ENTRE O ZAP DO TIOZÃO E A REALIDADE

Entre o zap do tiozão e a realidade

“Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.” (Luís Fernando Veríssimo)
Por  Geraldo Lopes de Souza Júnior/TaQuiPraTi
Caboco, tem coisa que a gente não lembra por saudade. Lembra por necessidade. Lembra para não fingir surpresa depois, para não cair no mesmo buraco achando que é novidade. No Brasil, a memória anda curta e a mentira, com fôlego de amazônida que rema contra a correnteza. O passado recente ainda está quente, mas já tem gente soprando cinza por cima, como quem diz: “deixa isso pra lá”.
Só que não dá. Porque o que chamam de exagero foi rotina. O que chamam de opinião matou gente. E o que chamam de fé, patriotismo ou liberdade virou álibi para a estupidez organizada. Relembrar, hoje, não é saudosismo nem revanchismo. É vacina — daquelas que não viram jacaré, mas evitam que o país continue andando de quatro.
Então, antes que digam que é exagero, perseguição ou “mimimi”, vale puxar pela memória. Sem filtro, sem áudio encaminhado, sem general anônimo. Porque, caboco, lembrar não é viver. No Brasil recente, lembrar é um ato de legítima defesa.
Relembrar é viver
Caboco, dizem que lembrar é viver. No Brasil recente, relembrar é sobreviver ao constrangimento histórico. Houve um tempo — não tão distante — em que a ciência virou inimiga pública. Pessoas recusavam vacina em plena pandemia, mas tomavam ivermectina para cavalo como se fosse sacramento.
O remédio sem prova era tratado como milagre; a vacina, como conspiração globalista. E veio a piada presidencial: “Se virar jacaré, problema é seu”. O problema virou estatística: mais de 700 mil mortos.
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Patriotismo também ganhou fantasia. Camisa da CBF, bandeira do Brasil e boné do Trump — porque nada é mais nacional do que importar autoritarismo. Cantava-se o hino diante de quartéis, pedindo golpe militar “pela democracia”, essa palavra elástica que se dobra conforme a conveniência. Banalizou-se o autoritarismo; surgiram patriotas que confundem Brasil com a Flórida.
A fé foi sequestrada. Vacina virou “marca da besta”, enquanto fiéis oravam de joelho para pneus, caminhões e celulares. Símbolos cristãos serviram para justificar ódio e violência. Jesus foi transformado em cabo eleitoral, pedindo voto com megafone celestial.
E houve o culto ao Mito. Bolsonaro virou infalível. “Prefiro ele errado do que a esquerda certa”, diziam, sem perceber a própria confissão. A política cedeu lugar ao fanatismo. Se o líder dissesse que a Terra é plana, pediriam um telescópio patriótico.
Fake news operaram em escala industrial: mamadeira de piroca, kit gay, urnas fraudadas sem prova — mas com fé. Vídeos toscos, áudios de “general anônimo”, fontes do tipo “confia”.
Tudo embalado pela estética do ridículo armado, até culminar no 8 de janeiro: patriotas quebrando a pátria que diziam defender, filmando os próprios crimes e postando com orgulho confiantes na impunidade. Restaram presos, perplexos, descobrindo que burrice digital também deixa rastro.
A pesquisa
Como se a realidade quisesse, ou precisasse, reforçar a piada de mau gosto, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) decidiu medir nossa capacidade de distinguir verdade de mentira no ambiente digital. Nasceu a Truth Quest Survey, uma pesquisa aplicada a cerca de 40 mil pessoas em 21 países, com foco no que hoje define o debate público: informação circulando no formato das redes sociais.
Os participantes receberam conteúdos simulando postagens digitais sobre política, saúde, ciência, meio ambiente e temas internacionais.
A tarefa  era simples e brutal: identificar o que era verdadeiro e o que era falso, além de avaliar a confiança nas fontes. Nada de textos acadêmicos — era o mesmo tipo de conteúdo que aparece diariamente no feed, no grupo da família ou no encaminhamento “urgente”.
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A média global de acertos ficou em torno de 60%, um número já considerado preocupante pela própria OCDE. O Brasil, porém, conseguiu ir além — ou aquém. Ficou na última colocação, com cerca de 54% de acertos, errando mais do que acertando. Em outras palavras: diante da desinformação, o brasileiro médio tropeça mais do que caminha.
A OCDE fez questão de ponderar: não se trata de um ranking mundial definitivo, nem inclui todos os continentes, como a África. Ainda assim, o alerta é inequívoco. O desempenho brasileiro revela baixa educação midiática, dificuldade em avaliar fontes confiáveis e alta vulnerabilidade a conteúdos manipulados emocionalmente — exatamente o combustível das fake news políticas e sanitárias.
