EGUM: O ESPÍRITO DOS MORTOS QUE RETORNA
Quem não conhece não distingue as inúmeras diferenças entre os rituais religiosos de origem africana no Brasil. Englobados na depreciativa expressão “macumba”, geralmente os cultos são interpretados como mera algazarra de batuques, danças, comidas e espíritos incorporados em pessoas vestidas com roupas extravagantes.
Por Marcos Zibordi
O preconceito nega a existência de uma teologia afrobrasileira, tão ou mais complexa que a cristã. Descrever a festa dos eguns, durante a qual o espírito dos mortos visita os descendentes vivos, permite caracterizar e distinguir o ritual entre os vários trazidos da África.
O escritor João Antonio, que presenciou e escreveu sobre a cerimônia na Ilha de Itaparica, notou bem: “Essa festa nada tem a ver com orixás ou com o comum do candomblé. É única”.
Tal singularidade tem vários motivos: orixá é representação de forças da natureza, como os raios, o mar ou a floresta; egum é espírito de pessoa morta, geralmente da família. Além disso, o culto aos orixás é corriqueiro, motivo da maioria das cerimônias nos terreiros do país, enquanto a celebração dos eguns é raríssima. Restrita a iniciados, ocorre em poucos locais, como a ilha de Itaparica e, recentemente, um terreiro de São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo.
ASSUSTADORES, INTOCÁVEIS, FATAIS

Nem todos os africanos ritualizavam os eguns. Mas os iorubas, da Nigéria, sim. E eram iorubas muitos dos escravos trazidos para o Brasil. Na África, as sociedades ligadas aos eguns eram dominadas por homens. Aqui também. No entanto, durante muitos anos, Mãe Senhora, importante mãe-de-santo de Salvador, já falecida, realizou rituais de eguns na mesma Ilha de Itaparica.
A vestimenta de egum é decorada com aplicações de tecidos recortados, bordados, miçangas, búzios e espelhos. Ele ganha oferendas de comida, objetos e dinheiro. Além de dar conselhos e fazer previsões, aparece para abençoar o casamento dos descendentes. Nunca mostra o rosto. A fala é rouca, profunda e assustadora.
Para evitar que a entidade se aproxime demais, durante a cerimônia, os vivos a afastam com uma vara, o ixan, de madeira branca sem casca. A mesma vareta serve para invocá-la, quando batida três vezes no chão. João Antonio explica: “Ninguém nem chegue perto de um egum. Nem um ojé [iniciado). Eles matam com suas armas afiadas, adagas, punhais, punhaletes, espadas que brilham. Dos vivos, não gostam. Vai daí, os ojés os dominam usando as varas brancas. Não os dominam, redigo, os amenizam só, assustando. Que um egum ninguém domina”.
Por outro lado, quando o egum dança, o vento da roupa é benéfico. Em terra, a ele são dirigidos orikis (rezas) da família: o egum também os ensina aos descendentes.
Segundo Pierre Verger, muitos viajantes e padres que presenciaram o culto de eguns na África confundiram o significado da palavra, para eles sinônimo de “ossada” ou “esqueleto”. Alguns registraram a parte descontraída do ritual, realizado em praça pública, quando o egum abandona os panos da vestimenta e assume diversas formas, alegrando o público.
Ocorre o seguinte: ritual de egum é celebração da ancestralidade, da interdependência entre vivos e mortos. Citado por Verger, o padre Godefroy Loyer, diferentemente da maioria de seus contemporâneos. captou direitinho, em 1714: “Eles acreditam que sua alma vai para outro mundo, o qual, segundo eles, situa-se no centro da Terra; que, nesse mundo, ela anima um novo corpo, no ventre de uma mulher; que aqueles que pertencem àquele mundo vêm até este mundo fazer o mesmo. Assim, alternativamente, segundo a crença deles, ora eles permanecem neste mundo, ora no outro”.
MORTE É CONTINUIDADE
Na sequência, padre Loyer exagera um pouco, mas, em geral, tem razão ao afirmar que os africanos “acreditam que toda a felicidade e o bem-estar de um homem consistem em ser rico, feliz, poderoso, servido e honrado neste mundo; assim, o que quer que seja que eles bebam ou comam, derramam um pouco na terra, murmurando algumas palavras, dizendo que dão de comer e de beber a seus pais, mães e amigos que, no outro mundo, fazem o mesmo com eles. E por isso que eles têm do que viver neste mundo.”
Em tempo: não confunda Egun, espírito do ancestral, com ogum, orixá da guerra. O Google confunde: pesquise pelo primeiro e ele perguntará se você quer o segundo. É que ainda não chegamos à era das máquinas espirituais.
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Marcos Zibordi – Jornalista, em Os Negros, Coleção Caros Amigos, sem data, citando como fonte: ANTONIO, João. Abraçado ao Meu Rancot, texto “Eguns”, São Paulo, Cosac&Naify, 2001.





