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Daquele 1º de abril que eu vivi: pouco mudou, apenas surgiu a COVID-19

Daquele 1º de abril que eu vivi: pouco mudou, apenas surgiu a COVID-19

Daquele 1º de abril que eu vivi: pouco mudou, apenas surgiu a COVID-19

Lá se vão 58 anos, daquele fatídico golpe…

Por Trajano Jardim

Nos dias que antecederam o 1º de abril (de 1964), a agitação deixava todos tensos. O comício da Central do Brasil, de 13 de março, criara um misto de confiança e, ao mesmo tempo, de preocupação sobre que rumo o País tomaria. Cada setor da sociedade tinha uma avaliação particular de qual seria o caminho. Boatos sacudiam os noticiários dos jornais, do rádio e da televisão, que ainda engatinhava. O Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), de há muito, vinha se reunindo com regularidade, com o objetivo de avaliar a situação e de organizar a resistência ao golpe que, na opinião de alguns, “estava em marcha”.

E o golpe que estava em marcha chegou no dia 1º de abril. O dia 2 amanheceu e só aí a “ficha caiu”. E agora, o que fazer? (Voltávamos a Lenin, na derrota de 1905). Naquela época a comunicação não tinha as facilidades de hoje. Os contatos eram interpessoais e institucionais. Concluí que a minha vida, a partir daquele momento, iria virar “de ponta a cabeça”. Não queria acreditar no velho Erasmo, camarada que me filiou ao Partidão, quando profetizou “esse é um golpe para 20 anos”. Infelizmente ele acertou em cheio. Foram exatamente vinte anos, dos quais, sete eu vivi na clandestinidade e, por quase dois, passei exilado na saudosa União Soviética.

Mesmo assim, apesar das muitas baixas sofridas, resistimos à ditadura militar. Reconstruímos, embora de forma frágil e com tropeços, a democracia. Durante a Constituinte de 88, enfrentamos os mesmos adversários golpistas de 1964. Alinhados no chamado “centrão”, impediram avanços sociais consistentes, que poderiam ter feito o Brasil avançar rumo a uma sociedade justa e democrática. Ficamos no meio do caminho, dentro de um processo híbrido, com as portas escancaradas para o neoliberalismo, com suas políticas liberalizantes de entrega do patrimônio nacional.

Embora incompreensões e equívocos das forças progressistas e de esquerda, em 2003, elegemos um metalúrgico presidente da República. A esperança ressurgiu. Estávamos diante da possibilidade de construção de um novo processo de desenvolvimento voltado para a maioria da população e não acuramos que o inimigo não dorme. Diante das políticas empreendidas pelo governo democrático e popular, que por certo emancipariam os trabalhadores, os estudantes, as mulheres e a população do campo, eles criaram as condições para um novo golpe e, com isso, destruir os avanços conseguidos.

As mesmas forças de 1954, 1961/64, sempre com apoio da grande mídia conservadora e do judiciário-político, criaram o ambiente propício para o retrocesso. Agora com o propósito de retirar as conquistas dos trabalhadores consignadas na Constituição e na Consolidação das Leis do Trabalho, conseguidas a ferro-e-fogo nos processos de lutas, com suor e lágrimas. Era preciso abalar as estruturas das organizações sociais e sindicais, com o uso de métodos nazifascistas, alicerçados na bandeira da anticorrupção, para ganhar as mentes da classe média despolitizada e dominada pelos meios de comunicação conservadores.

O golpe parlamentar-jurídico de 31 de agosto de 2016, tendo como resultado a cassação do mandato de Dilma, embora sem o uso dos tanques e das armas, das mortes e das torturas explicitas, foi mais destruidor. Com métodos políticos similares aos usados pelos nazistas para chegar ao poder, os golpistas de agosto de 2016 criaram um estado de terror pela via da Segurança Pública e, inclusive, chegaram ao poder, com a eleição de Jair Bolsonaro.

As classes dominantes continuam na ofensiva. Consolidaram o retrocesso social e político. Destruição a soberania nacional. Retiraram o que puderam dos direitos dos trabalhadores. Esquartejaram a Constituição de 88. Pilharam as empresas e as riquezas do País, colocaram a população mais vulnerável abaixo da linha da pobreza, destruíram as organizações de trabalhadores, a sua principal trincheira de defesa dos seus direitos, e enriqueceram os setores rentistas da sociedade.

Os trabalhadores estão numa encruzilhada bem mais perigosa do que em 1964. Ou vamos para o enfrentamento dos setores fascistas, que tentam a reeleição desse seguimento ultrarreacionário do bolsonarismo, ou estaremos mergulhados na barbárie e perderemos o Estado Democrático de Direito, tão duramente conquistado

Daquele 1º de abril que eu vivi, nada mudou. Apenas apareceu a pandemia do novo coronavírus (COVID-19), que, como todas as pandemias, ceifa a vida dos mais pobres.

__________

*Artigo do ´Professor Trajano Jardim – Mestre em Ciência Política e Vice-Presidente do Sinproep-DF

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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