FORMOSA: A TRADIÇÃO DA FOLIA DA ROÇA

A Tradição da Folia da Roça

Sou vira-mundo virado/pelo mundo do sertão/mas inda viro esse mundo/em festa, trabalho e pão” 0 Gil/Capinam

Por Josyra Sampaio

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Folia da Roça – Formosa – Facebook 

O sagrado, a mobilização permanente, a criatividade e o código de raiz dos foliões de Formosa irão resistir?

O que está escriturado no espaço de manifestações das danças de Formosa, quando são observados como símbolos significantes a subversão da ordem na folia da roça, a imitação de status na folia da cidade, o deslocamento na questão do sagrado, o conjunto de signos interativos nas representações e a mobilização permanente da criatividade dos foliões?

Observa-se que eles não chegam a sentir perplexidade diante de sua condição desumana de pobreza material, porque simbolizam instantaneamente seu pensamento, seus desejos e suas carências, através da linguagem artística e gestual que elegem para expressá-los. Na folia da roça, resgatam o orgulho ao sobrepujar os patrões quando cantam, dançam e dirigem os ofícios dos autos e no momento em que conseguem subverter a ordem estabelecida. (…)

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Folia da Roça – Formosa – Facebook

Com o tributo à entidade religiosa, garantem o espaço e o tempo de convivência que vai consagrar a fartura fugaz do alimento. Na construção dos espaços comuns, com suas flores, bandeirolas e adereços manifestam a vocação das harmonias plásticas. Na composição das modas, no repique das violas e percussões e nas danças organizam, com estruturas rítmicas e melódicas, seus objetos do cotidiano, promovendo a congregação e a fraternidade entre grupos e pessoas.

Observa-se que os foliões de Formosa transcendem o estado de perplexidade escriturando, no espaço/tempo em que ela ocorreria, a reconstrução de seus recursos de sobrevivência, física e psicológica, coletiva. A perplexidade tem entre eles, desse modo, uma existência imanente que gera energia criadora.

O processo atual de internacionalização dos bens materiais e de cultura possui recursos sofisticados de mobilização e massificação para atingir o comportamento das pessoas, e apartá-las de suas raízes culturais e transformá-las em seres submissos ao consumismo, desprovidos de determinação e de força criativa.

Tudo indica que, por via contrária ao que se observa entre os foliões de Formosa, o estímulo à inventividade e à criação de beleza resgatará nos outros as forças naturais que estão entorpecidas pelo discurso fascinante da mídia, favorecendo neles o reconhecimento de sua identidade cultural, para, finalmente, poderem criar beleza a partir de seus códigos de raiz. Então serão pessoas completas, porque prontas para atingirem a capacidade de espanto diante das diferenças injustas (…).

Fonte: Formosa – foliões e violeiros – Projeto Danças do Brasil, 1999, pp 151, 152. Edição Iêda Vilas-Bôas.

 

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Celebração cultural marca 50 anos de retomada da tradição e destaca a importância da valorização do patrimônio imaterial no Entorno do DF e de todo estado de Goiás

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Festa do Divino Espírito Santo em Formosa. (Foto: Divulgação SEDF-GO).

