FUTEBOL: A MÁFIA NO PODER

Futebol: A máfia ainda no poder

A Seleção Brasileira segue de forma brilhante sua trajetória rumo à Copa do Mundo da Rússia, no ano que vem, sob o comando do técnico Tite, que se impõe pela competência. No entanto, enquanto isso a máfia que controla o futebol tupiniquim continua empoleirada na Confederação Brasileira, a CBF, e em novo golpe desfaz pequenos avanços obtidos na tentativa de democratização da entidade.

Por Jaime Sautchuk

Em assembleia realizada na socapa, dia 23 de março, os cartolas reduziram ainda mais o peso dos clubes nas decisões da CBF. Agora, cada voto das 27 federações dos estados e DF têm peso de 3, os dos times da Série A valem 2 e os da Série B valem 1. Ou seja, a cartolagem tem 81 votos, contra 60 das agremiações.

Após alguns processos judiciais e condenações ocorridas, inclusive nos Estados Unidos, o que se esperava é que a entidade-mor do nosso futebol tomasse jeito, mas que nada. Seu atual presidente, o paraense Marco Antônio Nunes, ou apenas coronel Nunes, tinha sido eleito na vice de Marco Polo Del Nero, como uma espécie de salvaguarda de boas práticas esportivas.

Dirigente de um estado do Norte, longe dos principais centros esportivos do País, talvez trouxesse hábitos também distantes da quadrilha que toma conta do pedaço desde os tempos do finado João Havelange. Contudo, pelas ações por ele já demonstradas, podemos deduzir que muito pouco ou nada mudou.

Pra quem não acompanha essas jogadas, não custa lembrar que Del Nero é dirigente do futebol paulista, com origem no Palmeiras e foi eleito presidente da CBF em 2015, com mandato até 2019. Ele substituía o ex-presidente José Maria Marin, que se encontra foragido da justiça, com ordem de prisão decretada.

Del Nero foi eleito em um acordo entre as 27 federações e os 20 clubes da primeira divisão que tinham direito a voto, com peso igual. Logo, porém, também foi arrolado pela justiça dos EUA, sob a acusação de negociar contratos e resultados em três campeonatos: Copa América, Libertadores da América e Copa do Brasil.

Caso viaje aos EUA ou a qualquer país que tenha acordo de extradição com as autoridades ianques, ele será preso. Também está sendo investigado pela Fifa, entidade máxima do futebol mundial, acusado de quebrar o seu código de ética, por corrupção.

Assim, ele pediu licença da presidência da CBF, como forma de sair de cena e tentar defesa, de modo que o coronel Nunes assumiu o cargo interinamente.

MUITO DINHEIRO

Quando da criação do Ministério do Esporte, no início do primeiro governo de Lula, surgiram também programas oficiais de apoio financeiro a clubes e entidades. Ao receber a proposta de dinheiro público, no entanto, a CBF, então sob a presidência de Ricardo Teixeira, enjeitou a oferta.

A razão da recusa ficou óbvia. Caso aceitasse, a entidade teria que se submeter a auditorias públicas, do que era isenta pelo seu caráter privado. Teria que explicar, por exemplo, o que fazia com os polpudos recursos de patrocínio que tinha, especialmente os advindos do contrato com a gigante Nike, empresa ianque de calçados, roupas e materiais esportivos.

Os exagerados salários dos dirigentes, viagens em profusão, luxuosos eventos e investimentos fora da área esportiva são alguns sinais visíveis da malversação desse dinheiro.

Com igual benevolência, a CBF alimenta os dirigentes das federações que formam sua base, o que explica o conluio que se manifesta em eleições e outras ações da entidade.

Atualmente, pra começo de conversa, faça chuva ou faça sol, cada federação recebe cerca de R$ 50.000,00 mensais a título de ajuda de custo, sem que precise prestar contas a quem quer que seja. Além disso, há o rateio das receitas dos diversos campeonatos, o que alcança montante superior a R$ 100 milhões anuais.

Este sistema influi também nas eleições de nova diretoria da CBF, que serão no ano que vem. Pra poder se inscrever, uma chapa precisa ter o apoio prévio de oito federações, o que nenhum candidato de oposição conseguirá.

