Pinheiro foram mortas por um colega de trabalho que se recusava a aceitar a liderança de mulheres, em 28 de novembro.

Somente em 2024, o Brasil registrou 1.455 feminicídios, um aumento de 12% em relação ao ano anterior e o maior número desde a criação da lei que tipifica esse crime. Isso significa que quatro mulheres foram mortas por dia em razão de violência de gênero.

Os dados oficiais também registram milhares de casos de agressões físicas, psicológicas, tentativas de feminicídio, ameaças e abusos, muitos deles subnotificados. Em 2025, já foram contabilizados 1.180 casos.

A RESPOSTA DO GOVERNO E A AMPLIAÇÃO DAS POLÍTICAS DE PROTEÇÃO 

A ampliação dos atos em todo o país coincide com o fortalecimento das políticas públicas federais voltadas ao enfrentamento da violência de gênero. Nos últimos dois anos, o governo federal retomou e expandiu iniciativas que estavam paralisadas e criou novos instrumentos para estruturar a rede de proteção.

Segundo o Ministério das Mulheres, houve crescimento acumulado de mais de 22% nas denúncias ao Ligue 180 entre 2023 e 2024, o que reflete maior procura por atendimento e aumento da confiança nos serviços. 

O ministério também aponta que, no período, cresceu em 11% a concessão de medidas protetivas de urgência, embora a cobertura de monitoramento dos agressores siga baixa em todo o país.

A Casa da Mulher Brasileira, principal política de acolhimento imediato, passou por reestruturação nacional. Unidades que estavam fechadas foram reativadas e obras de implantação foram iniciadas em diversas regiões. 

Entre 2023 e 2024, o governo anunciou a construção de 14 novas unidades, com expansão prevista para outras capitais e cidades de médio porte. A Casa integra serviços de acolhimento, delegacia especializada, apoio jurídico, atendimento psicossocial e abrigo temporário.

O Ministério da Justiça lançou, em 2024, o programa Mulher Segura, que reúne ações de fortalecimento das delegacias especializadas, criação de núcleos de investigação de feminicídios e ampliação das patrulhas Maria da Penha. 

O programa recebeu investimento inicial de R$370 milhões e prevê integração de dados entre segurança pública, saúde e justiça, para aprimorar a identificação de riscos e o acompanhamento das vítimas.

O governo também vem ampliando a rede de atendimento por meio de centros de referência, campanhas de conscientização e pactuações com estados e municípios para fortalecer protocolos de investigação e atendimento. 

As iniciativas incluem suporte para delegacias em funcionamento 24 horas e parcerias para aumentar o número de equipes treinadas para atendimento a mulheres, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde os índices de feminicídio são mais altos.

Esse conjunto de ações, apesar de ainda enfrentar limitações estruturais, marca a retomada de políticas nacionais de enfrentamento à violência de gênero e reforça a presença do Estado em territórios com maior vulnerabilidade.

images 1Guto Alves – Jornalista

 

 

 

 

 

20220901 6310cf5fb0f22Rose Silva – Jornalista

 

 

 

 

 

Excerto de matéria publicada na Revista Focus Brasil, edição 219, dezembro 2025. Leia a matéria completa em: https://fpabramo.org.br/focusbrasil/2025/12/09/feminicidio-manifestacoes-em-20-estados-denunciam-ciclo-continuo-de-violencia/

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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