A tradicional Festa do Divino Espírito Santo foi encerrada neste domingo (08/06), em Formosa (GO), com a presença do Secretário do Entorno, Pábio Mossoró, que representou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, na celebração. A festa, considerada a maior manifestação religiosa e cultural do município, integra o calendário oficial da cidade e atrai milhares de participantes da região todos os anos.
Reconhecida como patrimônio histórico e cultural imaterial de Formosa pela Lei nº 708/2021, a Festa do Divino é realizada na forma de duas folias simultâneas — a Folia da Cidade e a Folia da Roça — além da Folia Mirim, que envolve estudantes da rede municipal de ensino.
Neste ano, a festa celebrou seu Jubileu de Ouro, marcando os 50 anos desde o seu retorno em 1975, após um período de interrupção. Embora retomada há meio século, a Festa do Divino é uma celebração centenária, com origens anteriores ao período de interrupção, o que reforça seu valor como patrimônio histórico e cultural de Formosa.
Durante os dez dias de programação, o evento promoveu apresentações culturais, rituais tradicionais, a escolha dos novos festeiros e ações comunitárias, como o almoço coletivo no Divinódromo — espaço dedicado às celebrações. A festa mobiliza moradores e visitantes, além de impulsionar o turismo cultural e religioso no município.
“Apoiar festas como esta é valorizar a identidade de uma população e garantir a continuidade de tradições que atravessam gerações”, afirmou o Secretário do Entorno, Pábio Mossoró. “É fundamental que o poder público reconheça e fortaleça manifestações que reafirmam o direito à diversidade e à livre expressão da fé.”
Segundo a gerente de Integração Interfederativa da Secretaria do Entorno, Pâmella Miranda, a festa conta com uma ampla rede de apoio, incluindo doações da comunidade e recursos de diferentes esferas do poder público.
Participaram do encerramento, além do secretário Pábio Mossoró, sua esposa, Josélia Leão, e diversas autoridades, entre elas a prefeita de Formosa, Simone Ribeiro, e o prefeito de Planaltina (GO), Cristiomário Medeiros.

Secretaria do Entorno do Distrito Federal | Governo de Goiás

 

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Formosa Antigo – Foto: Acervo Municipal 

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Formosa Paixão!

Formosa, nosso lugar, nossa amada casa, o local onde fica a sede da Xapuri, faz aniversário em 1o de agosto. Para celebrar, compartilhamos a letra da música Formosa Paixão, produzida por Zezé Weiss e Chico Filho, na madrugada do dia 06 de maio de 2011:

Formosa, Lagoa Encantada
Paranã, Esperança, Cerrado
Araras, Bisnau, Andorinhas
Lajedo Alagado

Itiquira, Fartura das Águas
Povo antigo, Crixás, Quilombolas
Lago Azul, Sóis, Luas, Auroras
Arrebol Dourado

Formosa
Janela de Sonhos
Bola, Lobeira, Viola
Formosa Paixão!

Formosa Paixão
Foto: Buraco das Araras Acervo: Prefeitura Municipal

ALGUNS DADOS HISTÓRICOS SOBRE FORMOSA

Pra quem é de outra região, segue um pouco mais de informação sobre Formosa:

– Formosa é um município do nordeste goiano. A sede do município está localizada a cerca de 80 km de Brasília e a 280 de Goiânia, capital do estado de Goiás.

– Sua população, segundo o Censo do IBGE (2010), é de 97.903 habitantes. Quem mora por aqui sabe que já passamos muito dos 100 mil.

– Nossa cidade surgiu em meados do século XVIII, quando Goiás fazia parte da Capitania de São Paulo.

– A região onde o Arraial dos Couros foi erigido já havia sido habitada por ameríndios, há pelo menos 4 milênios antes da nossa era.

– Segundo a lenda, seus primeiros habitantes foram os moradores do Arraial de Santo Antônio, no vale do Paranã, que migraram para o novo local depois de uma forte epidemia de malária. O povoado foi primeiro batizado de Arraial dos Couros, em homenagem aos viajantes que acampavam no local para vender couro e sal.

– Contrariando a lenda, não havia casas cobertas de couro. Os couros e as peles dos animais eram produtos muito valiosos, usados para o comércio (somente em situações excepcionais, o comerciante os utilizava como cama). No final do século XIX, as casas do povoado eram cobertas de capim, ou com folhas de coqueiro.

– A primeira rua de Formosa foi a Rua dos Crioulos, hoje Rua Jesulino Malheiros.

– A criação do município de Formosa deu-se em 1 de agosto de 1843.

Fonte: Dados históricos extraídos do livro “Album de Formosa”, obra póstuma do escritor formosense Alfredo Nasser, por Zezé Weiss. 

Formosa Paixão
Foto: Lagoa Feia – Acervo: Prefeitura Municipal

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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