A SELEÇÃO

Em verdade, como reconhecem os principais analistas de futebol da grande mídia nacional, a CBF não está voltada aos interesses dos 700 times profissionais a ela filiados. Os cartolas da entidade têm seus olhos e máquinas calculadoras fixados na Seleção Brasileira, sua galinha dos ovos dourados.

Todo dinheiro oriundo de jogos amistosos, vendas de espaços publicitários, patrocínios de longo prazo, direitos de transmissão por rádio, TV e Internet, relativos à Seleção, entra direto no caixa da entidade. Não passa por clubes, federações e muito menos pelo governo.

Nos últimos anos, a receita anual declarada pela CBF tem sido de mais de meio bilhão de reais, com algumas variações em anos considerados atípicos, como foi 2014, em que o Brasil hospedou a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos. De todo jeito, 82% de toda essa bufunfa advêm de atividades relacionadas à Seleção, segundo dados da própria entidade.

Há, porém, caminhos transversos pra se obter dinheiro do celeiro maior, que é o selecionado nacional. A escalação de jogadores é um exemplo mais usual, que já gerou várias ações do Ministério Público contra dirigentes da entidade e técnicos de futebol por ela contratados.

Funciona de forma simples. Um jogador brasileiro que atue no Brasil ou em times de outros países tem seu passe estipulado num valor xis. Se ele é convocado pra Seleção, porém, esse valor incha de imediato, possibilitando lucros excepcionais, ainda que ele fique no banco ou seja escalado em alguns jogos apenas.

O técnico não precisa necessariamente estar mancomunado com a quadrilha, basta que seja suscetível a pressões pra que convoque este ou aquele atleta.

Este, felizmente, não é o caso do atual técnico, o Tite, mas ele só foi escalado pra função após forte pressão da sociedade, reforçada pela ameaça de o Brasil não se classificar pra Copa do Mundo do ano que vem.

LINHAGEM

A linhagem de corrupção que domina o futebol vem desde a década de 1960, quando João Havelange se deu conta de que este esporte podia render prestígio e dinheiro. Ele era presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportes (CBD), que abarcava também as modalidades olímpicas, de onde ele provinha.

Nas copas de 1958, na Suécia, e de 1962, no Chile, Havelange sequer foi assistir as retumbantes vitórias brasileiras. Quem comandava o futebol na CBD era o empresário e desportista Paulo Machado de Carvalho, mas este foi alijado em 1966, na Inglaterra, quando o selecionado brasileiro passou vergonha.

Nos preparativos da Copa de 1970, Havelange engoliu o jornalista João Saldanha como técnico, até às vésperas dos jogos, quando o general Emílio Médici, que ocupava o cargo de presidente da República, quis interferir na escalação da equipe.

Saldanha não aceitou e o militar pediu sua cabeça, que Havelange entregou e nomeou Mário Lobo Zagalo pro seu lugar.

Dois anos depois, já de olho na Fifa, Havelange organizou o chamado Mundialito, uma copa mundial fora de época, sem times europeus, cujo objetivo era atrair principalmente países asiáticos e africanos. Com isso, ampliou o número de membros da entidade mundial do futebol e criou base pra se eleger seu presidente.

O desvio de dinheiro foi tão grande no Mundialito que irritou o ditador de plantão, general Ernesto Geisel, que pediu a criação de uma entidade que cuidasse só de futebol, como forma de retirar essa área das mãos de Havelange. Assim nasceu a CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

Foi um breve período de trégua, mas Havelange deu um jeito de colocar seu genro, Ricardo Teixeira, no comando da nova entidade. Este era um empresário falido, que nunca tinha mexido com esportes, mas passou a comandar o futebol e enricou rapidamente, ampliando o leque de dirigentes corruptos nessa área.

E fez seus sucessores na presidência da CBF, que foram José Maria Marin, que está preso e aguardando julgamento nos EUA, e depois Marco Polo del Nero, que parecia ser o último da dinastia Havelange.

Pelas últimas decisões da entidade, porém, podemos deduzir que não era.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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