Em um país que consome informação em escala industrial pelas redes sociais, onde o WhatsApp virou agência de notícias e o TikTok, sala de aula, discernir fatos virou artigo de luxo. A mentira corre de chinelo; a verdade, de muleta — e ainda tropeça nos algoritmos.
As fake news do ano
E 2025 não decepcionou no quesito criatividade delirante. Disseram que paracetamol causa autismo. Gestantes entraram em pânico, famílias ficaram assustadas, enquanto o Ministério da Saúde e a OMS repetiam o óbvio: não há qualquer comprovação científica disso. O TEA é complexo, multifatorial, mas a mentira é simples e viral.
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Ressuscitaram a greve dos caminhoneiros de 2018 como se fosse protesto atual. Vídeo velho, fora de contexto, repaginado com IA e pânico. “Comprem mantimentos!”, gritavam. A concessionária jurava: nada acontecendo. Mas quem precisa de realidade quando se tem engajamento?
Inventaram a taxação do Pix — de novo. A Receita Federal virou vilã instantânea, como se cada transferência gerasse um boleto automático. Não havia imposto, não havia taxação, apenas regra de monitoramento já existente. Mas a mentira, essa sim, foi isenta de qualquer fiscalização.
Circularam áudios falsos de Lula comemorando a prisão de Bolsonaro, vídeos adulterados com Sandra Annenberg promovendo programas inexistentes, golpes pedindo CPF, imagens de celebridades dizendo o que nunca disseram — tudo gerado por inteligência artificial, usada, ironicamente, para produzir burrice natural.
As urnas eletrônicas continuaram sendo acusadas, apesar de todas as checagens oficiais. Greves que não existiram, leis que nunca foram aprovadas, ministros “destituídos” só no delírio coletivo. Conspirações sobre programas secretos, manipulação social, controle oculto. E, claro, mentiras recorrentes sobre saúde pública, porque nada une mais um grupo do que o medo embalado em desinformação.
E agora, José?
E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o Pix não foi taxado, a greve não veio, a urna não fraudou, o paracetamol não causou autismo — mas a mentira continua circulando, firme e forte, com sinal 5G.
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Talvez reste rir, para não chorar. Rir do patriota que odeia globalismo usando boné importado. Rir do negacionista que desconfia da ciência, mas acredita num áudio de tio desconhecido. Rir do defensor da ditadura que se diz amante da liberdade. Rir, porque a alternativa é enlouquecer.
Mas, depois do riso, sobra a pergunta incômoda: quem vai desligar o grupo da família? Quem vai ensinar que verdade não é questão de opinião? Quem vai explicar que democracia não combina com quartel, que fé não combina com ódio, que ciência não nasce no YouTube?
E agora, José? Agora é estudar, desconfiar, checar, ler, perguntar. Porque, do jeito que está, o Brasil não perdeu apenas no ranking da OCDE. Perdeu no campeonato da lucidez — e isso, caboco, não tem troféu que console.
Referências
https://www.oecd.org/en/publications/2024/06/the-oecd-truth-quest-survey_a1b1739c.html
https://www.scielo.br/j/csc/a/PBmHtLCpJ7q9TXPwdVZ3kGH/?format=html&lang=pt&utm_source=chatgpt.com
https://www.em.com.br/nacional/2025/10/7271182-o-perigo-da-ascensao-das-fake-news-geradas-pelas-ias-no-brasil.html?utm_source=chatgpt.com
https://www.em.com.br/nacional/2025/10/7271182-o-perigo-da-ascensao-das-fake-news-geradas-pelas-ias-no-brasil.html?utm_source=chatgpt.com
https://www.em.com.br/nacional/2025/10/7271182-o-perigo-da-ascensao-das-fake-news-geradas-pelas-ias-no-brasil.html?utm_source=chatgpt.com
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-com-ciencia/noticias/2025/janeiro/e-fake-news-nao-existe-planejamento-de-nova-pandemia?utm_source=chatgpt.com
https://www.gov.br/secom/pt-br/fatos/brasil-contra-fake/noticias/2024/brasil-contra-fake-atinge-1-1-milhao-de-visualizacoes-em-esforco-pela-integridade-da-informacao?utm_source=chatgpt.com
https://www12.senado.leg.br/verifica/materias-especiais/2025/datasenado-o-que-os-brasileiros-pensam-sobre-o-combate-a-desinformacao?utm_source=chatgpt.com
https://www12.senado.leg.br/verifica/materias-especiais/2025/datasenado-o-que-os-brasileiros-pensam-sobre-o-combate-a-desinformacao?utm_source=chatgpt.com
https://pt.wikipedia.org/wiki/Guiana_Brasileira_%28meme%29?utm_source=chatgpt.com
 
 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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