Por Zezé Weiss
O que mais fascina, no entanto, na misteriosa junção do batuque transfigurado pelo arranjo de Luiz Cláudio Ramos à letra é a forma com que as rimas vão sendo dispostas de forma a criar essa atmosfera de envolvimento sonoro e sensual da palavra com o ritmo e o sentido construído na jura de amor.
Deste modo, sempre ricas, as rimas suspiro / ligeiro; nome / perfume; rainha / manhã; lenço / alcanço de modo consoante vão se alinhavando internamente às estrofes e não demarcadas em seu final, como seria o usual. Também de modo aliterante, alvoroçar / afora; capricho / exigir, entre outras vão somando estranhezas e afeições em suas infinitas camadas de significação.
Até findarmos com os versos “lembra-te minha nega / dessa cantiga que fiz pra ti”, que em seu jogo sonoro de espelhos resumem toda a prosódia da simples, genial e como sempre inovadora proposta musical de Chico.

Fonte: Aventuras na História

TUA CANTIGA
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro que eu vou ligeiro te consolar
E estrada afora te conduzir
Basta soprar meu nome com teu
Perfume pra me atrair
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço que eu te
Alcanço em qualquer lugar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos e de
Joelhos vou te seguir
Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz
Vou te deitar
Na cama que arrumei
Pisando em plumas toda manhã
Eu te despertarei
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro que eu vou
Ligeiro te consolar
E estrada afora te conduzir
Basta soprar meu nome com teu
Perfume pra me atrair
Dos lábios te escapar
Terei ciúme até de mim
No espelho a te abraçar
Mais do que hoje sou
Ou estas rimas não escrevi
Nem ninguém nunca amou
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço que eu te alcanço
Em qualquer lugar
Quando eu não estiver mais aqui
Lembra-te, minha nega desta cantiga
Que fiz pra ti






