CHE GUEVARA, HOJE

Che Guevara, hoje

Onde se levanta um punho contra a engrenagem financeira e as Big Techs, que controlam as cotas de liberdade para proteger seus “lucros intributáveis”, lá, o espírito de rebeldia de Che Guevara entra em ação
 
Por Luiz Marques/Teoria e Debate 

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1.

Ernesto Guevara de la Serna nasce em 14/06/1928 em Rosário, na Argentina; morre em 9/10/1967, em La Higuera, na Bolívia. Trata-se de um revolucionário, marxista, médico, escritor, guerrilheiro, diplomata. Na descrição de Michael Löwy e Olivier Besancenot, em Che Guevara – uma chama que continua ardendo (Unesp):

Che não era um santo, nem um super-homem, nem um chefe infalível; era um homem como os outros, com suas forças e fraquezas, sua lucidez e cegueira, seus erros e inabilidades. Mas tinha uma qualidade rara nos atores da cena política – a coerência entre as palavras e os atos. Desse ponto de vista, ele era excepcional”. É o que explica a enorme atração que ainda exerce no mundo inteiro. Ser uma liderança na qual se podia depositar completa confiança.

Tudo começa com a viagem iniciática de motocicleta para o aprendizado da realidade continental sobre a miséria, a pobreza, a dependência cultural extrema. Cresce o sentimento antiimperialista.

Depois, vêm a participação ativa na resistência guatemalteca à intervenção estrangeira, a guerrilha cubana, as responsabilidades governamentais, as missões diplomáticas. Então são quinze anos de uma existência extraordinária, intensa e interessante, mais do que tantas com destinos longevos.

Faz cinquenta e oito anos de sua captura e assassinato covarde, pela ditadura militar boliviana. O insurgente em nome da libertação da América Latina sabe que o capitalismo com feição selvagem tem, historicamente, as patas sobre os povos no continente colonizado.

As massas encontram desde sempre dificuldade para assegurar os direitos fundamentais à sobrevivência. Uma situação que o neoliberalismo a partir da década de 1980 não melhora, senão que aprofunda na ideologia supremacista para legitimar processos de exclusão e superexploração nas relações trabalhistas. Manda/obedece.

2.

Em 1° de janeiro de 1994, no Sudeste mexicano, em Chiapas, os camponeses zapatistas pegam em armas para dizer “Ya basta!” à nova ordem mundial (Consenso de Washington). Mostram que os ideais de emancipação de Che Guevara mantêm sua chama sob as cinzas, post mortem.

Um outro mundo é necessário, bradam os oprimidos com a bandeira da democracia e da soberania nacional. No campo e nas cidades, de Norte a Sul, a esperança se organiza nas bases. “O grande canteiro de obras para elaborar o socialismo do século 21 está aberto”, sublinham Löwy e Besancenot.

Para mudar o establishment é preciso uma humanidade com novos costumes, hábitos, relações de poder e concepção de trabalho. A solidariedade entre os povos deve recuperar o princípio-esperança e as condições para uma coexistência pacífica, cooperativa, transnacional, e não um mandamento meramente comercial para a troca de produtos. Nenhum povo deve ser condenado à solidão, como os Estados Unidos fazem com o povo de Cuba, da Venezuela e, antes, fizeram com o Vietnã.

Onde se levanta um punho contra a engrenagem financeira e as Big Techs, que controlam as cotas de liberdade para proteger seus “lucros intributáveis”, lá, o espírito de rebeldia de Che Guevara entra em ação. Quem arrota a liberdade para potencializar a acumulação de riquezas privadas usa da hipocrisia e do cinismo para manipular a opinião pública. O vale tudo do discurso e da violência física pertence ao espectro da dominação autoritária e intolerante – que mata. Marielle, presente!

3.

Os ideais guevaristas não se confundem com métodos de luta. Combatem terceirizações, jornadas exaustivas de labor, monoculturas que destroem biomas no extrativismo de commodities, pessoas em situação de rua nas metrópoles, desindustrialização.

Reatualizam-se na resiliência de guerreiros aos aplicativos tecnofeudais, sindicatos e movimentos sociais; com militância avessa ao patriarcado (sexismo) e à herança colonialista (racismo); com estudantes a denunciar sem medo o genocídio de palestinos na Faixa de Gaza e ambientalistas para defender florestas, rios, mares. Os neocapitães do mato no Congresso para proteger os interesses de bancos, bilionários e bets são já bem conhecidos.

A imagem de Che Guevara frequenta passeatas do Maio de 1968. Desde então, estampa camisetas nos campus universitários para celebrar o internacionalismo do opositor da globalização imperial e entoar as palavras de ordem contra a lógica alienante da mercadoria e a redução humana a uma unidade econômica, descartável. As virtudes não convivem com os vícios e a corrupção do capital.

O prestígio do comandante junto às gerações subsequentes deve-se ao fato de representar o conceito de um revolucionário que, chegando ao poder, é capaz de deixar qualquer zona de conforto para pôr outra vez suas forças a serviço dos “humilhados e ofendidos”. Esse simbolismo reúne a juventude à revolução, de um modo indissolúvel e generoso. Não pela aventura; mas pelo desprendimento em relação a vantagens individuais às expensas dos mais vulneráveis, que seduzem certas castas.

4.

Soyons réalistes, demandons l’impossible” (“Sejamos realistas, demandemos o impossível”), o lema sessentista está ligado à superação das contradições principais do sistema, cuja solução só pode acontecer com uma reestruturação da sociedade.

A lembrança de uma data triste não é um culto à morte; é a saudação de afeto aos lutadores políticos e sociais de esquerda por uma sociedade de produtores associados livres, sem separar os meios dos fins. São os valores da ética humanista de Che Guevara que o tornam persona non grata à burguesia. Mas inspiração para os revolucionários.

Luiz Marques é docente de Ciência Política na UFRGS; ex-Secretário de Estado da Cultura no Rio Grande do Sul

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A fotografia Guerrilheiro Heroico, de Alberto Korda – Wikimedia Commons

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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