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Dupla ressaca de Réveillon

Dupla ressaca de Réveillon

Por Carol Proner

Passada a euforia do Ano Novo, especialmente comemorado por aqueles que vislumbram a derrota do fascismo em 2022, iniciamos a semana com o duplo efeito Réveillon: por um lado, a ressaca do aumento de contaminações por Covid e, por outro, a percepção de que serão 10 longos meses até a chegada da primavera e o início da reversão do quadro político.

A passagem do ano celebrou a esperança. Longe do frenesi das pautas parlamentares e da agenda política, trouxe a falsa sensação de trégua, de que o pior já passou, mas a impunidade garantida ao genocida custará mais um ano de mortes e de destruição ao país. 

O aumento exponencial da contaminação por Covid e as ameaças da variante Ômicron auguram contenções e renúncias, ameaçando os planos de um novo normal na vida cotidiana. E tudo isso agravado pelo comportamento negacionista de um governo preservado pelo pacto jurídico-político do “deixa-disso”, ajustado na crise do último 7 de setembro.

Não se quer, com essas memórias, estimular o pessimismo ou o desânimo. Ao contrário. Em um país tão golpeado como o nosso, o sentimento de esperança celebrado no Ano Novo precisa vir acompanhado de uma estratégia e de um plano de ação. 

Não nos é permitido o direito à distração, menos ainda à ingenuidade. É preciso observar, com realismo e cuidado, que as forças políticas neoliberais, aliadas à grande mídia, escolhem apoiar qualquer governo que garanta seus interesses imediatos e não há pudor nessa escolha.

Para o mercado financeiro e a mídia hegemônica associada ao capital internacional, as mortes por Covid e a destruição das condições de desenvolvimento de um país são efeitos colaterais de uma guerra contra a perdulária democracia. Lula e um projeto de Brasil-Nação são alvos nessa guerra e as eleições de 2022 são apenas a batalha final.

Portanto, neste momento em que as estatísticas de contaminação voltam a ser alarmantes e que estamos tão distantes da retomada democrática, é preciso pensar e planejar. Ajustes políticos arrematados nas casas de veraneio por todo o país têm como premissa, entre outras estratégias, o esquecimento dos sucessivos golpes e traições sofridos desde 2013, passando por impeachment farsesco, lawfare e lavajatismo aliado ao fascismo no poder.

O “deixa-disso” tem exigido, em nome de aliança para garantir governabilidade, o esquecimento como ponto de partida. No país dos pactos de silêncio, nada mais significativo.

Carol Proner – Doutora em Direito. Professora da UFRJ. Diretora do Instituto Joaquín Herrera Flores – IJHF. Matéria publicada originalmente no Brasil 247. Imagem de capa: Ameci. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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