(ESCREVIVÊNCIA): DAS COISAS QUE VIVI E DAS MEMÓRIAS QUE CONSTRUÍ ENTRE 1997 E 1999

ESCREVIVÊNCIA: DAS COISAS QUE VIVI E DAS MEMÓRIAS QUE CONSTRUÍ ENTRE 1997 E 1999

(Escrevivência): Das coisas que vivi e das memórias que construí entre 1997 e 1999

Por Dione Torquato

Um dia, enquanto me preparava para iniciar mais um dia de trabalho. De repente, do nada, um pensamento inesperado: por que será que na cidade parece que tudo passa mais depressa? E cheguei a uma conclusão. Na minha comunidade, era diferente. Mas era diferente, não porque os segundos, os minutos ou as horas passavam mais rápido.

Mas porque nosso tempo tinha como referência a vivência coletiva diária na comunidade. Era como se a gente não se importasse tanto com o passar das horas, mas sim, com as tarefas e afazeres do dia. E nesse contexto, entre um trabalho e outro, as vivências que hoje são boas memórias da vida de antigamente, eram o que nos motivava a dormir e acordar no dia seguinte.  escrevivência

Pois de onde seu vir, o tempo não passava tão depressa como na cidade. E as pessoas paravam, cumprimentavam umas às outras e falavam de sonhos. A relação era de “comunhão”, um sentimento de amor, carinho e confiança mútua entre elas.

Em cada manhã, era um novo dia. Acordávamos com a sinfonia orquestrada do canto dos pássaros. Às margens do rio, muitos “curumins” “engurujados” e pensativos, tentando criar coragem para dar um “t’bum” antes de ir para a escola.  

Em casa, a mãe preparava, no fogão a lenha, o fritinho de “massa seca” ou de farinha molhada, nosso inesquecível “Pantixã”. Enquanto no “na beira girau” ou “Trapiche” os homens afiavam seus facões “na pedra”. Ah, antes de sair para o roçado, às vezes na hora do café, aquela visita matinal. Era minha vó que se aproximava e, lá de longe, já falava em alto e bom tom: “Ei de casa, lá vou eu! Vir tomar um cafezinho com vocês!” escrevivência

Nesse momento, a resposta era sempre a mesma. “Entre! Pode vir, a casa é nossa!”

Ali, sempre tinha umas histórias de antigamente, momentos em que aprendíamos, sorríamos e confraternizávamos juntos.

Momento depois, meu pai sempre dizia. Rapaz, a conversa está boa, mas temos que ir, pois o tempo vai ser longo hoje.

Dione — pegou a “malhadeira caiqueira”? Temos que atar no porto “caminho da casa de farinha”. Alguém pegou o relógio? Quem pegou os paneiros e os forros? Alguém lembra de levar as garrafas d’água?

E assim saímos, para mais um dia de trabalho na roça. Ao meio-dia (hora do almoço), mais um momento sagrado em nossa conivência. Era hora de parar de fazer a comida. Todos desciam até o porto da casa de farinha do tio Roberto, na “baixa”, ou às vezes na casa de farinha do seu Francisco. Era hora de alguém olhar a malhadeira, tirar o peixe e fazer a caldeirada mais gostosa de todas. Após um rápido almoço. Aquele “cochilo” de 15 min (quinze), ali mesmo, no meio das folhas, sempre com os olhos fechados e o ouvido aberto, pois as abelhas adoravam um “suor com sal” […]

Em dia de arranca de mandioca, nós sempre retornávamos um pouco mais cedo. A meta: 5 paneiros de mandioca para cada pessoa e depois, mais três viagens de lenha. Às vezes chegávamos em casa, entre 15h e 16h00. O café ou chá de “Capim -Santo”, já estava no fogo, mas primeiro reforçávamos mais uma refeição, sempre à base da proteína de peixe ou caça do mato. Nós, “os Curumins” como todo brasileiro, já dizíamos: rapaz, eu não vou comer muito não, para não ficar pesado na hora do jogo. escrevivência

A partir das 17h00 (dezessete), começavam as cheganças. Na época de cheia, quase todos usam o trajeto de canoa, uns traziam “toras de farinha”, outros banana, outros peixes ou macaxeiras.  

E às dezoito horas, a bola começava a roncar no campo, de certo pelos chutes para o alto. Era meu primo Jerne, chutando a bola, um convite para dizer que estava na “hora da bola”. Em poucos minutos, toda a comunidade estava reunida. No campo: os meninos, mulheres e anciões, com idade de até 50 anos. Enquanto na beira do campo, ficavam as mulheres, as crianças e os mais velhos. Entre dezoito e trinta minutos era uma “gritalhada” só, todos torciam para todos. No campo, no mínimo 30 pessoas divididas em duas equipes de quinze pessoas. escrevivência

A noite logo se aproximava, mas o dia ainda não tinha acabado. Ao encerrar o futebol, era hora de “aprufiar”, saber quem chegava primeiro no rio ou no igarapé “onde todos tomavam banho”

Por volta das 20h (vinte horas), vinha o momento da janta. Sendo mais um momento de contação de histórias.

Logo em seguida, era hora de ir para casa e para a comunidade Carú (lugar onde nasci), assistir à novela, pois na época era o lugar onde existia uma TV comunitária doada pela prefeitura.

A partir das 22h, retornávamos para nossa comunidade, que era a comunidade São João do mulato (lugar onde morava na época), onde dormíamos. No dia seguinte, tudo começava novamente, assim era um “dia de vida” na minha comunidade. escrevivência

Escrevivência é um conceito que une “escrever” e “viver” para descrever uma escrita comprometida com a vida e a vivência, tanto individual quanto coletiva. – Conceição Evaristo

Glossário (paneiro)

Comunhão: vida em comunidade

Curumins: meninos no plural

Engurujados: pessoa com frio

T’bum ou T’chum: mergulho rápido no rio

Massa seca: farinha de mandioca seca sobre calor do sol

Pantixã: bolinho ou rosquinha de farinha

Jirau: Varanda da casa

Trapiche: plataforma de madeira Pedra: objeto de afiar fação malhadeira Caiqueira: Rede de Pesca

Caminho da casa de farinha: varadouro ou estradaCasa de farinha: lugar onde se beneficia a mandioca/Aipim

Baixa: área de terra íngreme (pode ser chamada de ladeira e subida), ou baixada

Cochilo: sono leve

Capim Santo: planta tradicional utilizada como chá e outras utilidades medicinais.

Tora de farinha: saco amarado na boca (não tão cheiro)

Hora da bola: jogo de futebol coletivo

Gritalhada ou gritaria: várias pessoas conversando simultaneamente

Aprufiar: disputa ou aposta

Capa: Crianças, 1935. Tarsila do Amaral. óleo sobre tela, c.i.e. 97,50 cm x 140,00 cm. Reprodução fotográfica Fábio Praça.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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