Giselli Oliveira destaca importância de acessibilidade na mobilização da Marcha

GISELLI OLIVEIRA DESTACA IMPORTÂNCIA DE ACESSIBILIDADE NA MOBILIZAÇÃO DA MARCHA

Giselli Oliveira destaca importância de acessibilidade na mobilização da Marcha

A cientista social é uma das integrantes do Grupo de Trabalho (GT) de Acessibilidade, na Bahia

Por Beatriz de Oliveira/Gelédes

De Cachoeira (BA), Giselli Oliveira está com altas expectativas para a segunda Marcha de Mulheres Negras, marcada para 25 de novembro, em Brasília. Sua ansiedade envolve questões de inclusão e acessibilidade. “Sendo uma mulher com deficiência, que utiliza cadeira de rodas,  já saio de casa me perguntando se minha cadeira vai quebrar”, relata. 

Giselli Oliveira é cientista social, estudante de Direito, pesquisadora em cultura, linguagens e territórios na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e integrante do coletivo Quilombo PCD. 

Desde sua adolescência, a baiana é atenta às desigualdades raciais, mas foi ao entrar na universidade que sua trajetória de militância teve início. Foi cofundadora do Núcleo de Estudantes Negros e Negras – Akofena da UFRB. Além de tratar questões raciais dentro e fora do ambiente universitário, o coletivo reivindicou melhores condições para pessoas com deficiência. “Nós paralisamos a universidade exigindo acessibilidade”, lembra. 

Após se formar, continuou na militância e, ao saber da Marcha Nacional de 2015, se interessou em participar da construção da manifestação. No entanto, sofreu capacitismo ao tentar participar de um evento relacionado ao ato. “Não foi a primeira vez que sofri capacitismo dentro de um coletivo negro”, relata. 

Isso fez com que Giselli se afastasse do ativismo do movimento de mulheres negras. Até que, em 2025, foi convidada a participar de um encontro sobre a segunda Marcha nacional, que culminou na criação do Grupo de Trabalho (GT) de Acessibilidade, na Bahia. Na ocasião, se sentiu verdadeiramente acolhida, o que fez com que se engajasse na mobilização para o ato. 

No encontro, pessoas sem deficiência também falaram sobre a importância do anti-capacitismo. Assim como o negro não é responsável pelo racismo, nós, pessoas com deficiência, também não somos as responsáveis pelo capacitismo. Toda a sociedade deve estar unida em prol do anti-capacitismo, inclusive, porque qualquer pessoa pode se tornar uma pessoa com deficiência”, afirma. 

O GT de Acessibilidade tem sido um espaço para compartilhar experiências, mobilizar mais mulheres PCDs para essa construção e pensar a segurança das que irão para a Marcha. 

“Estamos preocupadas com a estadia dessas mulheres lá em Brasília, se, de fato, o alojamento é um local acessível para nós. Então, estamos articulando como essas mulheres vão sair dos seus espaços seguros para irem a outro lugar, no caso a marcha, que também precisa ser acolhedor para nós”, explica. 

Para a ativista, mulheres de todo Brasil e de outros países estarão reunidas, será um momento de fortalecimento do movimento. Pensando sobre os conceitos de Bem Viver e reparação, motes do ato, Giselli acredita que se tratam de levar a vida com dignidade e,para ela, isso se traduz em ter acessibilidade e inclusão. 

Significa também parar de romantizar a sobrecarga das mulheres negras e sair da linha da luta por sobrevivência. “Precisamos de descanso e, sobretudo, pensar uma vida em que possamos trabalhar, estudar e ter nosso lazer. Que a gente possa se amar e se respeitar”, diz. 


A conversa com Giselli Oliveira integra a série de entrevistas “Mulheres Negras em Marcha”, que dialoga com ativistas do movimento de mulheres negras de diferentes gerações e regiões do país, a fim de pautar a 2ª Marcha Nacional de Mulheres Negras, que acontecerá no dia 25 de novembro, em Brasília. As entrevistadas vão relatar suas trajetórias de luta, seu engajamento nas marchas e os motivos que as fazem marchar cotidianamente. 

A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver trata-se de uma continuação do movimento que aconteceu em 2015 e reuniu milhares de militantes em Brasília: a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver. Uma década depois, o movimento de mulheres negras pretende reunir 1 milhão de marchantes na capital do país a fim de reivindicar um novo pacto civilizatório.

Fonte: Geledés Capa: Acervo Pessoal/Giseli Oliveira

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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